Bacurau (2019) | Crítica

AVISO: CONTÉM SPOILERS MODERADOS, MINHA RECOMENDAÇÃO É ASSISTIR AO FILME SABENDO O MÍNIMO POSSÍVEL SOBRE TUDO QUE O ENVOLVE. VÁ SEM MEDO, VALORIZE O CINEMA NACIONAL!

A força alegórica de Bacurau é também infelizmente o seu calcanhar de Aquiles. Kleber Mendonça Filho pega toda uma bagagem americanizada para articular uma mistura de cinema de gênero que permite toda uma conversa metafórica das mazelas sociais do Brasil, tanto no passado, ao passo de estrangeiros chegarem ao nordeste desinteressados em sua cultura, e sim pela chacina gratuita, quanto no cenário atual, onde essa chacina advém de todo um jogo político que quando não tem o povo ao seu lado, costuma deixá-lo de lado morrendo sozinho, em ambas as situações, historicamente falando, o Nordeste foi e está sendo o pilar principal da resistência a essas intempéries.

Então, ao passo de relevância, esse sem dúvidas é um divisor de águas no cinema nacional, pela coragem, pelo apuro técnico e pela noção de patriotismo dentro de um cinema à base do escapismo, mas aí é que tá, talvez na preocupação exacerbada do protesto, Kleber não consegue dosar bem os inúmeros contrastes de sua própria proposta. É um filme em cima do muro, nesse sentido, que não assume uma lógica mais óbvia de puro maniqueísmo do “eles contra nós”, nem se deixa levar pela atmosfera mais sugestiva, que deixa os comentários subentendidos enquanto se diverte na catártica fantasia que propõe. Parece dividido por dois estilos distintos que não se conversam tão bem.

Há um cinema muito “Tarantinesco” na forma como aproveita a violência num cenário caricatural, ao mesmo tempo que o leva para uma seriedade de confronto cínica, digna de Paul Thomas Anderson. Ambos os diretores citados, em suas respectivas filmografias, geralmente entregam um elemento a mais para serem mais ambíguos, Tarantino na montagem de personagens carismáticos pelo sarcasmo, como o próprio Hans Landa, e “PTA” na dubiedade de seus “antagonistas”. Kleber não fica nem lá nem cá, até propõe cenas que tentam humanizar os vilões, ou no mínimo posicioná-los com mais carisma, mas nunca de fato os desenvolve, nem os torna minimamente interessantes para o embate se tornar mais empolgante.

O mesmo acontece no lado do povo, que é construído como um só personagem, para corroborar com a alegoria de que Bacurau representa o Brasil, assim aposta um bom tempo na imersão do público naquela “gente”, ao fazer parte daquele círculo, mas na real, pouco conhecemos de verdade aquelas pessoas, mesmo que o sentimento de humanidade seja suficiente para nos fazer temer por elas nas sequências mais tensas, não é suficiente também para moldar o outro polo de embate, quando sua gratificação for realizada. Isso é em parte culpa da escolha mais visualmente escancarada de discurso, ainda que ela seja justificável no contexto, incomoda pela limitação de possibilidades narrativas.

Se o discurso objetivo é eficiente por ser cuidadosamente realizado conforme a história, por outro respeita uma lógica muito direta e objetiva de seus comentários, o que transforma essa tentativa de construção atmosférica em uma enrolação para uma catarse final que pretende assumir um lado. A estilização até funciona e soa natural quando, assim como o povo, é trabalhada em conjunto, realmente gerando sequências emblemáticas de revanche que atiçam o senso de justiça do espectador, mesmo que pela gráfica pouco precisa, onde algumas cenas mostram demais e outras de menos, o que periodicamente prejudica o 3° ato, quando finalmente deveria compensar a entrega, mas não propriamente chega lá, se não fosse pela emancipação expositiva do discurso ao longo de todo o resto, ele certamente não teria o mesmo poder para todo mundo.

Assim, pode-se dizer que “Bacurau” é um filme que funciona bem mais fora que dentro, principalmente se parar para pensar em como ele é muito moldado no aspecto Hollywoodiano pela forma como cria sua linguagem. É proposital, já que o diretor aprendeu a se americanizar assistindo às demasiadas chacinas faroestes onde os brancos caçavam os vilões nativos, para assim propor uma inversão, o que certamente busca não só esse respaldo patriótico e polarizador, como permite que o filme seja ovacionado lá fora pelo próprio estrangeiro que enxerga essa inversão dentro de seu estilo como algo inovador, mas que na verdade funciona como a pílula milagrosa do cinema, que possibilita tudo num cenário desfavorável, assim Kleber vai em tudo e realmente não dá o braço a torcer em seu sentimento de precisar botar para fora o que lhe incomoda.

Então, ao final de “Bacurau”, é reconfortante perceber o claro dedo na cara de muitos que merecem, mas ao mesmo tempo não chega à empolgação de que eles tiveram o troco que mereciam. Mendonça certamente chegou muito longe e tem muitos méritos, mas faltou a ele mesclar a proposta com o tema de forma sutil, o que não quer dizer que deveria diminuir a violência, por exemplo, é possível ser sutil na vulgaridade, além de ser subjetivo no discurso direto para que ele não fique tão entediante e maniqueísta.

  • Bacurau (2019)
  • Duração: 132 minutos
  • Diretor: Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
  • Roteiro: Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
  • Elenco: Sônia Braga, Udo Kier, Jonny Mars, Chris Doubek, Alli Willow, Brian Townes, Julia Marie Peterson, Karine Teles, Antonio Saboia, Bárbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Clebia Sousa, Zoraide Coleto, Luciana Souza, Edilson Silva, Wilson Rabelo, Márcio Fecher, Rubens Santos, Valmir do Côco, James Turpin, Lia de Itamaracá, Suzy Lopes, Buda Lira, Fabiola Liper, Charles Hodges, Jr. Black
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