outubro 24, 2020

Big Little Lies (2017) | Crítica

O contraste entre a ambientação de Big Little Lies e o desenrolar narrativo não poderia ser mais simbólico: enquanto Monterey é uma cidade paradisíaca e pacífica, coberta pela beleza descomunal de suas praias, ela oculta figuras dramaticamente complexas que omitem a verdade de suas vidas em prol de uma imagem que idealiza uma perfeição praticamente inexistente, explicitada pela maneira como aparece o título da minissérie na abertura, evidenciando a farsa do olhar superficial que temos daquele local. Na camada primária, Monterey é um paraíso, mas, ao conhecer seus personagens, vemos que nada é o que realmente aparenta. Afinal, é tudo uma bela mentira.

Essa é a base dramática do seriado, baseado no livro da escritora australiana Liane Moriarty, que tem como foco central de sua composição dramática, a análise aprofundada das relações sociais humanas e de problemas extremamente relevantes do nosso ciclo social. A abrangência temática é tamanha, que a minissérie poderia recair em um inchaço que impedisse a articulação de qualquer discussão relevante. Por sorte, não é o que ocorre aqui: o showrunner David E. Kelley (Boston Public, Ally McBeal) ao lado do diretor Jean-Marc Vallée (Livre, Clube de Compras Dallas) controlam a abordagem dos temas para que cada um possua seu espaço entre os sete episódios, sempre interligados aos dramas e conflitos íntimos de suas personagens e a construção da trama.

Ao invés de investir em uma construção narrativa linear, onde os eventos decorram em uma linha temporal clara, Vallée optou por uma estruturação completamente oposta: o piloto se inicia com uma câmera subjetiva que pouco evidencia a pessoa na qual ouvimos de fundo, respirando de modo ofegante durante uma situação onde vislumbramos luzes vindas de viaturas policiais e, após isso, começamos a acompanhar três timelines que ajudam na compreensão da história. A primeira, caminhando de modo temporalmente linear; a segunda, através de depoimentos anônimos sobre o acontecido – mas sem revelar os detalhes mais importantes do “mistério” – e a terceira, que são frames aleatórios de eventos aparentemente desconexos, mas que justificam com o andamento da premissa.

“Bleeding, I’m bleeding” / “My cold little heart”

O método aqui, além de desorientar o espectador para refletir a instabilidade mental de algumas figuras que acompanhamos em cena, traça uma lógica de puzzle, com peças entregues em momentos inesperados, mas que carregam partes fundamentais do mistério e da compreensão dramática de algumas figuras e que, com o avanço narrativo da história, vão se encaixando em seus devidos lugares até formarem o quebra-cabeça de modo completo. Um bom exemplo são as sequências envolvendo Jane Chapman (Shailene Woodley) que, atormentada por uma experiência traumática que pouco compreendemos, a medida que se relaciona com Celeste (Nicole Kidman) e Madeline (Reese Witherspoon), descobrimos as marcas que oculta na imagem que imprime aos demais.

Todo o arco de Jane é extremamente relevante: interpretada por Shailene Woodley com uma força dramática fascinante, Chapman mostra uma mulher gentil, um pouco tímida, simpática, mas que omite as feridas psicológicas por ter sido uma vítima de um abuso sexual, algo que traumatizou sua noção de segurança, ainda mais quando decidiu ter a criança. Toda a base da sua construção emocional é no belíssimo relacionamento que nutre com seu filho, Ziggy (Iain Armitage) e os problemas que enfrentam ao serem imediatamente envolvidos em um caso de bullying envolvendo Amabella Klein (Ivy George), filha de Renata Klein (Laura Dern), na qual intensifica ainda mais os conflitos mentais da jovem, algo que vemos em segmentos oníricos que imprimem a deterioração mental devido a tal evento e suas repercussões.

