outubro 28, 2020

Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) | Crítica

Se Batman Begins é o fundamento dos valores morais defendidos pelo herói, O Cavaleiro das Trevas é a obra que desafia constantemente tal moralidade, mostrando um mundo destroçado onde a esperança de dias melhores parece ausente. Uma realidade que, basta uma simples fagulha de caos para a faísca se transformar em uma explosão de proporções catastróficas. Um universo onde, consumido pelo desespero social, um policial escolhe matar um civil para garantir a segurança de sua amada. Uma cidade onde a linha entre bem e mal é borrada e ambígua, na qual os policiais são tão corruptos quanto aqueles que se posicionam da outra extremidade. Um complexo retrato de uma realidade que não se encontra distante da que vivemos. E, tudo isso enquanto pertence ao subgênero de super-heróis.

Honestamente, O Cavaleiro das Trevas nem se parece com um filme do subgênero, fazendo um contato mais direto com um cinema mais policial, criminal, um suspense dramático e por fim, uma obra de gangsteres. Mesmo assim, Nolan e David S. Goyer jamais esquecem do fato de estarem lidando com um projeto de herói, inserindo conflitos complexos e dramaticamente eficientes ao transportar o universo de Gotham City para uma vertente mais realista, humana e conectiva com o espectador. O início, por exemplo, é articulado de modo tão cuidadoso que sentimos estar vendo o filme errado. E, ainda assim, Nolan sabe a importância do equilíbrio em todas as linhas narrativas, privilegiando um realismo que jamais oblitera certos exageros fantasiosos ou que engole qualquer possibilidade de uma fuga cômica sutil, balanceando tudo e criando uma experiência eletrizante a todo momento.

Aliás, o termo “eletrizante” é um eufemismo: em suas 2h e 30min de duração, a narrativa não oferece descanso aos seus personagens e, por consequência, o espectador e somos levados para as diversas situações de apreensão com um nervosismo crescente. A articulação do suspense na direção de Nolan é eficaz para criar uma atenção gradativa, sempre mantendo o foco do público estável e organizando os eventos para que seu impacto seja maior. É um filme de diversos “clímax” que vão além do principal que ocorre no ato-final. O diretor consegue trabalhar cada um dos aspectos técnicos para que funcionem em harmonia e entreguem a construção da intensidade e urgência. A começar pela trilha incidental: enquanto James Newton Howard delineia o aspecto dramático das melodias – algo fácil de identificar tendo conhecimento de seus trabalhos anteriores, especialmente na filmografia de Shyamalan – , Hans Zimmer ocupa a posição de conceber o desespero crescente da cena com um ruído dissonante e batidas cada vez mais impulsivas a medida que o instante decorre.

Não faça de mim sua esperança de uma vida normal.

Já a montagem de Lee Smith executa seu recorrente padrão de enfocar acontecimentos simultâneos com uma fluidez admirável ao mostrar os diferentes pontos de vista da situação, costurando a tensão iminente ao desenrolar dos eventos; esse aspecto paralelista ajuda a criar uma lógica maior de todos aqueles ocorridos e como um afeta diretamente o outro. A urgência da narrativa é tão presente que nem quando os personagens interagem entre si, esse clima se dissipa, algo que fica nítido na maneira como Nolan exerce panorâmicas circulares ao enfocar as trocas de diálogos – bem construídos, por sinal. Um bom exemplo é a articulação da primeira conversa entre Batman, Harvey e Gordon, na qual a movimentação só faz com que a tensão interna dos personagens passe para o espectador.

E, com a intenção de reforçar o flerte mais realista e evidentemente dramático da sua execução, Nolan opta pelo uso de close-up ao enfocar algumas interações – especialmente aquelas que são emocionalmente intensas – , reforçando a captura do aspecto humano em seus quadros. O melhor instante e que representa tal aspecto com mais força é a sequência do interrogatório: além de sutilmente provocativa e importante por desviar a atenção dos personagens (e do espectador) quando deveríamos estar mais atentos no que ocorre fora daquela sala, a construção dos sentimentos de seu protagonista é tão eficiente que, mesmo adotando uma postura mais agressiva, o que vemos em seu olhar é o cansaço de um homem que já não sabe mais como solucionar tal situação que se instaurou e a permissão que dá ao desespero entrar e desestabilizar com seu humor – além de ser uma sequência digna de uma composição quadrinhesca dos conflitos entre Batman e Coringa, adaptando esse conflito de modo cinematograficamente eficiente.

No entanto, o real peso da cena reside no embate moral que Batman confronta durante toda a projeção – sendo esse, um dos “clímax” de seu arco – , na qual reside em sua resistência no combate ao crime. Mesmo agindo com violência, sua visão ideológica não reside no ato de matar, mas na compreensão de que não é essa a maneira de solucionar a violência e os problemas sociais que Gotham City confronta. O embate interno do herói é compreender o papel que está executando e até que ponto ele leva a uma crescente ainda pior da problemática. No início da projeção, vemos que os prós e contras da influência que causou na metrópole ao mostrar pessoas comuns vestindo o manto do homem-morcego, mas utilizando armas de fogo e como o intuito de “atirar para matar”. Mesmo com intenções positivas, o caminho escolhido é indevido. Aliás, é interessante ver como Nolan enfatiza que o “nascimento” do Coringa é decorrente dos atos benéficos de Bruce Wayne sobre o manto do morcego – e até o desespero da máfia por conta de suas ações faz com que venhamos a comprar que os criminosos realmente contratariam um sujeito tão mentalmente doentio e psicopático para encerrar as atividades do herói.

