A composição do pecado capital

Stephen King uma vez disse:

            “No fim, todos os meses planejando e preparando se resumem a 5 minutos de tiroteio. ”

Logo ele que planeja bem pouco cada livro que escreve. Porém, mesmo os escritores que deixam a intuição e inspiração tomar conta de todo o trabalho literário; se prezam em organizar ao menos a premissa da história. Eu sou uma pessoa aficionada por estruturas, técnicas e modelos narrativos e essa cobiça me colocou na busca da “prosa perfeita”, me sinto feliz em compreender que o primeiro passo para isso é estudar sem cessar, enquanto houver oxigênio para isso, tentarei ver os alicerces por trás de toda obra artística.

Esse pensamento me levou a olhar com mais carinho para os filmes, músicas e poesias. Tentando decifrar como cada artista moldou as bases para a finalização da obra. Hoje vivemos em um mundo – querendo ou não – moldado pela padronização, isso é mais humano que uma lei natural do mercado e a partir disso, surgem moldes e formulas de como enquadrar processos artísticos nessa síntese. Tudo hoje em dia, principalmente no ocidente, gira em torno do modelo de 3 atos – primeiramente estabelecido por Aristóteles – e relido por diversas pessoas ao longo dos anos.

Syd Field, Blake Snyder, Gloria Kempton, Raimundo Carreiro, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e entre outros que falaram de escrita, ao seu modo, deixavam sua arte reservada em uma caixinha fechada, tendo tamanho e forma bem próximos a sua zona de conforto. Após estudar estes modelos, consegui ver cada ponto citado por eles em 90% de todo trabalho artístico dos últimos anos, sejam eles: filmes, músicas, jogos, animações e até em comercias de televisão.

Porém, a regra se quebra quando se é conhecida. Existe uma tara cretina e insana em busca da originalidade que, na maioria das vezes, é altamente prejudicial para a arte de um modo geral. É nesse momento onde vemos – por um mero tiro no escuro – os piores trabalhos, sejam eles avaliados com base em gostos pessoais ou em detalhes técnicos. Quando na verdade a originalidade está nos olhos de quem vê ou lê. Foi esse pensamento que me fez olhar com bastante carinho e admiração para uma obra conjunta de Andrew Kevin Walker e David Fincher.

Como dito anteriormente, trabalhos artísticos – em sua maioria – se enquadram em modelos por diversos motivos, sejam eles referentes a custo-benefício ou aceitação do público; independente da razão, eles ainda estão dentro de suas caixinhas e isso não seria diferente com essa obra de Fincher e Walker. 1995 foi o ano de estreia de “Seven: os sete crimes capitais” um thriller que encantou o público e crítica tanto de sua época quanto dos anos seguintes, como se fosse uma obra feita no ano que vem. Revi o longa e um dos detalhes que me chamou mais a atenção foi a inteligência de se brincar com os modelos conhecidos.

A obra se inicia da maneira padrão dos principais paradigmas, não há como fugir dela em primeiro momento, pois é ali que o público vai ter certeza que o seu dinheiro foi bem gasto, afinal o trabalho não é feito para ser guardado, mas sim, para ser amado. A história inicia mostrando os personagens principais de toda a trama, os envolvendo em um cenário que se constrói aos poucos por diversos personagens e abre as principais discussões das sub-tramas do filme.

  •  Choque de gerações
  •  Razão contra Emoção
  •  Ativo contra Passivo.

Todos esses pontos sendo contrastados pela personalidade dos dois personagens principais (David Mills e William Somerset) que mostram, logo no início, a diferença entre eles. Por mais que Mills seja o ponto chave para que a trama ande em diversos momentos, é sobre a vida e os dilemas de Somerset que o tom do filme espirala. Ainda no primeiro ato do longa descobrimos que o incidente incitante é a ligação dos crimes envolvendo os bíblicos sete pecados capitais (gula e cobiça); e seguindo o modelo, deveríamos esperar o momento de debate onde William Somerset ou David Mills teriam dois – ou mais caminhos – a seguir sem chances de retorno.

A trama nos apresenta isso pela visão de Somerset, um detetive que está contando os 6 dias para se aposentar. O filme mostra que ele almeja por isso de todas as formas; já não aguentando mais o emprego, a cidade e as pessoas. Mediante a este grande caso que está se formando, surge a pergunta:

            Aguardar os 6 dias restantes para a aposentadoria ou ajudar Daivd Mills no caso?

Há diversos motivos para que o detetive leve essa questão tão a sério, prestem bastante atenção nesse momento do filme, pois isso é uma grande aula de construção de personagem. Entretanto o mais interessante disso tudo é que o debate não é respondido, Somerset não diz se entra no caso ou não, portanto vemos uma prolongação do plot point deixando a mudança de primeiro para o segundo ato muito incerta. Essa é a principal característica do roteiro, brincar com o modelo para satisfazer toda a trama, seja essa mudança apenas prolongando os pontos de plot quanto realocando seus lugares na linha cronológica do paradigma.

