julho 15, 2020

A Hora da Sua Morte (2019) | Crítica

Há duas sequências que, dependendo de suas reações a elas, irão definir qual será a sua opinião final a respeito de “Countdown” (traduzido porcamente como “A Hora da sua Morte“, ao invés de “Contagem Regressiva“): a primeira envolve um dos personagens que, ao instalar o aplicativo que entrega um cronômetro indicando quando a pessoa irá morrer – mesmo já tendo uma leve consciência das consequências posteriores – , decide tentar fugir (ao menos, é o que a obra aparenta mostrar), executando um ato falho, afinal o próprio já sabia que não adiantaria correr para lugar algum, tal como ocorreu com sua namorada, o que torna sua ação completamente inútil. A outra envolve a protagonista (Elizabeth Lail) pesquisando sobre informações do app e encontrando uma gravação na qual uma jovem é perseguida por algo e tem a capacidade de gravar o seu aparente assassinato, sem esboçar qualquer tipo de ação plausível como largar o celular no chão ou até derrubar acidentalmente o mesmo, algo que poderia ser justificado pelo desespero do momento. Pois bem, se caso a descrição dos instantes que ofereci não interrompeu seu medo, apenas reforçando ele, o longa provavelmente funcionou com você – afinal, a real intenção dele é assustar.
 
Porém, minha reação em ambos os momentos foi o riso. E isso nunca é um bom sinal em um filme de terror. 
 
Acho que ficou claro o que achei de “Countdown“, correto? Porém, é necessário que derrame minha negatividade a respeito da obra nesse texto, já que guardar sentimentos ruins em nosso íntimo nunca é positivo. Escrito por Justin Dec – que também assina a direção – , a premissa é moderadamente curiosa pelas possibilidades temáticas que abre: o conceito de uma maldição diretamente conectada a um aplicativo dá um material amplo para introduzir discussões profundas sobre o perigo das revoluções tecnológicas (alô, Destino Sombrio) e a cultura adolescente dos celulares, apps e os perigos acarretados na internet, assunto esse que tem um desenvolvimento curiosamente bem construído no ótimo “Brinquedo Assassino” do mesmo ano na qual esse foi lançado em seu país de origem (e que realizei um pequeno texto sobre ele que pode ser acessado aqui). No entanto, o longa de Dec simplesmente ignora toda a riqueza reflexiva que sua ideia possui e se limita a entregar um genérico em todos os âmbitos possíveis que essa palavra pode ter. Dito isso, vamos ao roteiro.
 
Ah… o roteiro.
 
Honestamente, acredito que nem existia uma narrativa pré-estruturada, mas sim uma série de acontecimentos convencionais de gênero que o realizador decidiu inserir lampejos de terror e humor involuntário. O texto tem uma mania irritante de, constantemente, quebrar suas próprias regras e conceitos, criando diversas inverossimilhanças estúpidas e risíveis, sendo a mais absurda uma que circunda a ideia do “acordo de usuário”, sempre quebrado toda vez que a assombração decide que está perto da hora de encerrar com a vida da pessoa, e mesmo com duas cenas que deixam nítido ao público esse elemento, o mesmo se auto-sabota ao colocar o acordo da protagonista para ser desfeito um dia antes do seu momento, quebrando completamente a lógica estabelecida anteriormente. Já a manifestação da entidade é repetitiva, sempre assustando as figuras centrais, mas jamais as atingindo diretamente e, quando faz isso, qualquer tipo de vínculo emocional é desperdiçado, já que o projeto não consegue fundamentar isso de maneira correta, sempre apelando para manipulação, especialmente no núcleo familiar de Quinn Harris, expressando relações dramaticamente complexas e usando meros artifícios convencionais para puxar algum tipo de importâncias pelas pessoas em cena – o que se torna impossível a cada ação imbecil tomada por eles. 
 
Na construção do terror, se Dec revela ser um péssimo roteirista, aqui demostra seu talento nulo como diretor ao empregar uma idealização preguiçosa dos momentos assustadores que, além de óbvios pelo uso da iluminação – repare que 90% deles se passam em locais escuros – e do emprego da trilha sonora, com altos acordes da melodia esperando espantar o público desavisado, algo que funcionaria caso a estrutura de suas cenas não fosse tão genérica e previsível, com as vítimas sempre ligando o modo “slow-motion” ao se movimentar pelos cenários. E se não fosse tortura o suficiente, o realizador executa quase todos os atalhos clichês para alcançar apreensão e medo, apelando até para os recorrentes jumpscares, o que cansa o espectador gradativamente e perde seu impacto depois da segunda cena com esse artificio.
 
Contando com diálogos patéticos e expositivos, personagens mal-trabalhados e uma disparidade de tons, indo de suspense a comédia sem qualquer preparação, “Countdown” é um verdadeiro show de horrores. Porém, não da forma que almejava ser. 
 
Até a morte soaria mais reconfortante do que rever essa monstruosidade novamente…

Avaliação: 1 de 5.
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