outubro 20, 2020

A Vila (2004) | Crítica

O mito da caverna na sociedade atual

No livro A República, o filósofo Platão elaborou a tão conhecida alegoria da caverna (ou “mito da caverna”, chame como preferir) que abordava a ideia da libertação através da verdade e do conhecimento, narrando sobre um grupo preso em uma caverna escura, incapacitados de enxergar uns aos outros e com uma fogueira ao fundo que, reflete sombras na parede que aqueles próprios vêem. Quando um deles consegue a liberdade, aquele indivíduo tem a possibilidade de enxergar o fogo e os elementos que causavam as sombras, contudo, tão habituado a sua realidade, se recusa a crer naquilo que se mostra como a verdade e decide retornar ao estado anterior.

Há diversas maneiras de utilizar essa alegoria do filósofo para transmitir uma ideia tematicamente profunda dentro da sétima arte – tanto que, a lista que engloba as produções na qual abordam esse mito é extensa. E, nesse ponto que se encaixa A Vila, dirigido e escrito pelo indiano M. Night Shyamalan, já que a base da construção narrativa após a revelação surpreendente que é sua marca registrada é mais que uma inteligente mudança no rumo narrativo, se revelando como a chave para compreender a profundidade temática do projeto, realizando três linhas interpretativas claras: a social, a filosófica e a sobrenatural em um deslumbrante exercício de interpretação.

A premissa mostra uma vila onde todos vivem em completa harmonia com seres místicos na qual possuem um trato relacionado ao respeito da limitação de suas terras. Contudo, a situação sai do controle quando alguém quebra essa “trégua” e os habitantes presenciam ataques recorrentes das criaturas, fazendo com que a situação fuja do controle estabelecido. Para agravar o problema, um dos moradores acaba sofrendo ferimentos graves e cabe a sua amada Ivy (Bryce Dallas Howard) procurar medicamentos na cidade para salvá-lo.

Vivendo em anonimato, sem conhecimento de forças exteriores sobre as suas existências, os habitantes do vilarejo vivem em uma paz e pureza completa, quase sempre radiantes, contentes e mantendo uma comunicação que evidencia a intimidade que construíram por anos vivendo um ao lado do outro. Shyamalan é inteligente e ocupa boa parte da meia-hora inicial na apresentação da vila, dos costumes de vida que aquelas figuras possuem e da iminente ameaça que os cercam, criando um imediato clima de suspense. Em outras palavras, Shyamalan está em casa e demonstra controle daquilo que sabe trabalha melhor em sua direção, a constante sensação de apreensão que segue um compasso crescente.

Boa parte da tensão construída é mérito do indiano por saber ornamentar todos os aspectos audiovisuais do projeto, tornando-os essenciais e bem posicionados na hora de incitar as sensações no espectador. A câmera acompanha os instantes de apreensão com uma paciência admirável, jamais perdendo a estabilidade do eixo até nos instantes em que o caótico toma conta do compasso narrativo, fazendo com que venhamos a sentir o desespero através da mise-en-scène e não pela desorientação da câmera, como boa parte dos diretores procurariam realizar. Em certo momento, Ivy se encontra perdida em uma multidão devido a um evento específico e, novamente, Shyamalan não se rende a obviedades e filma a cena com planos baixos onde vemos os pés dos habitantes andando em completo desespero e, logo após, um enquadramento fechado no espaço curto que rodeia a jovem, causando um forte senso de claustrofobia.

Impressionante nos aspectos visuais, o clima atmosférico de A Vila sugere uma forte inspiração em elementos ultrapassados de outros períodos históricos, como se aqueles habitantes ali presentes estivessem presos no tempo. A cinematografia do excepcional Roger Deakins reforça isso ao sempre procurar uma espécie de iluminação através de elementos do ambiente, desde velas até luminárias espalhadas pelos cenários, mas sempre ocupando um espaço curto nas locações, evidenciando a escuridão na qual cerca os moradores do vilarejo – e vale exaltar os belíssimos enquadramentos em contra-luz que realçam o trabalho do cinematográfo. Já a produção de arte reforça mais ainda tal composição pouco contemporânea em detalhes como a concepção das casas- quase todas construídas com base na madeira – e o figurino classicista que remete a séculos distantes daquele que venhamos a descobrir qual é posteriormente. Já a Trilha Sonora de James Newton Howard é sensível e enervante quando necessária, sabendo também a importância de se calar e permitir que venhamos a apreciar o assombroso design de som.

