Divino Amor (2019) | Crítica

     Gabriel Mascaro é um diretor que imprime seu ritmo e estilo nos seus longas, suas características são bastantes peculiares, seu cinema sempre é intenso e suas mensagens igualmente intensa em sua reflexão. O diretor não poupa o público em mostrar o que ele precisa dizer, se em Boi Neon a desconstrução foi um ponto alto, em Divino Amor a construção é o que soa mais forte, soa forte pelo rumo, pela ideia, pela semelhança social que vivemos.

     Divino Amor nos leva a um futuro próximo dos dias atuais, o Brasil se tornou um país onde a religião assume algumas tendências e tudo passa a ser capitaneado por ela. As festas continuam existindo, mas com uma roupagem religiosa, serviços comuns também recebem essa “repaginada” e logo de cara surge as primeiras semelhanças com os dias atuais. Ao longo do texto, várias situações cotidianas são apresentadas e é aqui que o filme começa a conversar com o espectador através dos seus questionamentos, vale reforçar que o filme não é uma afronta a seja lá o que for, a trama é um cinema de qualidade que nos traz situações corriqueiras no nosso cotidiano, apresentando comportamentos e postura da nossa sociedade, o diretor não quer afirmar se isso ou aquilo é certo ou errado, ele indaga, através da sua obra, se o que você julga certo é de fato o melhor e, principalmente, se é melhor para todos, vou mais além, o questionamento maior é se você realmente está preparado, esse é o ponto do roteiro e isso é algo que não se pode deixar passar.

     No centro da trama temos Dira Paes interpretando Joana, uma mulher que usa seu cargo em um cartório para evitar que casais se separem e acredita que a burocracia e sua cansativa exigência é a forma de fazer isso acontecer. Joana usa sua posição para convencer pessoas a desistirem da ideia e as leva para uma espécie de grupo ou seita (no seu sentido informal), esse lugar se chama Divino Amor e lá os casais fazem estudo bíblico e se relacionam entre si como uma forma ajudar uns aos outros a resgatar o amor, Júlio Machado interpreta Danilo o esposo de Joana, juntos eles formam um casal perfeito para os padrões da sociedade. O elenco de apoio ainda tem bons nomes, Emilio de Mello, Teca Pereira e Thalita Carauta são alguns desses bons nomes, mas é em Dira Paes que o diretor joga toda sua perspicácia. A atriz rouba a cena diante dos seus colegas, em alguns momentos ela os faz parecer iniciantes, sua atuação está entre as melhores de toda sua carreira, das cenas mais simples até as mais quentes a atriz parece centrada, serena, firme nas suas falas, no olhar, nas expressões, na construção daquela figura feminina, Dira sabe fazer cinema.

     Como é de costume, a câmera de Gabriel Mascaro não apenas mostra o que o diretor quer filma, ela puxa o espectador pelo braço e convida-o a participar daquilo, fecha quando é necessário, abre quando é necessário, circula pelo ambiente explicando que o que está acontecendo em cena é completado por aqui que está em volta. A nudez se faz presente mais uma vez, dessa vez menos impactante do que em Boi Neon, por exemplo, mas ainda assim incisiva pelo contexto apresentado, o importante é que em nenhum momento os atores se sentiram incomodados com isso, geralmente esse tipo de cena tem alguns cortes e na montagem isso não pareceu ser um problema. Divino Amor é um filme que precisa ser visto e discutido, pois em 2017 a produção rodou um texto que foi criado anos antes e trouxe situações extremamente atuais, inclusive em uma frase, ao longo do terceiro ato, o jovem narrador, que tantos pedem e alertam, mas ao que parece muitos não estão prontos, inclusive os pseudo “sabedores”, diz exatamente o que foi dito há alguns dias, isso soa chocante e reflexivo. Divino Amor é um filme que faz a gente refletir sobre a polarização em certos temas, além de ser um cinema belíssimo.

  • Divino Amor
  • Duração: 101 minuto
  • Diretor: Gabriel Mascaro
  • Roteiro: Gabriel Mascaro, Rachel Ellis e Lucas Paraizo
  • Elenco: Dira Paes, Júlio Machado, Teca Pereira, Emilio de Melo, Mariana Nunes, Thalita Carauta
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