agosto 10, 2020

Em certo momento de The Lodge, vemos os personagens acolhidos dentro da cabana enquanto assistem o clássico O Enigma de Outro Mundo de 1982, de John Carpenter. A referência não poderia ser mais adequada: aparentemente isolados do contato com o exterior, a nevasca forte e a decorrência de outros eventos leva Grace (Riley Keough), Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) a desconfiarem do local onde realmente se encontram. Contudo, isso é somente a superfície desse excelente thriller psicológico com traços de horror e que puxa consigo uma discussão reflexiva bem pertinente.

Aliás, é curioso ver como The Lodge é um irmão estrutural do competente Boa Noite, Mamãe de 2014, já que lida com três personagens em uma ambientação isolada e um forte senso de paranoia em como os realizadores lidam com os espaços internos e o esvaziamento deles, algo que eles já explicitam nos minutos iniciais. Contudo, enquanto no trabalho de estreia da dupla, tal vazio trazia uma representação bem ambígua, esse aqui é mais direto ao representar como o íntimo emocional daqueles personagens se encontram, já que são figuras que perderam algo ou alguém. No caso dos meninos, está na ausência de suas imagens progenitoras – mesmo com o pai vivo, ele não se encontra presente em diversos momentos. Já para Grace, essa perda representa algo simbólico, mais relacionado a felicidade na qual lhe foi tomada devido ao seu passado – elemento que discutirei abaixo.

Por isso, Franz e Fiala voltam a empregar planos gerais dentro dos espaços mais apertados, reforçando essa lógica de um vazio constante naqueles personagens – e destaque para um evento nos minutos iniciais da projeção que, além de enquadrado de maneira estática para reforçar o choque, a lenta movimentação e a exploração da amplitude do ambiente (que é exibido logo após sem quaisquer presença humana) intensificam o peso dramático do momento. A escolha de ambientação também reflete o interior daquelas pessoas, sempre frio, distante, congelado por traumas e cicatrizes do passado. O design de produção reflete isso ao inserir detalhes que carregam um forte peso simbólico como a cruz do quarto de Grace e o quadro com uma figura santificada – a iconografia religiosa, inclusive, é intensa e constante, algo que parece uma repetição despropositada, mas que logo encontra uma razão temática válida.

Já como exercício de terror, ele se diferencia por não aderir aos artifícios convencionais do gênero, explorando a sugestão do horror do que os caminhos explícitos de costume – algo que se diferencia da grafia pouco justificável do terço final de Boa Noite, Mamãe – , imprimindo um trato mais inclinado para a articulação do psicológico. O medo aqui não é no sobrenatural, mas no real, enraizando a ameaça em um “fantasma do passado” que volta a assombrar a protagonista. A composição da escuridão nos espaços internos é bem controlada, equilibrando a ocupação da luz para que a mesma não oblitere a presença das sombras no ambiente. Já os tons de marrom da cabana trazem uma boa ironia por expressar conforto e acolhimento dentro daquele local que pouco representa isso para os personagens.

Todos esses aspectos, no entanto, são elaborados para intensificar ainda mais o peso temático de The Lodge, reservado para a maneira que Franz e Fiala discutem os traumas da intolerância religiosa na construção da personalidade. E, através desse aspecto que temos Grace como a protagonista do projeto, ao contrário do que aparentava inicialmente: além de focar em suas feridas internas, os realizadores articulam a maneira como tal acontecimento moldou a mulher que se tornou. Em certo instante, Richard (Armitage) pergunta a Grace se o crucifixo no quarto dela a incomodava, algo que é confirmado, não pela negação verbal da moça, mas através do olhar estático que encara o símbolo.

Outro momento reside naquele em que Grace apanha o quadro em que vemos uma figura sagrada e retira da parede como forma de rejeição e defesa das memórias amargas do seu passado doloroso. Grace aqui, é mais que uma personagem, mas um ponto de estudo muito profundo e bem construído para mostrar os traumas na mente de uma construção religiosa extremista. Nesse aspecto, aplausos para a extraordinária performance de Riley Keough que, encarna com intensidade a carga dramática que sustenta, imprimindo uma simpatia que vai contra a intensidade que demostra como válvula de proteção para os monstros que controla em seu passado obscuro. Contudo, a atriz traz o brilhantismo da performance ao incorporar a insanidade após determinado acontecimento do ato-final, indo do controle a completa perda de raciocínio. Provavelmente, a melhor interpretação de sua carreira até o momento.

Já Jaeden Martell e Lia McHugh pouco se sobressaem, entregando o básico para que venhamos a repudiar seus atos e compreender suas ações, mas jamais elevam as suas caracterizações como fizeram os intérpretes de Lukas e Elias em Boa Noite, Mamãe. Já Richard Armitage atua como uma visão passiva, quase metalinguística, do público em cena quando se faz presente. Não é um desperdício de talento do ator, mas certamente não figurará entre as melhores interpretações de sua carreira – especialmente pelo fato de aparecer muito pouco.

Referenciando o magistral Hereditário ao utilizar a casa de bonecas da Mia como um artificio para antecipar ou contextualizar acontecimentos narrativos, The Lodge é um excelente estudo dos traumas ocasionados por uma educação religiosa extrema que, ao invés de instruir bons ensinamentos, só concebe traumas das quais a vítima irá carregar por uma eternidade. E os realizadores foram tão felizes em homenagear Carpenter que, assim como The Thing encerrava com um final ambíguo que não entrega uma resolução direta, Franz e Fiala executam o mesmo, fazendo com que o impacto do projeto fique com você por mais tempo.

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