setembro 25, 2020

A vida é construída por uma série de experiências individuais e compartilhadas, emoções variadas, sensações diversas e complexas e por ações que, dependendo do grau, afetam ou não o andamento das próximas gerações. As vezes, uma atitude trivial e aparentemente irrelevante pode exercer uma importância maior no futuro, seja para a raça humana como um todo ou na maneira como vai atingir nossos ancestrais. Pensando nisso, estaríamos conectados indiretamente pelo tempo e através do universo, ocasionando um impacto na maneira como agimos em outras vidas? Será que as próximas gerações seriam capazes de aprender com os erros que cometemos no passado e encontrarem formas de serem melhores? São questionamentos como esses que movimentam o aspecto temático de A Viagem das irmãs Wachowski.

Ambientando a obra em diferentes pontos temporais (Sul do Oceano Pacífico em 1849, Cambridge e Edinburgo em 1936, São Francisco em 1973, Reino Unido em 2012, Neo Seul em 2144 e Grande Ilha em 106 invernos após A Queda), as irmãs encontram uma forma de explorar diferentes aspectos da humanidade em subgêneros dentro de uma proposta ligada a um aspecto de fantasia sci-fi. Então, se acompanhamos uma história de amor eterno no arco de Robert Frobisher (Ben Whishaw), logo vemos um thriller investigativo no segmento que narra a vida de Luisa Rey (Halle Berry) ao passo de que acompanhamos o futuro pós-apocalíptico de Zachry (Tom Hanks). Nesse aspecto, a construção narrativa através de lapsos e intercalando entre as várias pontas temporais é articulada com uma fluidez sempre envolvente, capturando o interesse imediato do público e realizando um eficiente trabalho ao unificar acontecimentos simultâneos com precisão, alternando entre segmentos semelhantes que se encontram em diferentes pontos do tempo.

E, claro, aplausos também aos montadores Alexander Berner e Claus Wehlisch que costuram as diferentes linhas temporais sem quebrar a fluidez rítmica articulada pelas irmãs, saindo de uma história para a outra com um controle admirável, ainda que crie uma confusão inicial pela quantidade demasiada de personagens e subtramas paralelas. Já a trilha sonora composta por Reinhold Heil, Johnny Klimek e Tom Tykwer é delicada e emocionalmente eficaz ao delinear o compasso dramático sem jamais incitar um sentimento através da artificialidade das melodias. A cinematografia do John Toll e Frank Griebe realçam a beleza dos cenários com planos-abertos que captam o deslumbre das ambientações mais detalhistas.

Outro aspecto admirável de Cloud Atlas é a criatividade ilimitada para conceber mundos das irmãs: o segmento ambientado em Neo Seul em 2144 é coberto por uma inteligência fascinante na composição de conceitos tão autênticos, mas sempre bem empregados. A atmosfera visual flerta com uma estilização cyberpunk ligada a um aspecto de future-noir remanescente de obras como Blade Runner, no qual explicita uma inventividade dos pequenos detalhes, desde o quarto cujo o visual pode ser alterado através de um controle ou uma passarela “portátil”. Do formato pouco convencional das naves, as roupas pretas e os capacetes que incitam uma presença ameaçadora nos guardas, essa linha temporal é bem construída para articular uma mensagem social atemporal sobre a importância da liberdade em um mundo preso por um regime ditatório que estabelece uma noção escravista sobre aqueles que consideram inferiores.

Por isso que, um dos focos narrativos da trama reside na época da escravidão, acompanhando o personagem Adam Ewing (Jim Sturgess) e sua relação com o escravo fugitivo Autua (David Gyasi), onde acompanhamos a construção de um olhar empático na qual faz com que repudie e decida lutar contra a idealização escravista movida através do racismo, onde homens creem serem superiores apenas por sua cor de pele mais clara. É inegável que existe um olhar sociopolítico no andamento da obra, algo que as Wachowski reforçam ao dar uma importância e protagonismo de certos segmentos a personagens que não representem o aspecto visual clássico do cinema hollywodiano, como a Somni, interpretada pela sul-coreana Doona Bae com um forte olhar de determinação que a transforma em um símbolo sagrado no futuro

Eis que temos o segmento ambientado no ano de 2321 após um evento apocalíptico titulado como A Queda, onde acompanhamos uma sociedade conhecida como O Vale, que vive de maneira primitiva em um olhar interessante e forte das consequências ocasionadas pelas ações humanas mais destrutivas, o que faz com que venhamos a contemplar costumes ultrapassados para sobreviver. E, de certo modo, traz uma visão curiosa da relação entre colonizadores e nativos em vários momentos históricos, observando tal contato de maneira mais pacífica que costuma ser ilustrada. E, nesse ponto da narrativa é que encontramos a veia temática central de A Viagem: a filosofia utópica sobre humanidade.

Diferente do que grande parte das ficções futuristas tem o costume de realizar, as irmãs Wachowski procuram incitar uma observação utópica de que, diferente do infindável destino na qual aparentamos ter, nossa jornada pode se encerrar de maneira esperançosa, positiva e pacífica onde seriamos capazes de aprender com os erros que cometemos e, ao final, encontrássemos uma maneira de prosperar. E, por mais que a articulação condene a forma como a humanidade sempre recorre a cometer as mesmas falhas apenas em tempos diferenciados de nossa espécie – quase como um destino maldito – , no final, o que prevalece é o olhar fantasioso de um final mais otimista que o costumeiro nesse tipo de produção – algo que, indiretamente, pode ter sido uma influência ao Damon Lindelof e seu olhar sobre a humanidade no excelente Tomorrowland de 2015.

Toda a poesia narrativa e filosófica proposta pelas Wachowski é completamente encantadora, já que a sensibilidade das diretoras ao articular o foco dramático das histórias se revela essencial para compor uma conexão dramática poderosa no encerramento das histórias, sejam aquelas que se encerram de modo trágico ou através de uma resolução mais agradável. E, interessante observar como Lily e Lana mantém o controle passando por diversos gêneros entre os contos, indo do thriller investigativo até a ficção cyberpunk, o futuro pós-apocalíptico, a comédia, o romance, todos ligados indiretamente através de detalhes sutis como uma música, um gesto, uma interação ou o sentimento genuíno de ter vivido tal evento em outro momento da existência humana.

No final, Cloud Atlas é uma jornada encantadora pela sua criatividade e pela articulação filosófica proposta pelas diretoras, além de entregar uma visão muito mais utópica e otimista do destino da raça humana. E como estamos acostumados a ver obras que mostrem a humanidade através de uma ótica niilista, onde sempre encontramos uma maneira de se autodestruir, é compreensível que as avaliações a respeito do filme na sua época de lançamento tenham sido tão polarizadas. Talvez demore alguns anos para que seus valores venham a ser reconhecidos por público e crítica.

Avaliação: 5 de 5.
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