Bem-Vindos A Marwen (2018) | Crítica

Escrito e dirigido por Robert Zemecks, Bem-Vindos a Marven é mais um projeto ousado do diretor, que nos traz uma bela história com conhecidos temas, mas numa abordagem e desenrolar fora da estética comumente apresentada, o resultado é um filme surpreendente em alguns aspectos, que ratifica o talento do seu protagonista para com o gênero, mas que peca, justamente, na falta de mais ousadia.

O filme narra a REAL história de Mark Hogancamp (Steve Carell) que após ser agredido em um bar, entra em coma. Ao acordar, ele não se recorda da família e dos amigos, criando assim uma maquete de uma cidade belga com vários bonecos que representam seus amigos, amores e seus maiores medos, a partir daí o imaginário assume e Mark embarca, levando todos ao seu redor, nesse novo mundo. É preciso dizer, antes de tudo, que nada justifica o fracasso desse filme, fica claro que o maior problema foi a falta de promoção da Universal Studios, talvez o trauma dos fracassos anteriores tenha servido de combustível para essa descrença, mas ao assistir ao filme a sensação que fica é que o voo merecia ser mais alto. Outra coisa curiosa que flutua nessa produção é a figura por trás das câmeras, responsável pela franquia De Volta Para o Futuro, Forest Gump, Uma Cilada Para Roger Rabit, todos devidamente homenageados aqui, e tantos outros grandes títulos, Robert Zemeckis mais uma vez não emplaca, o diretor vem sofrendo nos projetos recentes. A direção é precisa e fixa com a sua ideia, temas complexos e nocivos flexionam suas apresentações a partir do imaginário apresentado, o diretor conversa sobre homofobia, intolerância, preconceito, depressão, amor, tudo sob a perspectiva maior da fantasia vinda dos olhos de Mark.

     O elenco tem um bom desempenho e conta com bons nomes, Diane Kruger (Bastardos Inglórios), Merritt Wever (The Walking Dead), Gwendoline Christie (Game OF Thrones) são os elos entre o presente e futuro do protagonista, servindo alicerce para a transição, sempre traumática, entre fantasia e realidade. A fantasia é um componente que ganha força, além da própria história por trás, pelo talento, mais uma vez demonstrado, de Steve Carell. O ator desfila mais uma vez sua perícia no drama, é curioso esse atual momento em que os comediantes migram para o drama e se mostram bastante competentes, aqui não é o seu melhor papel, mas Carell transfere para a tela todas as emoções apresentadas, seu olhar transmite medo, desespero, agonia, solidão e todas as interrogações que pairam sua mente no conflito de certo ou errado. Por outro lado, no seu particular mundo imaginário, Mark idealiza seu mundo virtuoso e igualmente traumático, os conflitos também são apresentados, mas a temática sugere uma história mais ativa e aventuresca. As mulheres são destaque também nesse novo mundo, todas as virtudes, fraquezas, emoções e motivações transitam por elas, fazendo com que o protagonista, aqui o capitão Hogie, seja mais livre para suas ações e sentimentos que o seu criador, Mark. Algo que merece destaque é a criação desse mundo, a herança de Uma Cilada Para Roger Rabit e O Expresso Polar deixa Zemecks muito à vontade para dar vida e realidade aos seus bonecos, a fotografia usada dá ideia de algo rudimentar, fazendo com que a computação gráfica seja esquecida e em alguns momentos, a ideia de um Fenacistoscópio seja apresentada, além, claro, a imaginação do protagonista.

     No entanto, nem tudo são flores e a produção sofre com seu roteiro, o texto sempre se interessa em passar uma mensagem, mas acaba pecando na falta de falas e os diálogos são acelerados conduzindo sempre para uma conclusão facilitada, nas cenas que não contam com Carell, o descarte é imediato. Alguns pequenos conflitos são apresentados e abandonados, em determinado momento causa estranheza o sumiço, o clímax também não é impactante quanto deveria, mas fecha bem o conflito estabelecido, é um filme que deveria ousar mais e apostar tudo na sua viagem porque no fim das contas, apesar de triste a história é bonita e o que é bonito precisa ser visto.

     Por fim, Bem-Vindos A Marwen é um filme que merecia mais, é uma obra que fala, acima de tudo, de superação, trazendo um debate real sobre nossa atual realidade e ainda encontra tempo para valorizar a figura da mulher, a quebra de paradigmas e uma pitada de humor cirúrgica, mas ainda assim bem divertida e deixa uma mensagem importante, não feche os olhos para a depressão.

  • Título original: Welcome to Marwen
  • Duração: 116 min.
  • Direção: Robert Zemeckis
  • Roteiro: Caroline Thompson, Robert Zemeckis
  • Elenco: Steve Carrell, Leslie Mann, Diane Kruger, Merrit Wever, Leslie Zemeckis, Janelle Monáe
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