julho 12, 2020

A Assistente (2019) | Crítica

Jane (Julia Garner) acorda por volta da madrugada e se direciona ao prédio na qual trabalha em um táxi, olhando através do automóvel, as diversas janelas, algumas acessas e outras apagadas. Ao chegar, ela prepara todo o ambiente: acende as luzes, limpa a sala de seu chefe, organiza prioridades, tudo antes de seus “colegas” de trabalho chegarem. Ao mostrar sua rotina em detalhes, Kitty Green exerce duas funções claras: a primeira é ambientar seu espectador no espaço desgastante da rotina de sua protagonista e, segundo, expor através de uma construção sutil da linguagem, a inferioridade que Jane sente em seu ambiente de trabalho devido a forma como os homens ao seu redor lhe tratam e a tentativa de manter uma postura equilibrada enquanto, no seu interior, percebemos uma forte vontade em liberar sua emoção que é reprimida pela mesma ao perceber que isso pouco lhe ajudaria na ocasião. Uma triste realidade de uma mulher dentro de uma realidade consumida pelo machismo.

Diferente de muitas abordagens temáticas mais declaradas em suas alegorias (como o recente O Homem Invisível) ou ainda mais explícita em seu discurso (Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres de 2011), Kitty Green, que dirige esse longa, caminha pela vertente oposta: ao invés de gritar para expor o terror da situação, ela opta por uma construção mais cuidadosa, omitida, mostrando os atos machistas e abusivos em detalhes como os instantes que o “colega” de trabalho de Jane lhe arremessa uma bola de papel – como se chamar fosse algo absurdo ou impensável – ou no modo que é humilhada pelo chefe e mantém sua postura, mesmo que vejamos um pedido de ajuda no seu olhar distante – e piora quando o próprio pede um pedido de desculpas por e-mail e seus companheiros de trabalho se posicionam ao seu lado, lhe “orientando” ao que deve escrever.

Com tudo isso, Green jamais procura criar uma objetividade que avance seu filme de modo direto, se preocupando em mostrar com detalhes, o cotidiano de Jane através da minucia que cria as composições visuais, desde planos-detalhe em plongée onde a observamos arrumar remédios em uma gaveta ou imprimir imagens e panorâmicas laterais na qual a acompanhamos enquanto caminha pelos espaços do prédio. Dentro dessa noção narrativa de quebrar um senso de dinamismo na qual contraria completamente seus 87 minutos de duração, a montagem ajuda ao compor uma cadência de cortes mais seca, encurtando certas cenas e estendendo aquelas que necessitam de um tempo maior, algo que auxilia na proposta narrativa de mostrar um dia na vida conturbada da protagonista. Existe também um certo minimalismo cênico na composição dos ambientes e através da forma que são registrados, evidenciando o íntimo de Jane e a maneira como seu sente em seu ambiente de trabalho, algo que a articulação de Kitty Green só reforça ainda mais na progressão da trama.

Seu sentimento interno de inferioridade no ambiente de trabalho é encenado através de inúmeros plongées onde vemos a personagem em uma posição desconfortável, quase sempre presa pelo quadro de Green, claustrofóbica até em espaços vazios que a diretora captura ao exercer planos-abertos dentro daquele ambiente, mostrando não só a desolação de Jane, mas o seu vazio em seu cotidiano e seu sentimento de completo desânimo, reforçado na forma como Kitty filma o universo na qual o cerca.

Povoado por ambientes banhados pelo cinza e branco, tal mundo é composto de maneira fria, insensível, melancólica e completamente apática. Seus personagens masculinos são quase como mecanismos programados para executar ações, não senti-las. Green quase sempre os retrata em cena de maneira distanciada, seja caminhando de modo autômato ou ausentes do enquadramento onde ouvimos apenas suas vozes, ou até mesmo presentes nele, mas desfocados, com a câmera sempre procurando um afastamento.

Tanto é que o chefe de Jane jamais é realmente revelado, pois Green não o vê como um rosto; ele não é uma imagem definida, mas um mal que cresce a cada instante e que pode estar em qualquer lugar. Uma ameaça que está perpetuada naqueles que cometem e que fecham os olhos para o que está em sua frente. E, dentro dessa noção, temos a personagem de Julia Garner: sua performance se adapta com exatidão ao molde mais contido de Jane, sempre isolada, fechada, a moça se vê na necessidade de se adaptar aos modos frios dos mundo que está situada, mas sem jamais esconder uma emotividade discreta em como prende as lágrimas e como segura as humilhações no trabalho – e, semelhante ao extraordinário Never, Rarely, Sometimes, Always, o instante na qual interage com o personagem de Matthew Macfadyen é o que melhor confirma a sensibilidade que havia ocultado em sua postura social mais rígida e fechada.

Mesmo que possua uma forte sutileza em sua abordagem temática a respeito de assédio no ambiente de trabalho, é nos minutos finais de A Assistente que sentimos o incômodo quando, através de uma inteligente rima visual com a abertura que vemos Jane observando janelas, presenciamos por um reflexo através de uma janela no alto do prédio a triste realidade de um mal que se expande sempre que fingirmos não enxergá-lo e agimos como se não existisse. E se Jane acaba a projeção sem ir atrás de uma resolução para tal problema, é uma escolha dolorosa por parte de sua personagem, já que possui consciência de que o ato não seria tratado com seriedade ou interesse, infelizmente.

Um comentário sutil sobre uma realidade melancólica comandada pelo machismo e suas consequências.

Avaliação: 4 de 5.
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