Bela Vingança (2020) | Crítica

A cena de abertura de Promising Young Women, primeiro filme da diretora Emerald Fennell, é uma provocação poderosa: ao inverter os papéis mostrando em câmera lenta e de modo sexualizado diversos homens dançando em uma boate, a realizadora reproduz o desconforto do público feminino de ver a representação dos seus corpos de maneira objetificadora, só que agora, incitando essa mesma sensação no sexo masculino, ao mostrar o corpo de homens da maneira mais exageradamente sexualizada possível.

Mais tarde na narrativa, Fennell encena um momento semelhante, onde (sem spoilers) vemos diversos homens ajoelhados recebendo uma bebida em suas bocas e o modo hiperestilizado que Emerald concebe tal momento é “explícito” o suficiente para servir como protesto. Essa são apenas algumas das diversas escolhas formais corajosas da realizadora ao contar uma história de uma mulher em um mundo dominado pela supremacia masculina buscando justiça de modo próprio.

É uma obra que tinha uma forte chance de fracassar dado a mistura inconsequente da estilização de Fennell, que une escolhas de mise-en-scène peculiares e bastante excêntricas a uma relevância social em seu discurso que faz dela uma obra importante dentro dos eventos presenciados nos últimos anos. A solução da diretora foi unificar toda essa dinâmica mais “pop” de sua abordagem formal ao contexto temático, potencializando tais eventos através dessa iconografia particular muito rica em seu efeito sensorial no público.

A decupagem da diretora segue um padrão curioso que expõe os ambientes vazios dentro de cada plano, capturando as sobras dos espaços nos enquadramentos em prol de gerar uma estranheza, até mesmo uma excentricidade ou, em certos casos, uma apreensão constante. Um bom exemplar é quando Cassie (Carey Mulligan) vai de encontro a Dean Walker (Connie Britton) para ameaçá-la, algo que Fennell vai intensificando em cada troca de plano, em uma sequência que, através da sutileza de sua composição dos quadros, incita uma tensão constante, tanto no espectador quanto na personagem de Britton.

Outro elemento curioso é como Fennell utiliza as músicas na construção do plano para potencializar os eventos demonstrados, de escolhas mais discretas (quando em determinado segmento, uma versão em violino de “Toxic” é tocada) até aquelas que adentram de maneira escancarada (o uso perspicaz de “Angel of the Morning” da Juice Newton no clímax), unindo em uma miscelânea excêntrica o eletrônico com o pop oitentista. Interessante como Emerald trabalha com diversos elementos multicoloridos em sua construção dos ambientes e até mesmo em como lida com o néon das boates e das sequências noturnas para transmitir uma peculiaridade nessa iconografia marcante desse mundo que se estende até ao modo como sua protagonista se comporta e até como se veste (a forte presença do tom rosa que concebe uma personalidade própria a protagonista).

E curioso também como Fennell sempre subverte as impressões que criamos durante a narrativa: seja ao revelar que determinado personagem não era tão confiável quanto parece ou ao quebrar a noção de vingança do quarto capítulo com um desfecho que, aparentemente, é amargo, mas logo se revela esperto ao investir em um encerramento que, operando como epílogo dramático da história, consegue ser poderoso mesmo através de uma dinâmica simplista na teoria, mas com um efeito realmente arrebatador na prática através da peculiaridade das escolhas de sua realizadora, seja na entrada da música, seja na dinâmica de montagem.

Promising Young Woman, em uma última análise, acaba por ter uma semelhança forte com outro filme de 2020: Aves de Rapina da Cathy Yan. Se naquele filme, a diretora trabalhava a ideia do empoderamento e sororidade através de uma linguagem pop, dentro de um apelo comercial, aqui, Fennell faz algo semelhante ao propor essa mistura de estilos que soa até desconexa, mas cujo o efeito da unidade é poderoso, sendo recompensador diante dos problemas sociais contemporâneos e doloroso ao nos lembrar que eles ainda existem em nosso mundo.

Avaliação: 3 de 5.
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