julho 12, 2020

A Vastidão da Noite (2020) | Crítica

     Se o streaming é o futuro do cinema eu não sei, mas posso afirmar que em tempos de quarentena é o caminho que todo cinéfilo está traçando, independente do filme, independente da busca. Se ultimamente o público se acostumou com grandes produções “Sci-fi”, repletas de efeitos visuais e um contexto científico que as vezes tem o propósito de dar um nó na cabeça do espectador, um fator se tornou cada vez mais distante dessas produções, a surpresa da descoberta e o medo do desconhecido. Recentemente já vimos a lua colonizada e com piratas, exploração de outros sistemas, contatos com vida de outro planeta, a banalização da ciência e sua negação, como também todo esforço para que o homem chegasse ao espaço e pisasse em outro terreno que não fosse a Terra, tudo isso se tornou “normal” e o que pareceu gerar mais expectativas no gênero era, de fato, o visual, com isso acabamos nos acostumando a se surpreender pela tecnologia, esquecendo assim de outros encantos, é óbvio que alguns estão em outras produções, mas ficam em segundo plano, dependendo do seu interesse… eis que surge Andrew Patterson e resgata isso com uma incrível força.

     O diretor estreante chega com o seu filme na gigante prime vídeo com discrição, mas credenciado pelas premiações em festivais, e rapidamente mostra que seu baixo orçamento teve um propósito, servir ao cinema, mesmo que essa não tenha sido a ideia original. Ao escolher retornar para a década de 50, o diretor não apenas recria um ambiente quase perfeito e o estiliza, ele também nos lembra que antes de Neil Armstrong pisar na lua, já existia uma conexão tripla entre os segredos do espaço, da mente humana e sua sociedade multifacetada, vale a pena observar os prismas; outra escolha aqui não poderia ser melhor, substituir a falta de dinheiro com bastante diálogo, ainda no início um personagem pergunta: “você está podendo caminhar?” é a pedida ideal e logo de cara a cidade é apresentada, com ela vem seus personagens e perfis, o estilo da câmera coloca o espectador no meio das conversas, onde personagens entram e saem, assuntos vem e vão e a câmera segue acompanhando tudo, alicerceada por poucos cortes. É quase uma explosão verborrágica, a conversa é rápida, as mudanças também, uma piscada e você perde um detalhe, parece estranho e cansativo, mas o texto prepara o público para os acontecimentos do filme, é uma forma do diretor dizer: “preparem os ouvidos e a mente”, a pergunta do personagem é exatamente isso; são quase 30 minutos de filme e um longo dialogo até que algo aconteça, nesse tempo toda informação necessária para que você conheça a cidade e as pessoas que ali habitam é passada, como também seus costumes são apresentados. Na virada de ato outro estilo soa forte na produção, todo trajeto feito pelos protagonistas no primeiro momento, é refeito pela câmera rasteira que transita pelas ruas escuras e vazias da cidade, por um claro motivo, é um travelling (clique na palavra para saber o conceito) quase solitário que ratifica todos os diálogos construídos anteriormente, percorrendo o pequeno município até o ponto de partida, entrando e saindo das cenas, passeando pela grua, subindo e descendo até o incidente que vira a chave da trama; é uma abordagem incrível nesse aspecto, pois o diretor consegue introduzir a audiência pelo texto e pela lente do seu equipamento, que engrandece ainda mais o trabalho do roteiro.

     A partir daí, com todo clima construído e o terreno plantado, fica “fácil” para o desenvolvimento da sua ideia. Patterson provoca nos seus personagens todos os sentimentos que envolve o desconhecido; o medo, o ceticismo, a curiosidade, a euforia e isso se resume bem na dupla que acompanhamos. Sierra McCormick e Jake Horowitz entregam todos esses sentimentos, são atores com pouca experiencia no cinema, mas que funcionam perfeitamente dentro daquela atmosfera, ela é jovem, curiosa e impulsiva, ele é o “antenado” descolado e calculista, uma das melhores combinações do cinema são bons atores sendo bem dirigidos. O desconhecido aqui não se resume ao que vem do céu, sutilmente o diretor brinca com a tecnologia analógica, principalmente ao focar na dinâmica de uma central telefônica com todos os cabos e plugs de chamadas ou na verdadeira jornada que é substituir um rolo de gravação, o uso técnicas simples que orientam o espectador a focar no que ele quer passar também é a voz estilística adotada, seja a recriação de uma tv de tubo com o dialogo dos personagens acontecendo ali ou deixar a tela preta com a conversa acontecendo, é uma incrível imersão naquela história. Ainda existe espaço para questões sociais como relacionamento entre pessoas de diferentes idades e o espanto que aquilo causava para uns e soar normal para outros, como também a contradição da surpresa quando dois personagens conversam e um deles diz que apenas negros e latinos foram enviados para fazer o serviço braçal em um local onde tinha um “OVNI”, é incrível a semelhança com os dias atuais, SIM! Qualquer livro de história não lhe mostrará um comportamento diferente dessa “ficção”, a reação de surpresa do protagonista mostra o quão pequeno e isolado é aquele município, observe a quantidade de habitantes no início. São caminhos bem escolhidos que claramente preenche a falta de orçamento para uma produção maior, em vários momentos você sente a falta que fez mais grana, por outro lado o diretor sabe exatamente o seu limite.

     A Vastidão da Noite é um filme surpreendente que não vai te deixar quieto por um minuto, se você é fã do gênero irá se sentir abraçado e acolhido por esse projeto que a Amazon não titubeou em adquirir pelos festivais que rodou, é um filme inteligente que resgata todo suspense clássico das ficções à moda antiga e recria aquela atmosfera vista sazonalmente, em casos como “A Bruxa de Blair”, o primeiro “Atividade Paranormal” e mais recente “A Bruxa”, certamente é um filme que merece ser pensado, visto e discutido, pois afinal, a forma clássica de fazer cinema de datada não tem nada, ela faz muita falta e o final desse filme mostra isso, o orgânico é o que tem vida, o que não é em nada é afetado.

Avaliação: 4.5 de 5.

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