julho 12, 2020

Amantes (2008) | Crítica

     É curioso quando um filme lhe passa despercebido, em 2008/09 eu era apenas um lobisomem juvenil (licença Renato) e a curiosidade se resumia em lançamentos comerciais e alguns livros sobre cinema, com isso muita coisa passava, na verdade ainda passa, mas por outros motivos, e mais na frente as visitações são reveladoras, a maioria para o lado bom da força. “Amantes” é uma dessas descobertas e o cinema de James Gray (diretor) me deixou pensativo por 24h seguidas; o que foi muito bom, pois percebi que tantas obras do gênero que vieram anos depois se aproveitaram do cinema feito pelo diretor, assim como sua obra bebeu de outras fontes.

     Logo na primeira cena, o diretor nos apresenta seu tom para o filme, o protagonista, Leonard (Joaquin Phoenix) tenta suicídio na fria e cinza cidade (mais na frente usarei esse termo novamente), com ele apenas um cabide de roupas da lavanderia do seu pai. É o início de uma construção cinematográfica capitaneada por uma cinematografia simples, porém profunda, cor, saturação, lente leve e em muitos momentos com tom retrô, partindo para cortes suaves, pouca trilha e quando surge vai do eletro house a opera com um ar canalha e de descoberta também, o exagero fica por conta das pessoas apresentadas. Existe um processo de escolha que dita o ritmo estilístico do filme, através do roteiro, da câmera (já citada), do elenco, da cidade, tudo cria uma composição que remete ao mais suave e elegante cinema melodramático, nada superficial, nada exagerado, é o tom encontrado que faz da produção tão atrativa e James Gray acerta no centro do alvo ao apresentar personagens em diferentes pontos de um triangulo sem retas iguais. Ao acompanhar o protagonista, é perceptível a intenção do diretor em nos apresentar uma realidade presente na sociedade, alguém que seja atormentado pela vida amorosa, pela responsabilidade em seguir os negócios da família e com dúvidas sobre seu papel na existência, Leonardo é um João, José, é alguém que pode ser você. O trauma pessoal sempre é um artificio que sendo bem usado no roteiro fisga o público de imediato, todo mundo conhece um Leonard ou pode ser um Leonard.

     O roteiro é escrito pelo diretor em parceria com Ric Manello, que mais na frente trabalhariam juntos em “Era Uma Vez Em Nova York (2014)”. É um estilo de texto que agrada pela sua objetividade, você apresenta, conflita, desenvolve, complica e resolve, sendo simplista. A afabulação é gradativa em suas doses, a decepção amorosa, a incerteza amorosa, a esperança amorosa que conflita com o relacionamento familiar, profissional – fazer o que lhe agrada X o que você tem que fazer por obrigação. É uma combinação que oferece ao roteiro o ritmo necessário para a história a ser contada. Enquanto acompanhamos o protagonista com o peso do mundo nas costas, Phoenix em vários momentos é torto e cabisbaixo, a montanha russa vai sendo montada quando sua vizinha, Michelle (Gwyneth Paltrow), entra na sua vida, uma mulher que vive uma desilusão em atividade. A relação dos dois é acelerada por diferentes sentimentos e sensações, é a desilusão amorosa se confrontando com suas diferentes facetas; sempre com uma câmera focada nas expressões que vai desde o olhar curioso e empolgado ao olhar sem foco do personagem descabelado, são sinais do texto mostrando que, mesmo querendo seguir caminhos diferentes, a constante necessidade e seus motivos se apresentam como uma liga entre os dois, sendo direcionado para o obvio e rapidamente redirecionando para o imprevisível. Para encontrar o equilibro quase torpe, temos Sandra (Vinessa Shaw), a sã e sem peso precedente, formando o escaleno.

     A direção de elenco é o pilar do filme, Gray define muito bem a importância de cada personagem na trama e espreme tudo dos atores. Phoenix vinha de uma sequencia assustadoramente boa, Hotel Ruanda (2004), Brigada 49 (2004), A Vila (2004), Johnny e June (2005), Traídos Pelo Destino e Donos da Noite, ambos de 2007, são estilos diferentes que colidem no nível de atuação. Aqui não é diferente, o ator entrega tudo que seu personagem pede, insegurança, tristeza, necessidade, sentimento, decepção e busca, tendo como fuga uma câmera fotográfica que parece ser de outra década, assim como ele; é uma atuação perfeita, você torce para que ele seja feliz e compra a sua ideia de tentar ser feliz, tentar seguir o amor, seu coração, sem medo de explanar ou se sabotar, como a trilha sonora é tímida, ao assistir lembrei de uma música de Paulinho Moska que casaria perfeitamente, em um trecho ela diz: “corria em minha espinha um arrepio, eu nem pensava em mim, somente nela”, é Leonard. Em uma cena com Paltrow, com um belo casamento de elementos de fotografia, timing de texto e cenário, na já citada fria e cinza cidade, os atores entregam a melhor cena do filme, não pelo que acontece, mas pela forma que acontece, é o contrapeso de ambos que criam o Yin Yang, a leveza meio desapegada e a necessidade de apego. A atriz também entrega uma ótima atuação, menos requisitada fisicamente, mas igualmente competente na jornada emocional, muito melhor que em outras produções que tiveram mais êxito por algum motivo, tipo Shakespeare Apaixonado (1998); Gwyneth é uma boa caricatura de um amante sem rumo. Já Vinissa Shaw é uma atriz que costuma interpretar personagens parecidas e aqui não é diferente, mas o alto nivelamento dos elementos cinematográficos a deixou mais a vontade para que sua Sandra fosse o ponto de equilíbrio e de certeza que o texto direciona, sua personagem é mais importante para o acerto do roteiro do que pela trama em si, o que é bastante positivo; o restante do elenco é apenas funcional.

     Se muitos dramas optam pelo blasé, “Amantes” se preocupa em distribuir camadas ao longos dos atos e dos personagens, usando a linguagem ao seu favor e entregando um melodrama que fica mais próximo de Love Story (1970) e O Paciente Inglês (1996), em termos de qualidade e não se é melhor ou não, do que obras que se preocupam mais em agradar o público com a vala comum. O filme está disponível no Prime Vídeo e é uma excelente opção para os amantes do gênero.

%d blogueiros gostam disto: