outubro 20, 2020

Amnésia (2000) | Crítica

Assim como executou em seu projeto de estréia (o ótimo Following, de 1998), Nolan realiza em Memento (ou Amnésia, na tradução brasileira) uma estrutura narrativa pouco convencional para contar a história de Leonard Shelby (Guy Pearce), que, após perder a esposa e a capacidade de guardar memórias recentes, decide procurar por respostas. Embora a premissa seja aparentemente convencional, é a forma na qual Christopher Nolan concebe o avanço narrativo através de uma estrutura sagaz que coordena duas linhas temporais: a primeira, linear e a segunda, contada de trás para frente.

A princípio, é um recurso curioso que incrementa um traço autoral bem delineado, mas Nolan ainda consegue ir além: tal recurso serve como uma forma inteligente de colocar o espectador na posição de Shelby. Assim como a deficiência de seu protagonista afeta seu processo de arquivar memórias recentes, a estrutura principal que desenrola os eventos de trás para a frente é usada como um artificio para aplicar tal situação ao espectador, já que a quantidade demasiada de eventos e a linha narrativa na qual são inseridos faz com que venhamos a ter que sempre recordar das informações na qual já absorvemos, uma maneira inteligente de criar uma conexão público e protagonista na tentativa de decifrar o mistério.

Mistério que, Nolan articula de modo eficiente como um quebra-cabeça cinematográfico na qual o realizador lhe entrega as peças para que o espectador possa montar ao lado de Shelby, algo que torna a narrativa ainda mais fluída e envolvente. Outro destaque é a montagem de Dody Dorn que encontra uma harmonia nas transições entre os acontecimentos presentes nas duas linhas temporais, algo que torna o progresso ainda mais ágil e envolvente. Já a trilha de David Julyan (que voltou a trabalhar com Nolan em Insônia e O Grande Truque) insere uma dose considerável de melancolia em suas notas para expressar o interior do seu fragilizado protagonista e o peso de sua perda através de sua mente.

Nesse aspecto, Guy Pearce brilha ao compor Leonard Shelby de modo dramaticamente complexo, mostrando um sujeito amargurado e persistente que Nolan constrói de modo icônico, já que está sempre utilizando o terno bege e uma camiseta azulada como parte de sua vestimenta. Seus voice-overs são bem empregados como um recurso para exibir a desorientação mental na qual se encontra (em um instante, ele chega a indagar se um determinado quarto na qual acorda é dele) e suas interações com os demais personagens em cena – especialmente aqueles encarnados por Carrie-Anne Moss e Joe Pantoliano – jamais se mostram como artifícios didáticos em cena, sendo construídos com precisão e cuidado para oferecer pistas do mistério, mas nunca optar por uma contextualização verbal irritante,

Encerrando com uma revelação surpreendente que contraria inteligentemente tudo que sabíamos até aquele ponto – mas sem invalidar o projeto, apenas possibilitando um outro olhar dos eventos – , Memento é um puzzle envolvente e narrativamente inteligente por fazer com que seu público entre na mente de um homem fragilizado e sua procura por respostas, mesmo que essas estejam com ele a todo momento.

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