Chernobyl – 1ª Temporada (2019) | Crítica

     A HBO é mais que uma empresa, hoje ela é uma espécie de amigo intimo dos seus acompanhantes, a emissora sempre buscou inovar, polemizar, trazer à tona histórias reais ou fictícias sendo a qualidade o seu maior alicerce, muita gente se encantou e se emocionou com a fantástica Band of Brothers ou se impressionou com a ótima DeadWood e outras que compõem a “velha guarda” da emissora. Mais recente, nem tão recente, tivemos o mega sucesso de Game Of Thrones, True Detective, Big Little Lies, Ballers, os documentários polêmicos e/ou informativos como Leaving Neverland, a lista é enorme e esses exemplos servem para ratificar a preocupação com a qualidade dos seus projetos, apostando em vários gêneros, vários temas. A HBO é o elo dourado de muita gente.

     Quando o anúncio do início das gravações ganhou as páginas da internet em abril de 2018, pouco se falou sobre, Chernobyl é uma história triste e revoltante, além disso as pessoas estão preferindo diversão no entretenimento, indiretamente a vida real e suas, muitas vezes, assombrosas notícias, afastam o publico desse tipo de trama, mas ainda assim algumas pessoas fizeram ruído e aguardaram ansiosamente a data de estreia. Craig Mazin é o nome por trás de tudo, a apresentação da catástrofe detalhada e toda riqueza de detalhes chamou atenção ao longo dos 5 episódios, a produção sempre se preocupou com o entendimento e além de contar a história, se preocupou em ensina-la. Em determinados momentos, um personagem questionava algo ou questionava o funcionamento de algo, isso foi uma grande sacada para que a série se comportasse de forma didática, ensinando ao mundo como funciona um reator nuclear, como funciona uma usina ou algum elemento da tabela periódica e suas respectivas reações. A série foi capitaneada pelo selo de qualidade da HBO, a recriação dos cenários, a estupidez humana, o desespero, a compaixão e o amor pelo próximo estão lá, cada uma pulsando na frequência que a tragédia permitia, o som foi trabalhado cuidadosamente para puxar o espectador, a reprodução sonora do aparelho que mede a taxa de radiação crescia na sua TV mesmo quando não tinha uma cena especifica sobre isso e quando tinha, a trilha encerrava e aquele beat ruidoso gritava nos nossos ouvidos, era o sinal que a coisa estava pior, no local do acidente, nas pessoas, nos arredores. Foi impossível não ver a série e não sentir raiva daqueles que ditavam as regras do jogo, foi impossível não prender a respiração ao ver pessoas tomando atitudes que seriam inúteis, apenas para seguir ordens, a realidade tornou-se real diante dos nossos olhos ao longo dos episódios e essa reação é justamente o resultado dessa preocupação com a qualidade, uma mensagem a ser passada.

     O diretor de fotografia reproduz bem o clima fosco da região, Pripyat e Chernobyl são cidades cinzas, o colorido é sem vida. Os planos fechados mostram os detalhes da tragédia, os planos abertos mostram a dimensão, um belo trabalho. O elenco é bem extenso, todos estão competentes e entregam o que se espera, em alguns momentos você percebe a mão do diretor, a produção tem muito ator sem experiência e a evolução de um episodio para outro é bem nítida, em alguns momentos o corte no mesmo episodio já mostra isso. O trio principal é interpretado por Jared Harris, Emily Watson e Stellan Skarsgard, dois personagens reais e um fictício, criado para representar alguns personagens reais. A transformação desses três flui conforme a urgência do fato, a vantagem de um seriado para um filme é justamente esse tempo para o desenvolvimento, os conceitos de causa, conflito e motivação, tem folego suficiente para não ser apressado ou gratuito e nesse ponto os três tiveram esse time para todo o processo, ambos os atores parecem estar no ápice das suas capacidades como profissional, a empolgação e a motivação, provavelmente vinda da revolta de tudo aquilo, está no olhar de cada um, Jared Harris com certeza levará alguns prêmios para casa.

Jared Harris, Emily Watson e Stellan Skarsgard

     Chernobyl é uma série que se preocupou mais em contar uma história do que entreter as pessoas, os diálogos são marcantes, mesmo que em vários momentos a ficção passe a frente da realidade para construir diálogos que facilitem a construção narrativa, a didática impressiona, o empenho do elenco também, não existe atuação ruim porque todos parecem ter o mesmo objetivo e quando isso acontece, o resultado quase sempre é positivo. Muitos pedem uma continuação, mas o criador já deixou claro que isso não vai acontecer, mais um acerto. Nem todos buscam apenas cifras, em raros momentos, alguém quer apenas contar uma história e isso foi muito bem feito, principalmente uma historia onde a arrogância, ganancia e prepotência humana extrapolaram os limites da estupidez e destruíram a vida de milhares de pessoas.

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