Contudo, o virtuosismo técnico é apenas uma entre as diversas virtudes da abordagem temática de Shyamalan aqui, se encontrando no roteiro, a responsabilidade ao caminhar por três linhas de discussão e reflexão que são extremamente atrativas e fazem com que o espectador se sinta envolvido nas reais intenções presentes em A Vila. E, claro, ambas ganham uma força ainda maior quando se é revelado os mistérios que rodeiam a trama do indiano, mostrado no instante em que o pai de Ivy (William Hurt) revela a moça que toda a presença sobrenatural das criaturas é uma armação para manter os moradores jovens e curiosos do vilarejo dentro daquele espaço e sem quaisquer contato com o mundo exterior, que, descobrimos ser o mundo “atual” (lembrando que o filme é de 2004). Esse choque evidencia e responde várias questões em aberto, além de possibilitar uma visão ampla da alegoria da caverna.

Se geralmente é usada para reforçar o poder libertador da verdade, Shyamalan se mostra inteligente ao usar o mito estabelecido por Platão para voltar ao foco temático de toda a sua filmografia: a capacidade humana de acreditar, de ter fé. Ivy, no primeiro momento, parece acreditar em todos os dados que seu pai lhe revelou, contudo, é ao sentir a presença ameaçadora de um dos habitantes utilizando a fantasia – no caso, o mais mentalmente perturbado deles, personificado pelo excelente Adrien Brody – , seu medo é instantâneo e logo tememos pela segurança dela, embora tenhamos compreensão de que aquilo não é real. Ora, por que Shyamalan trapaceia o público de tal maneira? Simples: para enfatizar nossa capacidade de crença. Ivy não estava totalmente convicta das informações que recebeu, e, quando confronta face a face uma “criatura” que tenta lhe atacar, seu espanto é nítido, já que a dúvida permeia constantemente sua escolha em crer.

Aí que Shyamalan insere com perfeição a alegoria de Platão, já que Ivy ainda se revela incapaz de crer na descoberta do que seriam as sombras e, por consequência, ao retornar e mostrar ao vilarejo que o exterior pode trazer “consequências destrutivas”, reforça a importância dos moradores permanecerem naquele local. E aí que se estabelece a última camada interpretativa que explicita o motivo obscuro pelos adultos escolherem se isolar do mundo moderno, já que os males da humanidade que crescem a cads instante criou uma preocupação naqueles personagens, forçando-os a se instalarem na “caverna” com a intenção de não oferecerem ao seus filhos um futuro condenado em uma sociedade cada vez mais em ruínas. Não é necessário explicitar que a última linha interpretativa de A Vila reside em um perspicaz comentário sócio-político sobre a situação mundial com respeito ao alto índice de violência urbana e sobre a apreensão da era Bush e o medo resultante de um próximo ataque desprevenido semelhante ao atentado as torres do World Trade Center, algo refletido no pavor dos habitantes da vila com relação aos ocorridos com as “criaturas”.

Contando ainda com personagens dramaticamente complexos e constantemente interessantes (destaque para Bryce Dallas Howard e Joaquim Phoenix), A Vila é atmosférico, enigmático, tematicamente complexo e abrangente, indo do comentário social e político a reflexões filosóficas e a fé no sobrenatural e crença no extraordinário. Um filme admirável técnica e textualmente que provavelmente será revisitado como uma das produções mais importantes da era Bush.

Um trabalho virtuoso que só evidencia o talento pouco valorizado de Shyamalan.

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