outubro 19, 2020

Boa Noite, Mamãe (2014) | Crítica

Dentro de uma vertente dramática, Ich seh, ich seh (traduzido como Boa Noite, Mamãe) pode ser estudado como um olhar curioso sobre a mudança da visão maternal que temos a medida que vamos crescendo, enxergando atitudes e decisões das quais desconhecíamos em nossas progenitoras, algo que o projeto confirma ao fazer um dos filhos afirmar que ela não é a sua mãe, algo que imprime um peso forte no ambiente e resulta em outro momento na qual pode ser estudado de maneira semelhante. Basicamente, esse projeto dos iniciantes em longas-metragens Veronika Franz e Severin Fiala pode ser descrito como uma obra que procura estudar com atenção o martírio de uma família após uma série de acontecimentos trágicos e a forma como tais eventos afetam a mente daqueles indivíduos.

No caso de Lukas e Elias, ambos se vêem imersos na completa paranoia: após determinados comportamentos questionáveis vindos de sua mãe, os garotos começam a suspeitar – e temer – que a mulher na qual está vivendo na casa deles pode não ser a mãe dos jovens, criando assim um clima de frieza completa entre as relações dos irmãos com a matriarca. Os diretores procuram retratar esse sentimento de uma ausência afetiva na composição dos planos, que, em alguns momentos, acompanham os padrões neutros dos ambientes da casa, seja o cinza ao esbranquiçado, concebendo assim uma atmosfera de melancolia que sempre está ao redor de seus personagens e das interações entre ambos.

Outro aspecto que Fiala e Franz ressaltam aqui é o esvaziamento dos espaços: constantemente, a dupla enquadra os eventos com planos mais amplos e que procuram captar a paisagem dos ambientes, mesmo que eles sejam fechados. Com isso, os realizadores incitam claramente a ausência de algo, a falta de um elemento instrumental na relação da família: o afeto. Claro que, essa captura do vazio nas locações pode ser interpretado de outras maneiras (a lacuna deixada pelo pai, por exemplo), além de funcionar como um eficiente recurso atmosférico na construção do suspense em torno do fato de também estarmos nutrindo desconfiança com respeito a personalidade da mãe e por temermos a presença ameaçadora e hostil que ela imprime, vindo através da performance competente de Susanne Wuest, que traz uma fisicalidade gradativamente intimidadora.

Já os meninos (que se chamam Lukas e Elias realmente e que também são irmãos por trás das câmeras) cumprem bem a função que foram designados, imprimindo uma união e companheirismo que jamais omite ou suaviza o lado cruel de ambos. Por citar esse aspecto, é nesse ponto da narrativa que Boa Noite, Mamãe fracassa: ao sair da sutileza que permeava os dois primeiros segmentos da produção, no ato-final, Severin e Veronika decidem transformar o psicológico em gráfico, numa transição que destoa do tom proposto inicialmente e que só serve para gerar o choque através dos atos cruéis – algo que conquista com eficiência, devo confessar – , logo falhando com a coesão do tom narrativo. Há também uma certa indulgência na extensão de certos takes que revela uma ausência de significados relevantes, além de prejudicar o ritmo de vários momentos, afetando a fluidez da paranoia e a atenção.

Encerrando com uma ambiguidade pouco necessária, Boa Noite, Mamãe é um começo promissor de uma dupla que possui uma veia autoral para marcar seus nomes no atual campo do cinema de terror contemporâneo.

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