Paradigma de Syd Field

O texto do filme se fecha em apenas poucos núcleos, se aprofundando obviamente na relação pessoal e profissional dos dois detetives. De acordo com os 12 beats de Blake Snyder, após a passagem do primeiro para o segundo ato a obra apresenta um ponto no qual ele conceituou de “Fun’n games”, é aqui onde – geralmente – os momentos de ação entraram e em Se7ven eles são seguidos com bastante fidelidade quando os detetives descobrem mais um assassinato: a preguiça.

A construção e a relação dos personagens são apresentadas gradativamente onde nessa parte do roteiro, fica mais evidente o choque de gerações causado por duas personalidades tão distintas. Tecnicamente o filme entra no segundo ato por começar a apresentar suas sub-tramas. Aqui Tracy, a esposa do detetive Mills, cria um vínculo afetivo com Somerset atribuindo a ele o arquétipo – temporário – de mentor.

Por mais que William Somerset não tenha respondido o debate de divisão do primeiro para o segundo ato, ele ainda é “forçado” a continuar no caso devido ao tempo que ainda falta para se aposentar e por acreditar que seu sucessor – detetive Mills – não está preparado para receber o manto. É nesse momento onde surge uma das cenas que deixa bastante claro o problema de gerações sendo algo enfatizado no filme.

Após os dois detetives encontrarem um informante e cruzarem as pistas, eles chegam ao primeiro suspeito; vão até o apartamento deste homem e são atacados por ele. Os takes nessa parte sempre mostram os personagens sozinhos, a velocidade das ações deixa bem claro a disposição que eles têm para o ofício, as roupas mais envelhecidas e a arma antiga constroem Somerset como um personagem cansado e antigo; já o couro, pistola automática e explosão de movimentos mostram David Mills como o jovem ativo.

De acordo com Syd Field, o meio do filme é conceituado de mid point onde outra grande catástrofe divide o longa em dois e após esse incidente, comumente, surgem dois pontos de consequência: a falsa vitória ou a derrota recompensadora. Como resultado destes problemas, esse é o momento onde os personagens estão mais fragilizados, seja de forma física ou mental, por toda essa quebra de expectativa; eis que entra mais um ponto interessante do filme. Seven não nos apresenta as consequências do mid poin, pois assim como a transição dos primeiros atos, ele está nebuloso; revelando apenas a derrota recompensadora quando os detetives entram na casa do suspeito e descobrem que ele é de fato o assassino.

Como forma de manter o ritmo, os núcleos vão ficando cada vez mais escassos e as mortes não param. O assassinato relacionado a luxúria deixa os personagens mais conectados emocionalmente, mostrando pequenos pontos em acordo entre os dois mesmo com personalidades totalmente opostas.

O filme já está com 75% da sua história contada e só agora o debate – que deveria estar na transição do primeiro para o segundo ato – é solucionado, o detetive William Somerset entra de todas as formas no caso e só se aposentará quando ele estiver resolvido. Fica muito claro o jogo com o roteiro, pegando um ponto do início da trama e trazendo para o final. O mais interessante é que não foi apenas o debate que mudou de lugar, mas os resultados do mid point também.

Seven se aproxima do final e o público almeja o clímax. O momento de desfecho – na maioria dos casos – fica entre o final do segundo ato e início do terceiro, podendo apresentar um plot twist como ferramenta para deixá-lo mais interessante, porém em Seven essa mudança de orientação da trama é apresentada antes do clímax, com o assassino (John Doe) se entregando – após cometer o crime relacionado a Vaidade –  por livre e espontânea vontade fazendo com que toda a investigação “pare” e mude seu direcionamento para encontrar as duas próximas vítimas.

Eis que surge um ponto que geralmente é apresentado no meio do filme como consequência – também – do mid point: a falsa vitória. Os detetives acham que o caso foi encerrado, quando na verdade Somerset desconfia que aquilo não passa da continuação do plano de John Doe. O roteiro prepara o espectador para entrar no clímax sem ter apresentado o momento de derrota extrema de seus personagens com bastante clareza – mesmo que Somerset ainda se veja preso a toda situação de solidão e incerteza.

O clímax é construído a partir de uma técnica muito conhecida chamada de foreshadowing, mostrando que ao longo do filme várias “pistas quentes” foram dadas, mas os personagens – e nem mesmo o público – conseguiram pegar; elas são mostradas aqui completando o quebra cabeça e revelando o plano final. Após David Mills descobrir que sua esposa foi morta (Inveja) por John Doe, o detetive se vê completamente destruído emocionalmente – relação que fazemos ao momento sucessor do mid point que deveria ser exatamente no meio do filme – completando o arco de crimes se apresentando como agente da (Ira), matando Doe e finalizando todo o plano antagonista.

O longa fecha a história mostrando a mudança de posicionamento de Somerset, onde no início do filme ele anseia em sair daquela cidade e no final, revela dizendo que mesmo aposentado ele ainda permanecerá por perto.

Seven é uma obra para se ver com muito carinho, pois mostra como uma regra conhecida e estudada pode ser quebrada para fornecer um grande espetáculo altamente bem estruturado e executado com primazia. Analisar roteiros como deste filme lhe abre um leque de possibilidades para olhar qualquer modelo e usá-lo e reformulá-lo da maneira exata da sua obra, esse tipo de estudo deixa muito claro que existe uma diferença colossal entre fórmula e forma.

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