Coringa | Crítica

Eu pensava que minha vida fosse uma tragédia. Agora me dou conta…de que é uma comédia. – Arthur Fleck(vulgo Coringa)

Definitivamente, um filme de vilão. O vilanesco é alcançado nas comparações mesmo, pois metáforas são mais sutis. O palhaço que chora como uma risada é a antítese explícita, explicável, sem perder a magia da performance, elaborando uma linguagem de extremos em que, para inflar o modo vilanesco, aleatório e comicamente perigoso, o contexto precisa ser maligno, Gotham precisa ser muito má para despertar algo ainda mais maléfico.

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Assim, a risada vai tomando formas, o drama é rir, pois não se sabe a hora de rir. Constantemente a câmera busca o ator Joaquin Phoenix, em que planos abertos alcançam o ator para definir a disparidade do mundo de Arthur e os mal iluminados cidadãos. Esse foco tanto coloca o espectador no olhar dele, em que o “slow motion” caracteriza o surrealismo, quanto quando a câmera se afasta e a dimensão densa realística é sentida; a piada pode ser mais captada.

Diante dessa composição é que a trilha sonora entra em cena para martelar o que causa em Arthur e o que de fato aflige ele, independente de sua atuação. O diretor Todd Phillips, acostumado com comédia, aproveita seu personagem caracterizado, estranho, colorido, não sociável, para criar paralelos contrários que visualmente são gráficos. Logo, há momentos de humor, de quebra de expectativa que causam risos, seja de nervoso, seja pela capacidade de palhaço, de almejo pela comédia, como se fosse a única forma de defesa que justificaria e esconderia sua vida social. Assim, a trilha pesada serve para dar o tom, mas não impede a imprevisibilidade. 

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Joaquin Phoenix nunca permanece fixo e, talvez, os momentos mais estáveis em sua loucura é quando a direção dissociadamente padrão do diretor vem à tona. A grande dádiva diferencial, com certeza, é quando o sentimento paradoxal das cores, da simplicidade na ação do personagem e a câmera tensionando o momento, da clássica dialética do personagem no mais alto expressionismo de maquiagem e teatro, tudo isso é “Scorceseanizado”, estilizado pelo um espírito rebuscado para tornar o gráfico direto em algo mais ambíguo. Quando há o momento estático, essa mesma direção de contar com movimentos aleatórios de Arthur se vê presa, espairecendo aí sim uma superficialidade na mistura da estética carregada com pretensões dramáticas explanativas.

Muito do que torna o Coringa, no final, o vilão, é sua interpretação simbólica que só pertence a ele, que só reafirma a identidade acertada para o filme de contrapor comicamente e sobriamente a mente do protagonista com o mundo em que ele vive. São óbvias, a escada é óbvia, o arco iluminado na contraluz que delineia o andar do ator; tudo isso remete às dispersões significantes que ele cria pela sua loucura. Quando entende quem ele é, a dança, o prazer de não se segurar para a sociedade. Plenamente perigoso e talvez irresponsável. 

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A possibilidade disso vai se fazendo pela incapacidade do diretor concretizar sua dubiedade por completa. Por mais que seja divertida e sagaz comentar pela mídia, pelo tempo dos anos 80, pelo viés do conflito de classes, a iniciação vilanesca, passando pelas referências a “Taxi Driver” para remeter a uma ilusão heroica da violência contra os ricos e maus da injustiça social, ainda assim, a tentativa de aproximar os extremos verticais incita uma verdade além do contexto Gotham e do mundo Coringa. Tal verdade limita uma construção niilista pelo acaso: é preciso vilanizar para o personagem todas as pessoas que são importantes para ele para que encaixe psicologicamente que símbolo é.

Por mais que haja uma tentativa de sair dessa limitação do determinismo niilista, como a negação de cientificação para a risada como fato, uma boa explicação que implica na falta de conclusão realmente satisfatória para o ao redor que acontece em Gotham politicamente, como em que momento as cortinas se fechem para o personagem, é porque, para finalizar, a comédia é a chave para compreensão do real símbolo do Coringa.

Afinal, o humor, a comédia, a quebra de expectativa apresenta linhas tênues de subjetividade, alteridade, conflitos que permitem naturalmente o riso choro, a engasgada e o histérico possivelmente tensionarem ou “comediarem”. Por isso que na montagem os aplausos de outra cena seguinte conclui o “talk show” interno do personagem. A cada confiança nova e o aparecer do Chaplin quase a cair em “Tempos Modernos” reflete a maneira de enxergar o drástico, de criar cortinas que separem o falso e o real, a ponto de explodir.

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Logo, as anotações, a tentativa de mimetizar do personagem, de correr sem rumo, tudo faz parte da mímica da comédia; por isso, terminar esse filme é como o apresentador vivido pelo ator Robert De Niro, que sempre vai a fundo para conseguir a platéia, porém está se contando a história de um comediante que não sabe explicar a piada, que ri antes dela. Sua cartada final é não saber o fim dela, porque não importa, ela ainda pode ser engraçada para o Coringa.

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(Agradecimentos a Giulia, pessoa que se dispôs a revisar o texto)

Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

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