Border (Gräns, 2018) | Crítica

O conto romântico de terror escandinavo consegue criar uma mitologia própria, interessante pela estranheza, mas não capaz de fazer reflexões arbitrárias sobre a sociedade para além de uma sugestão contemplativa vazia. O diretor Ali Abbasi deve ter assistido “Deixe Ela Entrar” para ter adotado uma estrutura tão similar. Aquele, que se tratava de um romance vampiresco infantil, onde cada um dos personagens peculiares iria aprender a aceitar seu lugar como diferente diante de uma sociedade que os marginaliza. Aqui isso se repete, estabelecendo uma protagonista fisicamente monstruosa que encontrará outro “diferente” igual a ela, uma chance de conhecer e aceitar a sua realidade animalesca.

A diferença é que no filme citado funcionava o caráter enigmático de tanto o público quanto o menino não saberem da natureza real da menina que acabavam de conhecer, algo que não faz sentido ser feito nesse. Essa enigmatização da condição da protagonista só serve em níveis metafóricos, o problema é que essa tal metáfora será verbalizada durante toda sua interação com o par romântico. A reflexão em si é interessante, abordando pluralidade cultural e preconceito racial em diferentes contextos, mas narrativamente carece de algumas explicações mais plausíveis, pois como o folclore de sua raça não chegou a ser questionado por ninguém até aquele ponto?

A resposta poderia até estar nas entrelinhas do projeto governamental que viu os dons cromossômicos de Tina como um utensílio eficaz no combate à infiltração de ilegais na fronteira, mas soaria irônico pensando nela como também um desses seres imigrantes que precisariam ser investigados antes de poderem conviver ali harmonicamente. Faria mais sentido adentrar essa aura misteriosa apenas do público para com ela, algo que aparenta ser nos primórdios, com a apresentação intrigante convidando o público a tentar entender o mundo dela, suas indagações, habilidades, origem e objetivos. Como todo bom filme que propõe um roteiro baseado em uma estrutura de estudo de personagem, não expondo nada em excesso sobre a bizarra natureza dos protagonistas.

Nesse ponto a fábula tem efetividade, pois ao proporcionar o incômodo visual do relacionamento entre os diferentes seres, desperta nossa dificuldade em assimilar outras culturas, por mais grotescas que elas aparentam ser, é ainda uma manifestação de vida válida. O cerne foca nesse princípio de moralidade em aceitar o diferente, quando qualquer raça, ao aderir um patriotismo de linhagem extremista, busca oprimir o divergente ou usá-lo em seu benefício. Tina seria a fronteira entre esses pensamentos ao aprender com os humanos a não julgar as aparências, e sim o mal de cada um, os mesmos humanos que passaram a vida toda julgando sua aparência.

Uma pena que esse conflito só fique na promessa mórbida e comtemplada pela natureza aceita tão bem dos personagens, embora esse recurso seja bem trabalhado na elaboração de uma conexão espiritual entre eles. A fotografia capta bem isso, no estado de espírito frio e melancólico dos personagens, a vida natural ao seu redor sempre parece muito charmosa, demostrando esse apreço da vitalidade do selvagem. O trabalho de elenco também a ajuda nessa química pouco cômoda do romance, mesmo com a dificuldade em demonstrar as expressões sob uma máscara espessa de silicone, Eva Melander e Eero Milonoff conseguem extrair uma unidade significativa de emoções através de pequenas gesticulações, sem nunca cair em exageros “overactings” fáceis.

“Border” poderia se contentar com um romance simples e fantasioso de dois seres estranhos em busca de um final feliz, felizmente ele opta por um caminho mais poético e reflexivo, extraindo a beleza melancólica do “diferente”, e assim prendendo a atenção na fermentação de ideias bastante promissoras. Falta mesmo desenvolvê-las a partir desse pressuposto original, contornando seus segredos em algo menos ressonante, descascando para um lado fora do conhecido. É um bom e intrigante filme, mas que certamente deixa uma sensação de incompletude ao seu término.

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