maio 28, 2020

A Última Coisa Que Ele Queria (2020) |Crítica

     O que se espera de um filme sobre jornalismo investigativo? Tensão, ação, tramas complexas e inteligentes, com reviravoltas, se possível, quase impensáveis, mas nas mãos da diretora Dee Rees, dos bons Pariah (2011) e Lágrimas Sobre o Mississippi (2017), o resultado ficou “além do aquém” do esperado e quando você termina de ver o filme, logo sabe que aquilo não foi normal e provavelmente muitas coisas aconteceram nos bastidores, como refilmagens, substituição de elenco, mudança no tom do filme, com certeza isso prejudicou e muito o potencial da produção, mesmo com um tema batido. O longa é baseado no livro de Joan Didion e narra uma parte do período em que o presidente dos EUA Ronald Regan apoiava com armas e dinheiro um grupo que lutava contra os Sandinistas, partido socialista que comandava a Nicarágua desde os anos 30, período em que os americanos foram expulsos do país. O apoio já havia sido vetado pelo congresso, mas o governo mantinha o apoio nos bastidores. É uma história que se parece com tantas outras, no entanto uma nova situação e uma nova visão sempre é atrativo e por isso até o seu lançamento, o filme gerou uma expectativa bastante positiva, muito devido ao elenco.

     Qualquer filme que tenha no elenco Anne Hathaway, Ben Affleck e William Dafoe, atrai todas as atenções e é impossível não esperar uma boa produção, no entanto o que vemos em vários momentos são os atores com a cara de “o que eu tô fazendo aqui”. Anne Hathaway com muito esforço tenta entregar o mínimo de dignidade possível, a atriz se esforça para envolver e dar a dinâmica que o filme queria ter, mas sofre com a falta de ritmo e desconexão do texto. Ben Affleck que substituiu Nicolas Cage, reprisa seu estilo já visto em outras tramas e não traz absolutamente nada de novo e interessante, é cansativo ver o ator com a mesma voz e expressão facial de outrora, algum diretor precisa chegar para ele dizer que tá ruim, que tem que se soltar, subir a voz, ser menos robótico, passar mais emoção; dizem que durante a gravação, Affleck teve alguns problemas pessoas e por isso se afastou alguns dias, atrasando inclusive as filmagens, isso até amortiza, mas talvez não justifique, porém é um tema que não cabe aqui. Dafoe é menos solicitado, seu personagem entra e sai sem peso algum se resumindo apenas em um Sr que as vezes soa “gagá” e em outros momentos um Sr que tenta ser histérico e consciente ao mesmo tempo, uma verdadeira confusão.

     O roteiro apresenta uma trama, além da citada anteriormente, que envolve o lado pessoal e profissional da protagonista, uma jornalista (Hathaway) que em meio a matérias politicas envolvendo sua nação com outras, em casos e atitudes suspeitas, recebe a missão de honrar um compromisso do seu pai em outro país, sem saber ela entra numa jornada ilegal que no fim das contas seu faro jornalístico põe ela no centro de toda trama. Aqui começa um dos desacertos do filme, o tom jornalístico investigativo se divide com o drama familiar mal-empregado que resulta numa verdadeira confusão ao enredo. Algumas coisas pareceram ser refilmadas nesse momento, é quase deprimente uma cena em que Dafoe e Hathaway precisam expor a emoção em um dialogo com varias camadas como trauma familiar, separação, morte, luto e o que se ver é praticamente uma leitura de texto, nenhum dos dois consegue passar o sentimento que o momento necessita, não pela afinidade dos personagens, mas pela carga emocional dos mesmos, lembrando que emoção não se resume a lagrimas. A partir daí a confusão do texto só aumenta e todas as soluções e reviravoltas são precedidas das soluções mais simples possível, mesmo que o espectador saiba que em hipótese alguma, na vida real, alguém daria tal descuido ou teria tal ideia que por algum motivo daria certo, além do desfecho final, que é o mais canastrão possível.

     Dee Rees é uma diretora que me agrada muito, seu estilo de filmar leva o publico para dentro do problema, contextualizando as situações apresentadas e forçando a reflexão, a empatia, a falta de justiça e outras questões sociais e políticas. Aqui ela tenta isso, porém sua câmera é menos incisiva e quando se mostra nervosa, não tem a base pronta para isso. Muitas cenas são bem filmadas, as locações refazem com competência a década em que o filme se passa, boa parte do filme não usa cenário, isso é positivo. Por outro lado, algumas cenas de ação sofreram com a falta de ensaio ou com a falta de experiência dos atores, arrisco a dizer que na cena da piscina o prefeito da cidade obrigou a produção a chamar seu sobrinho que quer ser ator, só assim eles poderiam gravar ali. Com toda certeza esse filme não irá manchar a carreira da diretora, mas é necessário que algo bom seja entregue para que essa página seja virada.

       A Ultima Coisa Que Ele Queria está disponível na Netflix e vai funcionar melhor para quem busca um estudo sobre cinema do que entretenimento propriamente dito, deligando qualquer sensor de análise e deixando filme apenas rolar, talvez funcione também, mas o fato é que a Netflix comprou em mais um dos seus leilões uma produção que poderia apostar no simples e no comum para ter um resultado melhor. Pela primeira vez quis dar uma nota para um filme, mas isso é muito pessoal e com certeza terá alguém que se identificará melhor com esse projeto.

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