outubro 20, 2020

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) | Crítica

Eu conhecia Harvey Dent. Eu era amigo dele. E levará muito tempo até que alguém … nos inspire da maneira que ele fez. Eu acreditava em Harvey Dent.

Através de um rápido instante na abertura de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Christopher e Jonathan Nolan ao lado de David S. Goyer expõe com clareza o peso temático que esse desfecho da trilogia carrega em sua abordagem narrativa: a perda e o renascimento da esperança. Durante a primeira hora de filme, acompanhamos um herói decaído, falho, sem vontade de prosseguir e desistente de um mundo corrompido que, ao seu olhar, não pode ser mais salvo. Mas, interessante ver como, assim que Wayne levanta, a esperança ressurge. Batman deixa de ser somente um sujeito comum que veste uma máscara. Agora, o herói é o símbolo. A imagem de que o povo precisa, acima de tudo, ter esperança.

Curioso ver também como a fluidez rítmica dos eventos é propositadamente desacelerada e o tom narrativo é bem mais fúnebre enquanto acompanhamos a carga dramática de Bruce Wayne ser explorada no ato-inicia para contrastar com o clima grandioso e esperançoso aliado a progressão mais urgente quando o protagonista decide retornar. Uma maneira sutil de Nolan explicitar a importância do herói e como ele simboliza esse aspecto inspirador que parece ter morrido no dia que Harvey Dent morreu (fisicamente e como imagem de heroísmo para os cidadãos de Gotham). Interessante ver também como Wayne foi afetado pelo fracasso e se tornou incapaz de seguir em frente, isolando-se do mundo externo para se atrelar ao seu fracasso e se martirizar em seu sofrimento que, tão intenso e corrosivo, lhe causou marcas físicas.

Mas a fagulha de esperança que parecia morta se revela acessa na presença essencial de um personagem: o policial Blake, interpretado por Joseph Gordon-Levitt. Diferente dos olhares desesperançosos e o sentimento de desistência dos demais em cena, Blake aparenta ser o único em cena que não desejou perder a vontade de ter fé de dias melhores, algo que Nolan incita no momento em que conversa com Wayne, clamando pelo retorno do Batman, pelo ressurgimento da capacidade de Bruce em crer que existe esperança. E a performance de Levitt é eficiente ao transmitir uma simpatia e determinação que faz de Blake um reflexo da moralidade e justiça dentro da corruptividade da polícia, assim como Gordon demonstrava ser anteriormente. Seu interesse é ajudar e auxiliar os demais a terem uma visão esperançosa de dias melhores.

É só no retorno de Wayne que ela ressurge, já que assim como o próprio esclarece a Blake, Batman é mais que apenas um homem fantasiado de morcego. Não é aquele por trás da máscara que importa, mas sim o que representa. Dentro desse aspecto, a trilogia se interliga no foco temático, se revelando como uma análise profunda do heroísmo: se o primeiro filme era o fundamento dos conceitos de um herói em Wayne e o segundo questionava a moralidade de seus atos como herói, esse terceiro indaga o que realmente significa esse termo. O que representa o ato de ser herói? Dentro dessa fórmula atrelada a uma vertente realista/dramática que encontra uma construção lógica, a reflexão é bem construída e formaliza o retrato de Nolan do herói como um símbolo para tempos sombrios e niilistas.

Tempos sombrios que são representados através de um pertinente e curioso comentário social a respeito do terrorismo que assolou a América do Norte durante a década de 2000, enraizado na presença de Bane e seus comparsas. Dos seus atos extremos que incitam uma lealdade dos mercenários a Bane formada pelo medo que transmite, a figura do antagonista é, dessa vez, um reflexo do extremismo terrorista que aterrorizou o país desde o atentado presenciado no fatídico dia 11 de Setembro de 2001. Sua ação e seus métodos são alicerçados no medo que imprime nos cidadãos, espelhando o clima de paranoia criado na mente do povo americano através de uma década. E por citar Bane, é admirável ver como Tom Hardy cria um nêmesis que é intimidador em sua presença física e que representa um forte obstáculo pela sua associação direta com a liga das sombras, representando a continuidade do plano de Ra’s Al Ghul e possibilitando o fechamento desse ciclo.