E se o conflito psicológico de Jane já entrega material suficiente para longas discussões, todo o drama de Celeste Wright exerce um peso ainda maior nesse aspecto: personificada pela excelente Nicole Kidman, acompanhamos seu relacionamento com o marido, Perry (Alexander Skarsgård), e os filhos. Somos trapaceados pelo primeiro episódio, que mostra uma união aparentemente perfeita e pacífica do casal, algo que vai sendo desmitificado ao revelar gradativamente uma agressividade nas ações do marido, que revela um drama sobre violência doméstica, articulando o efeito de tal relacionamento abusivo na mente da vítima, que se encontra em um ciclo de justificativas vicioso e gradativamente desgastante, algo que Kidman transmite com intensidade através de uma composição que procura sempre esconder qualquer vestígio de complicações em prol de manter uma imagem social de perfeição – e o instante na qual a atriz transmite o seu drama emocional a uma terapeuta é fascinante por demonstrar a forma trágica que várias mulheres lidam com esse fardo.

“Did you ever fight it? / All of the pain, so much power / Running through my veins”

Fechando o trio, temos a figura de Madeline que, personificada por Reese Witherspoon, não é isenta de defeitos: além de um casamento notoriamente “frio” e pouco recíproco, ainda lida com uma relação problemática com sua filha do primeiro casamento, Abgail (Kathryn Newton) e tem a vida permeada pela futilidade de sempre observar a vida alheia, algo que a impede de consertar os problemas que próprio carrega nas suas relações íntimas. Atualmente casada com Ed (Adam Scott, possivelmente o esposo mais compreensível e caloroso da minissérie), com que teve Chloe (interpretada de modo adorável por Darby Camp), sua insatisfação constante revela como é incapaz de enxergar o preciosismo que possui dentro de sua casa. E se isso criaria uma antipatia ou repúdio imediato com sua persona, é Witherspoon que faz de Madeline uma personalidade humana, dramaticamente complexa e coberta de conflitos que tenta imprimir uma imagem externamente bela de sua família, mesmo que seu relacionamento com seus integrantes seja tempestuoso (e o momento mais belo de sua performance é aquele na qual troca um belo diálogo com Abgail, na qual Newton se mostra competente ao encarnar a rebeldia, mas, nesse instante, abrir uma aura calorosa).

Perceberam o padrão? Três mulheres que tentam criar uma imagem externa de perfeição em uma vida íntima completamente transtornada ou, no mínimo, distante de um contato emocional mais intenso dentro de um núcleo familiar. Esse é o verdadeiro fio temático de Big Little Lies: vivemos em tempos na qual subimos o feed do Instagram e vemos fotos e postagens de contentamento quando, na verdade, aquilo é apenas uma máscara para ocultar a infelicidade ou as dores da qual não temos consciência que aquela pessoa está enfrentando, mas que aceitamos a farsa por estarmos tão envoltos em nossa individualidade que, somos totalmente incapazes de auxiliar emocionalmente um colega. É, provavelmente, o retrato mais fidedigno da vida que realmente levamos e aquela na qual fantasiamos dentro do nosso ciclo social. Um olhar da futilidade de uma geração voyeurista, que sente um prazer em vasculhar, objetificar e invejar a vida alheia. E, acima de tudo, é um ensaio sobre as relações humanas que nutrimos com aqueles ao nosso redor.

Tal aspecto é impresso de modo intimista, através de pequenos detalhes que complementam esse aspecto: seja um consolo materno ao seu filho, um abraço amistoso, uma compreensão e um auxilio de uma amizade, o abraço de um esposo e a sororidade de três mulheres emocionalmente complexas. A sutileza narrativa de Vallée e Kelley é admirável, pouco vendo a necessidade de expor uma emoção genuína apenas através de um didatismo verborrágico, escolhendo um enquadramento específico, a composição da cinematografia, a ausência de uma musicalidade artificial que delineia o envolvimento dramático do público com a cena, entre outros.

“Maybe this time I can go far / But thinking about where I’ve been / Ain’t helping me start”

E, por isso que o final de Big Little Lies é adequado: após toda a situação da festa – e a revelação do mistério instaurado durante toda a temporada – , vemos aquelas personagens, finalmente, em paz. Além de reforçar a importância da união e apoio feminino em uma sociedade dominada por modos machistas, mostra que, depois de tantos conflitos e dores, Jane, Celeste e Madeline encontraram um conforto na belíssima relação de amizade que construíram entre sete fabulosos episódios. E mais eficiente que o encerramento “feliz” é o último plano, que atua com o olhar subjetivo, simulando uma “pessoa” observando tudo desde o início.

Uma inteligente forma de criticar o pouco do voyeurismo que existe dentro de todos nós.

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