outubro 20, 2020

Batman Begins (2005) | Crítica

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Nos final dos anos 80, o consagrado Tim Burton trouxe o homem-morcego para os cinemas em uma das adaptações mais clássicas do universo de Gothan City e seus personagens. Era uma obra mais centrada em uma estilização gótica, fantasiosa e que utilizava o sombrio do seu protagonista de maneira literal. E, após o primeiro filme e sua sequência realizarem um sucesso considerável, Joel Schumacher assumiu o controle criativo daquele universo em Batman Eternamente, enchendo a cidade de cores fortes e quase alucinógenas, algo que se comprovou como falho no execrável Batman e Robin, enterrando de vez o personagem nos cinemas.

Contudo, até mesmo com a qualidade da direção de Burton, nenhum dos diretores compreenderam o lado humano, vulnerável e dramático de Bruce Wayne. Mesmo que Michael Keaton cumpra seu papel com eficiência (os outros dois nem vale citar), seu Batman era ausente de uma articulação dramática no que diz respeito aos seus traumas, conflitos e a essência do que significa ser um herói. Mas por que fiz esse extenso discurso para, enfim, falar de Batman Begins? A resposta é simples: Nolan e Goyer imprimem aqui a gênese de seu personagem, desde a sua compreensão moral do heroísmo até o seu entendimento a respeito da noção entre bem e mal. Diferente do que Burton e Schumacher fizeram, Nolan entrega um filme mais palpável e emocionalmente bem alicerçado, fazendo o espectador enxergar que, por trás do super-herói existe um pessoa. Melhor: uma criança marcada por toda sua vida.

O primeiro ato, inclusive, é o mais fascinante do projeto por estabelecer todos os caminhos que levaram Bruce Wayne a se tornar Batman: primeiro, Nolan e David S. Goyer (roteirista do filme) estabelecem seu protagonista em uma situação de fragilidade extrema e mostrando sua humanidade ao exibir uma inexperiência em combate que evidencia seu despreparo. Logo após, acompanhamos seu treinamento com a liga das sombras, sendo ensinado por R’as Al Ghul (Liam Neeson) os fundamentos de justiça e moral que irá carregar e aplicar quando finalmente vestir o manto do morcego. E, paralelo a esses eventos, acompanhamos flashbacks que contextualizam os eventos ocorridos em sua juventude, desde o assassinato de seus pais até a criação de seu medo por morcegos. Toda a história do personagem é detalhadamente exibida por Nolan e Goyer, criando um aperfeiçoamento intenso com seu protagonista.

A morte dos pais de Bruce, aliás, é o evento mais importante e catalizador de sua busca pela justiça, articulado por Nolan com uma forte melancolia que é aliada do doloroso plano aonde vemos Wayne ajoelhado sobre os corpos e perdido em meio a tudo aquilo que ainda não compreende. Naquele momento, o jovem Wayne se vê sem rumo ou orientação. E seu desejo de vingança, seu ódio e a incapacidade de seguir em frente e confrontar seus traumas foi tamanha que, ao tentar se vingar do assassino e perceber que falhou, vemos em seus olhos, o desespero de um homem que acreditou em uma justiça cega e não compreendeu o que ela representa. Todos esses alicerces da fundação de Bruce são estabelecidos com muita eficiência, criando assim um excepcional desenvolvimento dramático na qual Nolan articula com perfeição.

Bruce Wayne é mais que a imagem do milionário filantropo arrogante e narcisista como foi Tony Stark, por exemplo. Aqui, Nolan estabelece Wayne como um herói falho, mas com um propósito fixo e um ideal claro de justiça, algo que lhe transforma em um protagonista humano, empático e moralmente correto, sendo intensificado pela excelente performance de Christian Bale que, expressa perfeitamente a fragilidade aliado a determinação de executar o que é certo, reforçando ainda mais o arco de seu Bruce. Ao redor dele, existe uma temática moral bem elaborada sobre o que é justo ou não, posicionado quando o herói é confrontado pela liga das sombras a respeito de finalizar o seu treinamento com uma execução violenta que pouco condiz com aquilo na qual Wayne crê.

Tudo isso só intensifica o quanto Nolan e Goyer entenderam a raiz do heroísmo que faz de um mero e assustado garoto que perdeu seus pais em um beco escuro se tornar um herói que trará esperança e justiça para uma cidade destroçada e ausente de qualquer salvação. E com isso, vemos gradualmente o nascimento definitivo de Batman, elemento que Nolan faz questão de detalhar através da construção do uniforme até os gadgets que irá utilizar. A trilha sonora de Hans Zimmer é igualmente eficiente ao conceber uma musicalidade dramaticamente grandiosa, espetacular e até inspiradora que delineia competentemente o nascimento do herói. A articulação é tão bem elaborada que, até quando temos uma frase aparentemente artificial, ela se mostra importante no desenvolvimento de Wayne – e diga-se de passagem, Linus Roache exibe um Thomas Wayne mais inspirador, mais fundamental na construção de Bruce, fazendo de suas frases um elemento narrativo importante no arco dramático do protagonista.

E, claro, como todo filme do subgênero, a narrativa insere algumas sequências de ação que, infelizmente, expõem alguns defeitos da direção de Christopher Nolan: a maneira na qual os combates corpo-a-corpo são idealizados revela uma inventividade, tal como a coreografia, que se revela bem construída. O problema mesmo está em como Nolan articula esses momentos, filmando tudo através de enquadramentos fechados e movimentos furtivos que tornam a localização geográfica dos personagens nos espaços pouco compreensíveis. Já a montagem de Lee Smith (que inicia aqui uma longa e virtuosa parceria com o diretor) é eficiente ao enfocar acontecimentos diversos de maneira simultânea, sejam flashbacks ou eventos realmente paralelos.

Entregando um desempenho dramático eficiente, o Batman de Christian Bale imprime uma humanidade, desde sua fragilidade emocional até a maneira como enfrenta seus traumas pessoais e medos internos, algo expresso bem pelo alcance emocional do protagonista. Já Michael Caine é a representação paterna na vida de Bruce, entregando a Alfred uma presença mais sábia e dramaticamente importante dentro da narrativa. Outro que executa tal função é Gary Oldman, que transmite o senso de justiça e a vontade por executar o correto de Gordon através de uma performance calorosa e determinada. Liam Neeson, por outro lado, dá a R’as Al Ghul uma presença imponente e uma aura realmente ameaçadora, algo que ocupa bem a função intimidadora da qual necessita exercer na narrativa, algo que não se pode elogiar no Cillian Murphy, que compõe Espantalho sem um peso narrativo realmente justificável. Katie Holmes, por outro lado, é eficiente como Rachel Dawes, mas ocupa uma presença pouco importante no arco dramático do protagonista, algo que só aconteceria no filme seguinte.

Batman Begins é, de fato, um épico: com 2h e 20min de projeção, acompanhamos a gênese de um herói. O nascimento de um símbolo e o surgimento da fagulha de esperança na qual Gothan City imaginou ter sumido. Um projeto de herói que, antes de ser uma obra do subgênero, é um drama sobre a força necessária para levantar toda vez que caímos, assim como Thomas Wayne ensina ao seu filho e o mesmo escuta novamente pela voz de Alfred, no ato-final do projeto.

E, através dessa forma, nasce um herói.

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