Alguns homens só querem ver o mundo queimar.

E tal embate moral é eficientemente bem atrelado ao arco íntimo de Bruce Wayne com a promotora Rachel Dawes que, agora personificada por Maggie Gyllenhaal (uma escolha aparentemente ilógica, mas que se justifica posteriormente), imprime ainda mais essa “porta de saída” do herói no que diz respeito a essa vida – porta essa que, Nolan faz questão de fechar, incitando uma simbologia bem articulada de que o personagem tampouco conseguirá se desvincular desse manto que decidiu assumir. E outro aspecto que representa um “aposento” ao seu manto é a presença de Harvey Dent e seu conceito de justiça bem fundamentado que oculta uma certa tendência sombria escondida dentro de sua bondade – e que consome o personagem no ato-final por intermédio da deterioração mental ocasionada pelo Coringa. O arco de Wayne em O Cavaleiro das Trevas é a compreensão do que defende e como resistir moralmente em um universo povoado pela corrupção dos valores morais humanos, criando assim um excepcional paralelo com a sociedade na qual vivemos – e é triste constatar que, mesmo após 11 anos de seu lançamento, o paralelo não é algo datado, mas infelizmente, um olhar atual do mundo.

Achou que podíamos ser homens decentes em tempos indecentes. Mas se enganou.“, diz Harvey no ato-final da produção e, tal frase só reforça o fato de como homens morais vão contra seus valores por perceberem que a única maneira de viver na sociedade não é mantendo sua decência, mas se tornando indecente; Nolan e Goyer também evidenciam o quão ambíguo é classificar o bem e mal nos dias contemporâneos, reforçado pela inteligente sequência na balsa, onde vemos uma inversão de papéis bem construída para imprimir que, até pessoas aparentemente boas – ou corretas de fato – carregam resquícios sombrios em si e que aqueles enxergados pela imagem que construíram podem se arrepender e demonstrar compaixão ao perceber que os demais não merecem pagar pelos seus atos. O preciosismo temático proposto pelos realizadores é extenso e complexo, que carrega debates bem concebidos que geram um impacto pós-filme muito bem aplicável.

Além do foco temático bem alicerçado na construção narrativa, há uma exploração dramática e profunda dos arcos de seus personagens que, intensificados por um excepcional elenco, só possibilitam o nosso envolvimento com tais figuras: Christian Bale é fundamental ao transmitir no olhar sutilmente exaurido e no físico, o cansaço de um herói e sua luta constante para realizar aquilo que vê como moralmente correto, se revelando cada vez mais como a opção perfeita para encarnar o homem-morcego nessa proposta mais humanizadora. Já Gary Oldman imprime a determinação de um policial que contrariou a corrupção moral de seus companheiros de trabalho e escolheu lutar pela justiça. Maggie Gyllenhaal foi uma escolha justificável por encarnar o drama de Rachel em representar uma saída de Bruce daquela realidade que se encontrava imerso. Michael Caine continua a representar uma forte presença paternal na relação que nutre com Wayne. Aaron Eckhart dá a Harvey Dent uma presença heroica que faz de sua transformação ainda mais trágica por conta do que sua imagem simbolizava.

Porque ele é o herói que Gotham merece, mas não o que precisa agora, então vamos caçá-lo. Porque ele aguenta, porque ele não é um herói. Ele é um guardião silencioso, um protetor vigilante, um Cavaleiro das Trevas.

Contudo, seria um erro não comentar sobre a fascinante performance oferecida pelo falecido Heath Ledger: desacreditado quando foi anunciado como a escolha para personificar o Coringa, o ator se aprofundou na psique e na construção de seu personagem com tanta intensidade que não é possível constatar que ele interpretou o antagonista, mas que ele incorporou toda a essência psicopática que faz dele o nêmesis mais importante do protagonista no material-fonte – no caso, as HQs. A genialidade de Ledger aqui são os detalhes: dos tiques e maneirismos físicos (as constantes lambidas nos lábios, o modo de caminhar, o tom vocálico nasal e o olhar psicótico) até características diversas como o fato de sempre distorcer sua “origem” – algo que reflete sua natureza mítica alegórica – e a capacidade de brincar com o psicológico de suas vítimas. Ele representa o ponto mais alto da anarquia, o caos e a loucura de um homem.

Se mantendo fluído por quase 3 horas de projeção, O Cavaleiro das Trevas, acima de todas as virtudes audiovisuais, é uma reflexão profunda sobre a moral de um herói e o limite que ela alcança. E ao questionar tais valores heroicos, acaba por discutir sobre a moralidade social coletiva. Uma obra que transcende o cinema de herói e encontra uma vertente dramática que posiciona Batman no mundo real. E, infelizmente, nos tempos atuais.

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