Big Little Lies – 2ª temporada| Crítica

A insegurança dos ricos parte das regras burladas e o padrão familiar questionado, as sucessões de traumas com clássicas problemáticas que afligem o coração, a calmaria do status do subúrbio que só o dinheiro não pode sustentar ou esconder sempre. 

Image result for big little lies season 1

Se essa era a premissa do início da Minissérie envolta de um caso policial adormecido pela sororidade de mulheres que venceram o macho opressor, Andrea Arnold parece querer aprofundar todos os termos e pontas soltas com a nova presença da mulher de um tempo passado, Mary Louise de Meryl Streep. Uma pena que a voz da diretora intenta calada pela também insegurança da segunda temporada em encontrar uma justificação de suas novas temáticas e tratamento das consequências enquanto tenta emular a metafórica direção de Marc Vallé da primeira temporada.

A linguagem da maresia, das ondas bonitas e violentas, nesse aspecto comparativo da periculosidade do ambiente luxuoso da beira-mar mostram agora mais enfraquecida como um resquício de recriação. Arnold tem sua visão mais focada para os detalhes, as casas esvaziadas pelo gigantismo do dinheiro, mas com muitos espaços pelo isolacionismo das protagonistas no afastamento dos homens. Há a busca da sensibilização, como costuma fazer a diretora, em que cada mulher tem seu arco, alinhados na discussão feminina relevante de maneira inegável, seja do casamento, da liberdade do corpo ou da maternidade.

O roteiro consegue nesse detalhismo, às vezes ríspido na montagem, fazer coesa a ideia de negar o passado criminoso e reaver um modo de vida que retorna os traumas. Assim como uma luva Meryl Streep conflita com todas as personagens, como retrato um antigo colégio maternal, aparentemente diferente do modelo shakesperiano que o diretor da escola aponta para as mães de Monterrey que questionam o aprendizado do desesperador Aquecimento Global na sala de aula, porém escondem mentiras e intrigas de seus filhos. Se os filhotes são quase que completamente secundarizados no segundo ano é porque da mesma forma que se compreende a familiaridade e feminilidade dos dramas, a impunidade da infidelidade, um assassinato e a corrupção podem ser justificadamente acusadas por uma “santa” senhora que julga a modernidade dessas mulheres que trabalham, se impõem e tentam realizar seus desejos pulando empecilhos e se adaptando a novas realidades sociais.

Image result for cuevana cinepolis

E se tudo isso se mostra empolgante, o texto junto com o olhar sensibilizador de Arnold começam a seguir romantizações que posam de realistas, novelizações com o excesso de flashbacks que mais travam ritmos de desenvolvimentos de personagens para impactar do que realmente dramatizar. Isto ainda pode parecer desculpável, o crime que circundava como impulsionador da existência do segundo ano de “Big Little Lies” acaba virando mote principal, uma falsa expectativa de conclusão em uma mentira contemplativa.

Image result for big little lies season 3

A Streep convidada se finaliza como uma vilã bem interpretada, com palavras mesquinhas e com propósito único de criar ódio no público como personagem de novelas que são cliffhangers naturais para satisfazer a passagem vagarosa dos episódios em explanar os variados arcos. Assim a insegurança da trama se torna execução da obra, a minuciosidade das lindas ondas e perigosamente afogantes se tornam paisagem para danças, slowmotion de uma alegria da personagem de Shailene Woodley, e Monterrey tem seu esconderijo na pedreira utilizado para a nova sororidade fundada em uma omissão revisitada de forma extrapolante para o roteiro lembrar do porque haver sua própria existência. 

Com tantas conveniências, com delicadezas escritas, introduções de personagens com visões e uma tentativa de tornar o mundo dos homens restrito a uma briga do machão inseguro e o “mulher da relação”, Andreia Arnold fez o que pode. Afinal tudo começa como no final, um senso de possível inteligência de criar o aguardo por rodeios “relevantes”, caminhos diferentes para circular dentro da mesma curva da morte de um homem. 

Pois entre os ricos a guarda dos filhos é ganância, pois a prole masculina não pode deve seguir os mesmos passos do machismo, e a violência não enaltece a causa, não é a melhor resolução. Então nos meandros, nesse segundo ano da minissérie da HBO as grandes atrizes poderosas para enviar a mensagem feminista também são poderosas o suficiente para mostrar que a função não é o conflito, e sim a paz. 

Pensando nisso, a indigesta finalização por um lado parece má formulação de suspense/drama, o que soa em algum momento inconsequente a mentira ser centro de união. Por outro lado, o equilíbrio do discurso pode sempre parecer irônico e pouco satisfatório quando se tem tanto poder e fragilidade trabalhados.

Image result for big little lies season 2

https://www.imdb.com/title/tt3920596/

Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

%d blogueiros gostam disto: