junho 6, 2020

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fabulosa | Crítica

O cinema gráfico de estética pop que alcança o discurso contra a violência sobre a mulher.

Quando um filme live action tem seu prólogo contado em animação com a narração de Arlequina, a diretora Cathy Yan coloca em pauta a pura emoção feminina quanto a relacionamentos amorosos de maneira desgarrada, em que a emancipação proposta no título já caminha na própria maneira de execução da obra. Arlequina narra como deusa onisciente, quebra a quarta parede e emociona o público comicamente por sensos ordinários que se tornam extraordinários pela visão dela. Então, além fomentar um drama absurdista, a normalização vem pelo olhar exagerado que a protagonista tem de tudo.

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Daí é que as Aves de Rapina aparecem para compartilharem dessa jornada colorida, e o gráfico de maneira quase desorganizante vai se impondo no filme como forma principal. Semelhante ao design de apresentações de quadrinhos, o nome de cada personagem é estampado na tela com um prólogo veloz em sua maneira visual. No caso dos perseguidores de Arlequina as motivações de morte são escritas com cores diversas, com letra a mão. Tudo é bem irônico como o humor dela. O senso de perigo existe nas entrelinhas, antes da ação, ou de maneira expositiva mesmo, em que um choro de uma mulher não surpreenderia. A violência machista é colocado em proporção permissiva do que graficamente e a classificação está de acordo. No entanto ela nunta toma-se como fim, e sim como um meio de ser contraposta na violência legitimada da ação que a mulher parece expurgar a opressão.

Por sinal, as cenas de ação não urgem a violência como objetivo, mas é muito mais como é dançada e contextualizada. Em vista que o filme não tem um visual único, embora essa seja seu ponto harmonizante de heterogeneidade, as cenas de ação respondem bem isso. Se uma luta tem purpurina e câmera lenta de malabarismo corporal, uma outra é pautada na montagem e encontro dos personagens na utilização do cenário. Ou seja, o filme se dispõe a ser livre em suas possibilidades, até mesmo em suas referências temporais e complexidade de encaixar tantas dinâmicas diferentes.

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Porque é exatamente o que são as Aves de Rapina. A diretora compreende que existem dramas diferentes e colorização própria, uma diversidade feminina ali. A Caçadora tem sua extrapolação de raiva que se alivia no desacordo emocional da cena, Montoya tem um clássico mais apurado, até na maneira de falar como policial dos anos 80, e Canário Negro é a presença de uma mulher que se submete a homens por necessidade, então seu percurso é independer disso. Ao mesmo tempo que a diretora compreende, ela administra um mal de Hollywood que é a autoconsciência cômica e narrativa para acomodar alguma certa loucura ou disparidade executiva. O caricato e o cartunesco implementado é tomado um limite no filme quando há explicação para ele nos momentos finais.

É estranho, mas toda a super estilização e sinceridade em tomar peso em dramas super femininos, – que por vezes não são levados a sério por muitos filmes – durante o processo dessa emancipação desorganizante e empolgante que é franco na comicidade, acaba por o grafismo se tornar amansamento. A trama policial que é muito característica de Gotham no universo Batman serve como apoio ao roteiro entregar uma história menos dispersa, que de tempos em tempos o controle de Arlequina acaba tomando tal rumo dispersante com a montagem sem equilíbrio. E nesse apoio ao gênero mais conhecido é que o gráfico só termina evidenciando apenas isso, o óbvio que não cola com o filme, dependendo muito mais das resoluções efetivas de quebra de expectativa do que na construção de fato do mistério. Parece que em níveis de tom, a quebra é muito mais valorizada do que a criação do sistema a ser quebrado.

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Ainda assim, o filme não tem medo aparente de expressar sua crítica de maneira que todos entendam, sem se esquivar de tornar o ambiente masculino costumeiramente tóxico para isso, e o feminino como passarela autoafirmante da feminilidade. Em um momento musical específico não há dúvida do abuso masculino até chegar a fatídica cena do abuso visual de roupas sendo rasgadas, numa desnudação vergonhosa. O vilão Sionis, o conhecido como Caveira Negra, interpretado por Ewan Mcgregor, junto com a Margot Robbie como Arlequina, são as figuras bem interpretadas do abusador e quem é abusada. Os gritos e movimentos corporais de Ewan com o sadismo quebradiço de Margot na comédia são as construções mais bem feitas. Por isso o duelo entre eles não é só bem representativo como uma entrega necessária.

Por fim, é uma obra que toca no assunto mais no seu formalismo do que em algo dramático costumeiro, ou direto sem uma ironia expositiva no discurso. É o fenômeno pop de representatividade que mistura tudo, entretanto sempre apresenta um escorregão dos sensos imediatos de figuração estilística que não limitam a fala feminista, mas dentro do filme torna frágil como a névoa colorida, ou cocaína eufemizada a pó estimulante. 

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