Outro bom aspecto narrativo é o peso dramático das relações e interações entre os personagens em cena, possibilitando um fechamento mais claro de determinados arcos: um bom destaque é a construção do arco entre Bruce e Alfred que, além da fluida dinâmica que Caine e Bale demonstraram ter nos capítulos anteriores, é interessante como Nolan, ao lado de seu irmão e Goyer fundamentam essa divisão entre as figuras, separando Wayne do único simbolo de paternidade que lhe restava em um debate interessante sobre a preocupação de Alfred com o retorno de Bruce ao posto de Batman (e um breve momento onde narra um evento em Florença tem uma importância maior nos minutos finais da projeção). Michael Caine tem sua presença reduzida para que o sentimento de vazio em Bruce seja incitado no público, mas ainda assim, ele possui um breve momento onde explicita seu talento dramático ao se desculpar para o protagonista em frente ao seu túmulo.

Os demais do elenco possuem uma posição dramática forte, mas compreensivelmente reduzida em prol da conclusão do arco de Wayne: Gary Oldman continua a representar uma figura inspiradora dentro da polícia devido a sua honestidade e incorruptividade; já Morgan Freeman diverte com um Lucius Fox ainda mais comedido e com uma presença funcional na parte elaborativa dos gadgets do Batman e Marion Cotillard está operante, mesmo que sem uma função clara durante toda a narrativa, com exceção do encerramento, já que é circundada por uma revelação bem omitida e que se mostra surpreendente – uma pena que Nolan a fragilize detalhando tudo em um longo segmento, quebrando a urgência dos acontecimentos simultâneos da narrativa.

Contudo, dos novos personagens, é inegável não dar o destaque para Anne Hathaway em sua encarnação de Selina Kyle: diferente da icônica versão de Michelle Pfeiffer que carregava um forte flerte com a fantasia, a personagem aqui é fielmente realista, traçando o caminho da personagem nos quadrinhos e representando uma ladra acrobata com uma personalidade entre um humor irônico e uma sensualidade que utiliza como arma para desestabilizar seus oponentes. Mas, além disso, Hathaway oferece uma carga de humanidade e uma dimensão dramática sutil na sua composição que revela uma personagem mais complexa do que aparenta. Contudo, o destaque mesmo é Christian Bale que incorpora em definitivo a essência heroica e determinada de Wayne, formalizando sua interpretação em uma composição persistente e inspiradora.

Se distanciando da abordagem mais intimista e policial do capítulo anterior, Nolan aproveita o escopo do encerramento e aposta em uma escala grandiosa, transformando desse terceiro filme um espetáculo audiovisual em todos os aspectos: a trilha de Hans Zimmer eleva o impacto das situações com melodias que vão do aflitivo ao emocionalmente arrebatador até o alarmante dentro da construção mais engrandecedora. As sequências de ação, ainda com um ou outro defeito no que diz respeito ao posicionamento geográfico e a articulação desordenada, são bem coreografadas e levadas ao extremo, como exemplifica o belíssimo confronto entre os policiais e os criminosos de Gotham no ato-final, admirável pela elaboração. Já a montagem é eficaz na maneira como posiciona diferentes acontecimentos paralelos sem perder a fluidez do coletivo naquela situação, algo que o confronto final exemplifica muito bem.

Optando por um encerramento emocionalmente inspirador ao arco de Bruce Wayne, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é grandioso, dramaticamente poderoso e funcional ao explicitar um retrato bem construído do que representa ser um herói e a visão de Batman como um símbolo. Mas, claro, a dúvida fica constante se o sacrifício de Wayne foi realmente válido após o final da sessão. E me vejo obrigado a discordar daqueles que vêem Bruce vivo como uma invalidação do ato: como o mesmo disse em um breve instante, a figura de Batman é um símbolo de esperança, independente de quem esteja sobre o manto. Por isso que, ao vermos Bruce seguir em frente, é extremamente justificável e funcional dentro do que havia estabelecido. Ele abandonou aquela vida, mas não sem deixar um herdeiro que irá seguir o caminho.

Porque, no final, Batman não é Bruce Wayne. Batman é um símbolo. O reflexo da esperança para os cidadãos de Gotham.

Um herói para um mundo que necessita de um.

Avaliação: 4 de 5.
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