qua. fev 19th, 2020

Ameaça Profunda (2020) | Crítica

     Mistério, essa é a palavra que mais chama a atenção quando se busca algo sobre essa produção, seja pelo tema, pelo diretor ou pela protagonista. A fossa das Marianas é um lugar quase que mitológico, curiosos e especialistas se misturam com as descobertas e com as histórias, mas ambos se encantam com os “se” e os contos e é nesse ponto que a produção dirigida por William Eubank se apresenta. Uma empresa que explora minérios no fundo da fossa, a 11km de profundidade para ser exato, se depara com um acidente e tudo desmorona, todos precisam escapar dali o mais rápido possível para não implodirem, explosões acontecem e a partir daí temos o nosso filme.

     Com 3 minutos e depois de um monologo esquisito da protagonista, tudo já está explodindo, os efeitos sonoros anunciam a qualidade técnica apresentada no filme. A construção do ambiente é o ponto mais positivo, algumas escolhas do diretor são bastante assertivas nesse aspecto também. Existe uma pegada claustrofóbica que lhe acompanha por muito tempo e isso funciona bastante, espaços curtos e estreitos, pouco oxigênio, o uso da câmera dentro dos trajes de mergulho, em determinados momentos aquilo te incomoda, de forma positiva. Depois de Aquaman, parece que as produções irão trabalhar bem com a água, o barulho da correnteza, das bolhas, a gravidade, tudo funciona.

     O roteiro de Brian Duffield e Adam Cozad traz uma boa premissa, o suspense apresentado prende o espectador até o momento em que é revelado a causa do problema. O elenco não recebe um texto trabalhado, tudo é muito funcional, então para dar certo a atmosfera criada era a chave para um bom desenvolvimento, funcionou, mas ao querer “homenagear” suas referências, a trama tomou rumo do mais comum e mais batido, faltou coragem aos roteiristas em apostar na dúvida dos personagens e nos mitos do ambiente. O ser humano por si só já se porta como monstro em alguns momentos, o ser humano por si só já faz merda na superfície, imagine embaixo d’agua? Então a pergunta que fiz foi: “por que não deixar o suspense se desenvolver só com o acidente?”. É o fundo do mar, 11 mil metros de profundidade, qualquer coisa errada era praticamente uma sentença de morte a todos, toda tensão criada, qualquer empatia se foi embora quando o diretor e roteiristas optam por apresentar monstros, pior, monstros humanoides que se comportam como parasitas em um super monstro humanoide… a partir daí o filme se agarra com todos os clichês possíveis e luta tentando um final digno e emocionante. Você pode lembrar de qualquer filme de monstros ou criaturas, Alien, Predadores, Cloverfield – O Monstro, mas no final todos serão unânimes em dizer que não tinha necessidade, a Fossa Mariana já é um monstro, coloca criaturas abissais flutuando de um canto a outro e deixa a loucura e medo tomar conta de todos. Como disse antes “uma boa premissa desperdiçada” e uma premissa de 65 milhões de dólares.

     O elenco do filme se porta de forma regular. A protagonista, interpretada por Kirsten Stewart, é uma personagem misteriosa, afetada por um triste passado e que buscou isolamento, no fundo do mar, para seguir adiante. O estilo da atriz casou aqui, aquele jeito “sem sal” e com aquele olhar distante que a acompanha desde outras produções, transmite essa carga que a personagem tem, o constante lápis no olho que destaca o ar fúnebre e depressiva também é uma boa escolha na composição, porém nos momentos finais onde toda carga dramática é exigida, a coisa não funciona legal. TJ Miller faz o piadista da turma, o tal idiota que todos já sabem o fim, no auge humorístico, uma piada sobre as tais criaturas ganha o tom mais canalha possível, é rir do absurdo. Jessica Henwick e John Gallagher Jr estão “OK”, sem grandes solicitações e presos as limitações também. O saldo negativo maior é ter Vincent Cassel no piloto automático, quem lembra de Rios Vermelhos e Irreversível sabe do que falo.

     Ameaça Profunda é um filme que te deixará tenso em alguns momentos, principalmente se você assistir em uma sala com um bom som, é um filme que tem um ritmo alucinante nos dois primeiros atos e que entrega um bom resultado visual, em poucos momentos você percebe o fundo verde, só não entendi bem como pode ter concreto dentro de uma estação submersa e esse concreto quebra e nada inunda, esse questionamento levarei adiante, mas deixo aqui o ponto exato em que a trama perdeu as estribeiras… “que barulho fez o peixe quando se jogou do prédio? Ah! Tum”. Divirtam-se.

  • Ameaça Profunda
  • Duração: 95 minutos
  • Diretor: William Eubank
  • Roteiro: Brian Duffield e Adam Cozad
  • Elenco: Kristen Stewart, Vincent Cassel, Jessica Henwick, John Gallagher Jr., T.J. Miller
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