outubro 24, 2020

Capone (2020) | Crítica

     Filmes de máfia sempre são munidos de algumas características que os fazem bem-vindos aos olhos do consumidor; a estética, o clima construído, a ambientação, o movimento, os personagens… embora se assemelhem em diferentes produções, cada protagonista carrega sua particularidade, é difícil esquecer da construção de Don Corleone, da jornada de Antonio Raimundo Montana, Tony Montana para os íntimos ou da imersão criminosa de outro “Scarface (1932)”, Tony Camonte. Todos eles têm em comum sua marca histórica na obra de cada diretor, mas nenhum, talvez, tenha tanto frescor quanto Al Capone, esse sem dúvidas é um dos grandes nomes que associam a vida real com a arte dentro desse gênero, sendo retratado em vários filmes, assumindo o próprio nome ou um pseudônimo inspirado, Capone sempre surge com o misticismo do personagem real que dominou a máfia de Chicago por um período. Ao lançar “Capone (2020)”, Josh Trank apresenta o lado humano do personagem, mesmo que em um iminente estado de decomposição.

     Parece que os filmes de máfia realmente rumaram seus clássicos, atores, personagens e diretores, para o fim. Se em “O Irlandês” a velha guarda quase não troca tiro, aqui esse estilo do sobretudo com armas e chapéu está mais distante ainda, não à toa o filme foi divulgado como o último ano da vida do gangster. É muito comum nessas obras as construções técnicas funcionarem com precisão, sem perder muito tempo nesse quesito, vale ratificar que toda construção de época funciona perfeitamente; figurino, arquitetura, ambiente, carros clássicos que impõem todo poder aquisitivo, tudo funciona. O que vale ser pensado é o estilo e a escolha do filme, desconstruir o que é tão comum ao gênero é um risco que requer um bom background para ser assumido, afinal, filme de máfia é diretamente ligado a ação, trama e poder. Esse risco é aprovado quando na primeira cena o diretor já mostra que a decadência humana é possível para todos, Capone aqui é imponente pelo que foi e não pelo que é.

     O visual chamativo pela iminente falência do protagonista é a porta de entrada para o momento do filme, logo de início já é esclarecida a incapacidade física do personagem, que sofre de neurossífilis, e é a partir disso que o diretor sinaliza seu direcionamento para o aspecto visual. Toda maquiagem produzida tem o objetivo de chocar o público à primeira vista e com certeza irá funcionar, Fonz (apelido de Al Capone) é horripilante, é decadente, é deprimente e nessa pegada o diretor narra a jornada do declínio de uma vida humana, ditada por uma doença que tem a equivalência cruel da vida do criminoso, definhando fisicamente e mentalmente seu portador. A favor disso o diretor joga com tudo que tem a disposição dentro da linguagem cinematográfica, usando a metalinguagem com o intuito de justificar que o sofrimento é merecido, pois são nos devaneios de Fonz que o paralelo é feito entre os diferentes momentos e diferentes ações, fazendo com que o próprio protagonista questione a necessidade das ações; observe: é a metalinguagem a serviço do estilo cinematográfico e é o estilo cinematográfico a serviço da reflexão, é esse conflito reflexivo que tira o filme da sua primeira camada e o texto usa bem esse aspecto quando usa esses mesmos devaneios para contar parte da historia do personagem e descer um degrau na sua condição, trazendo assim a verossimilhança necessária nesse quesito.

     Confesso que o ponto mais chocante no filme é a trajetória, se prender ao visual é muito raso, porém também é válido, no entanto concordo que boa parte do público vai se incomodar com as feridas, com a baba ou com uma defecada aqui e outra ali, mas é a jornada que conta e é também na jornada que o “trem” perde a estabilidade. A apresentação de um personagem importante para o enredo é totalmente fora de foco, é gratuita e serve apenas para lembrar que tal aspecto também existe naquele universo marginal, não faria falta alguma se não existisse pois não demora muito para que se “mate a charada”. Lá pelo meio o filme tenta encaixar um humor onde não cabe, lá pelo meio o filme tenta criar um suspense que não existe, ninguém quer saber se o personagem tem uma fortuna enterrada; nem o espectador, nem os personagens ali. Fonze não vai lembrar, ele está demente e se lembrasse, Josh Trank traria de volta seus dias de “Quarteto Fantástico” e com certeza eu pediria um estorno. A conclusão também deixa um ar vazio, o que pode ser válido em alguma perspectiva, mas a sensação é que aquele não era o corte original do filme, parece que alguém freou o diretor, todo cerco foi montado para o ponto final, inclusive desenhando para isso. Sabe quando você assiste a uma prova de atletismo e quando o tiro é dado sinalizando o início da corrida? É ali que a tensão sobe, é como se naquele momento do tiro a tv desligasse e você não visse a corrida, tem fim que não precisa ser mostrado, porém tem fim que precisa ser visto, faz parte da trama.

     O elenco é totalmente funcional e se direciona no sentido do protagonista, inclusive Louis Armostrong, que aparece em uma montagem excelente. O destaque fica para Linda Cardellini que faz a esposa do chefão, a atriz passa toda tensão que provavelmente existe quando se convive com alguém naquelas condições, a preocupação continua, o pavor, o nojo fisiológico, a necessidade de ajudar, o desgaste que tudo aquilo provoca, Mae é a personagem que coloca o espectador na situação. Depois de ver o filme é impossível imaginar outra pessoa para dar vida ao gangster, Tom Hardy tem essa característica mutável nos seus trabalhos, esqueçam “Venom” por favor, uma rápida pesquisa na filmografia do ator e você percebe essa entrega física e mental. Aqui não é diferente, não é só a maquiagem que traduz isso, é o andar curvo e torto, é o olhar sangrento, vazio e definhante, mas ainda assim ameaçador, é a voz rouca de quem tragou muitos charutos, é a surpresa e decepção de quem vai percebendo que não tem mais controle sobre as suas necessidades fisiológicas. É um trabalho sujo, visceral que em alguns momentos se une ao gore e a sensação de apodrecimento quando moscas e zumbidos circulam o personagem indicando algo podre ali, é um incômodo incrivelmente bom. Pode não ser fácil para alguns, mas para o cinema, em tempos de pandemia, traz um ótimo frescor no quesito atuação, só resta saber como serão as premiações. Usando um termo antigo do teatro francês, se eu visse Tom Hardy depois de uma performance dessa eu gritaria “MERDA!”

Avaliação: 4 de 5.
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