Democracia em Vertigem (2019) | Crítica

     O que é um documentário? Em resumo, é um filme não ficcional que é caracterizado, principalmente, pela exploração da realidade. Essa é uma definição básica para esse tipo de produção. Democracia em Vertigem traz parte da história política do brasil e da própria diretora, Petra Costa. Além de dirigir, aqui ela assume também a posição de narradora, fazendo com que tudo fique mais íntimo e próximo do que está sendo contado, afinal, sua própria história se confunde com a história política brasileira. Essa é mais uma produção cinematográfica que avançará sobre a nossa “faixa de gaza” e infelizmente boa parte do publico perderá de apreciar mais um grande projeto nosso devido a polarização social, o que é uma pena.

     Antes de tudo, é importante dizer que, apesar de mostrar seu “lado” político, a narrativa não procura suavizar ou desfazer a ordem e os fatos, aliás, os fatos são mostrados da forma que aconteceu, o que é bastante curioso diante dos dias atuais, a diretora faz questão de mostrar que a politicagem, se não for feita, não funciona na nossa política, independente de qual partido, lado ou seja lá qual for a denominação, nós vimos isso antes, vemos agora e certamente veremos no futuro, espero que não, mas o caminho é esse e aqui se encerra qualquer pensamento político sobre a obra… pois bem, vamos a ela.

     Um dos maiores desafios de produzir um documentário é trazer para a tela o que quer ser dito, a passagem de tempo precisa estar alinhada com uma boa montagem, a construção narrativa usa isso como alicerce e recebe o complemento do roteiro que precisa ser objetivo nas informações que precisam ser passadas e isso muito bem feito nas mãos de Petra Costa, ela é muito competente no aspecto técnico e sabe muito sobre cinema, basta observar seu trabalho em “Ninguém Está Olhando” e em Olmo e a Gaivota, duas ótimas produções, até no seu trabalho de estreia “Olhos de Ressaca”, a competência da cineasta já pulsa forte, Petra faz parte da academia de Hollywood e isso quer dizer muita coisa . O fato de ter sua própria história atada aos fatos torna tudo mais próximo, pois sua narração, talvez o ponto mais baixo da produção devido à forte carga emocional transparecida na sua voz, também rende bons “insights” audiovisuais, as pausas são na hora certa, a música com tons densos e melancólicos em sua maioria também é homeopaticamente dosada, a boa montagem permite abrir a câmera e trazer um plano aberto mostrando a complexidade do que está sendo narrado e em determinados momentos fecha o close em silencio, um excelente recurso, um filme narrado tem esse poder de reger a obra.

     Fazer cinema não é algo simples como muita gente pensa ou pelo menos escreve esse tipo de pensamento, fazer cinema é ir muito mais além, muito mais profundo do que se pensa, cada filme traduz uma ideia, um sentimento, um momento. Um documentário, por sua vez, torna-se mais complexo, encaixar fatos e informações numa montagem narrativa que precisa ser vista e absorvida é desafiador. Existem duas coisas importantes nesse tipo de produção, a primeira é a estética, ela permite toda construção da estrutura. A segunda é o roteiro, existe um conceito em que o documentarista não pode mais usar um roteiro, é estranho seguir essa tendência, pois é a partir de um trabalho de texto que a estética é desenhada e tudo que precisa ser mostrado ganha corpo, Democracia em Vertigem traz exatamente isso, o filme é objetivamente direcionado e sua intenções são bem claras, fazendo dele um dos melhores documentários produzidos por aqui. Como disse no início desse texto, a polarização social e a necessidade de estar certo apesar de qualquer coisa, tornará o filme menor do que é, pois ao invés de apreciar o cinema feito e dialogar sobre o tema, as pessoas escolherão o cabo de guerra, esquecendo-se do que disse no começo, esse é um filme sobre fatos e fatos são fatos.

  • Democracia em Vertigem
  • Duração: 113 minutos
  • Diretor: Petra Costa
  • Roteiro: Petra Costa
  • Documentário
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