setembro 28, 2020

A Química que Há Entre Nós (2020) | Crítica

Um exercício curioso de ser realizado após ver Chemical Hearts (no Brasil, A Química que Há Entre Nós) é compará-lo com o aclamado As Vantagens de Ser Invisível, baseado no livro de Stephen Chbosky: na adaptação – visto que não li o material-fonte – , Charlie é um jovem traumatizado e preso em uma solidão devido a um passado que traz lembranças amargas. Portanto, assim que encontra refúgio em Sam e Patrick, o adolescente sente vontade de continuar. Contudo, a medida que a narrativa avança e alguns problemas ocorrem pelo caminho do protagonista, ele se encontra perdido novamente e seus traumas, antes contidos, começam a voltar para lhe assombrar. No final das contas, o conteúdo dramático do filme de Chbosky (que dirige a versão cinematográfica) era forte e facilmente comunicável em como imprime os dramas de uma fase sem sensacionalismo e através de uma chave documental eficiente (a fotografia granulada, o uso da câmera, etc.)

E então, temos Chemical Hearts que, em certo nível, compartilha das mesmas intenções e que o diretor, Richard Tanne, propõe uma abordagem dramática, mas que, o resultado final acaba aquém da proposta e acaba por fazer de todos os fundamentos dramáticos fúteis em uma exploração auto-importante que compartilha com outro drama adolescente lançado em streaming esse ano: Você Nem Imagina, da Netflix. Contudo, se aquele ainda era capaz de operar bem dentro de alguns alicerces do drama, aqui, não ocorre isso graças a forma pseudo poética na qual Tanne dirige a obra, escolhendo uma exploração fetichista com a imagem, tudo dentro de uma pose “indie” pouco funcional em níveis práticos.

Acho que o principal problema de Tanne é em como ele decupa as cenas procurando essa exploração indie, mas que jamais alcança alguma importância dentro da construção emocional ou narrativa, soando como recursos para fazer o filme soar mais “bonito”. Não sendo injusto com ele, acredito que ele exerce algumas decisões estilísticas mais cruas que revelam um realismo adequado, como bem exemplifica um desabamento emocional específico de Grace (Lili Reinhart) em frente a casa de Henry (Austin Abrams) e outro na qual o casal tem sua primeira relação sexual – momento que, inclusive, Tanne e o fotógrafo Albert Salas usam de uma iluminação quase escassa para incitar esse senso mais realista.

Executando escolhas pontuais como essa, boa parte dos elementos de linguagem são usados pra reforçar uma pose “indie” do que para articular alguma relação dramática com a imagem ou criar as complexidades de seus personagens através dela. Tanne também encontra deméritos em como usa a montagem para pular etapas dramáticas da projeção, prejudicando assim o fundamento emocional das relações em cena – isso é algo que o diretor faz nos minutos de abertura. Pouco existe espaço para explorar além dos arquétipos clássicos do subgênero (protagonista retraído, personagem traumatizado(a), amigos engraçadinhos, etc) e até para fazer dos momentos “poéticos” algo além de uma composição artificial à la “John Green” da adolescência, tornando as reflexões de Grace e Henry sobre a vida puramente frágeis e sem qualquer peso ou impacto dramático que tentem exibir.

Dito isso, volto a As Vantagens de Ser Invisível e seu protagonista, aqui espelhado em Grace: a jovem, tal como Charlie, carrega traumas que fazem de sua persona fechada uma espécie de casulo, um espaço onde pode se manter segura e controlar as memórias de seu passado sem que elas controlem sua vida. Nesse sentido, a chegada de Henry na sua vida é algo que a faz resgatar a vontade de viver que estava presa em algum lugar do seu espírito (e isso, isoladamente, já é moralmente repulsivo). Contudo, ao dizer isso tudo, não seria um espanto considerar Grace a protagonista. E nesse ponto reside o problema central de Chemical Hearts: a superficialidade do seu protagonista, no caso, Henry. Se a personagem de Reinhart carrega essas complexidades, seus dramas são um mero artifício para criar “empatia” – ou algo do tipo – pelo personagem de Austin Abrams que é desprovido de qualquer fundamento emocional convincente para estabelecer um laço com o público ou para exercer a função narrativa de protagonista.

Henry encarna o arquétipo do jovem contido, escritor e melancólico que o próprio Charlie de The Perks of Being a Wallflower também exibia em sua personalidade, mas o diferencial que distingue ambos os personagens é que, aquele visto no filme de 2012 carregava consigo uma exploração dramática convincente e tinha alguma conexão emocional com seu público, já aqui em Chemical Hearts, seu protagonista soa mais como um adolescente coberto por uma auto-importância e cujo os dramas são inexistentes e superficiais, algo nítido ao olhar atentamente a forma como “desaba” emocionalmente em frente a Grace em um ponto chave da projeção. E, claro, esse problema de protagonismo afeta drasticamente a articulação dramática de Tanne, fazendo com que a essência emocional se torne superficial e pouco conectivo.

Acaba que, olhando o impacto geral da obra cinematográfica, Chemical Hearts parece mais uma investida frágil e dramaticamente artificial de criar um drama adolescente maduro. E ainda que possua virtudes pontuais – Lili Reinhart continua sendo a melhor “descoberta” do seriado Riverdale, da CW – , elas não omitem a superficialidade emocional de uma obra que, além de protagonizada pelo personagem errado, não consegue sequer criar algo interessante ou comunicativo com seu personagem central. E, ao tentar ser mais do que aparenta, Richard Tanne cria apenas mais uma obra de nicho que vomita filosofias de vida sentimentalistas e mensagens positivas aleatórias em seu desfecho em uma tentativa desesperada de despertar algum sentimento.

Avaliação: 2 de 5.
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