dom. fev 23rd, 2020

Bright (2017) | Crítica

David Ayer está caminhando para se tornar referência em filmes policiais – exagerei? pelo menos é nítida a proximidade do diretor com este gênero – sendo Bright, seu melhor trabalho até agora. Na sua carreira, conta com o ótimo filme de guerra Corações de Ferro e depois de um Esquadrão Suicida que não deu certo – na minha opinião, muito do fracasso desse filmes foi culpa da Warner – Dayer Ayer é contratado para trazer para a netflix um filme que tende a ser grandioso, e parece ser a segunda maior aposta da empresa nesse ano, depois de Okja.

Já se perguntou como seria o universo do O Senhor dos Anéis nos dias atuais? Se você respondeu “não muito diferente”, acertou. Em Bright, elfos, orcs, fadas, humanos e com certeza muitas outras espécies habitam no mesmo planeta, dividem os mesmos territórios, tem suas classes sociais e de convívio. Se você pensou “que lindo, deve ser bem diferente da nossa sociedade podre, racista, cheia de desigualdades sociais e maldade” errou. Bright trás aquele longo questionamento sobre problemas socioculturais e racismo.

Eu não consegui deslocar o meu pensamento de Senhor dos Anéis, é como se eu ficasse sabendo o que aconteceu 2000 anos depois de Aragorn ter sido proclamado rei e o Um Anel ter sido destruído, já que o discurso de “o que aconteceu 2000 anos atrás” é sempre ressaltado no filme. Na trama, o policial Ward (Will Smith) e o seu parceiro – primeiro Orc a trabalhar na policia – Nick (Joel Edgerton) precisam proteger uma varinha mágica contra orcs, elfos renegados e até humanos que a querem para realizar seus desejos.

Apesar de ser uma fantasia, Ayer não economiza no seu tema central: o preconceito. Marginalizar Orcs é algo comum, seja dentro do nosso mundo ou no mundo da fantasia, afinal, quem pensa em Orcs como uma espécie de raça do bem? É muito raro, seja em um filme ou numa sessão de RPG, geralmente teremos Orcs como vilões da história. Trazendo para o mundo real, a discussão é mais válida, podendo facilmente substituir as raças deles pelas nossas; seja negro, branco, latino, gangues de rua, crime organizado, grandes conspirações, sociedades secretas… A discussão está presente no filme desde o início, e isso faz o Orc Nick, ser o melhor personagem.

Sofrendo com racismo desde o lugar onde trabalha até nas ruas, Nick é o personagem que se sente deslocado, e chega a ter lapsos de ingenuidade, mas nunca se separando do seu dever como policial, mesmo sofrendo preconceito da sua própria raça de Orcs. A abertura do filme é maravilhosa, nos contando praticamente o que aconteceu nos 2000 anos que se passaram; existia um Senhor das Trevas – alô Tolkien – que promoveu uma dominação global, porém foi derrotado graças a um exército de raças, e depois desses eventos, o mundo se separou com raças vivendo nos seus territórios, sendo os Elfos, os mais ricos com direito a um território fechado e os Orcs, a classe marginalizada, dividindo esse status com humanos.

O filme brilha quando trás um grupo de Elfos renegados como grandes vilões da história, quem diria, não? Desmistificando todo o status de que todo elfo é um ser puro. Ayer é seguro na sua direção, mostrando boas cenas de ação e uma fotografia “das ruas” numa cidade obscura, dominada por gangues e uma longa perseguição pela grande varinha mágica. Sendo uma grande produção, a Netflix não poupou dinheiro em maquiagens – Joel Edgerton some na belíssima caracterização -, e ambientações, porém, ainda assim não sentimos toda a grandiosidade de um blockbuster, mas muito se deve ao fato de as raças viverem em casas, favelas e até nas ruas, sem os grandes castelos e florestas da era medieval.

O filme tem suas limitações, o personagem do Will Smith ficou um pouco apagado no arco do Orc, que roubou o filme com bons diálogos e suas motivações, querendo fazer o que ama, mesmo com o mundo não se importando com sua presença. Assim, o drama familiar de Smith fica de lado na história.

Bright trás discussões antigas e longas, porém atuais e válidas, focando na dramatização dos seus personagens principais e buscando novas mitologias e crenças, o filme te prende pela curiosidade daquele mundo, você quer ver mais, saber mais sobre como e quais espécies vivem ali, não é a toa que a Netflix estaria encomendando uma sequência, que ainda não foi confirmada, depende muito da recepção do público.

  • Duração: 1h 57 min.
  • Direção: David Ayer
  • Roteiro: Max Landis
  • Elenco: Will Smith , Joel Edgerton , Noomi Rapace , Édgar Ramírez , Ike Barinholtz , Lucy Fry ,Chris Browning

Bright (2017)

8

Nota

8.0/10
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