outubro 22, 2020

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (2020) | Crítica

Entre as três leis criadas pelo escritor Arthur C. Clarke, a mais reconhecida é justamente a terceira, que diz: “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Pois bem, acredito que os roteiristas Keith Bunin, Jason Headley e Dan Scanlon (que assina a direção) tiveram essa lei em mente enquanto elaboravam o argumento de Onward (que me recuso a usar o patético título original), já que a trama apresenta uma ideia extremamente inteligente e autoral, posicionando figuras místicas da fantasia em uma realidade na qual descobrem os adventos tecnológicos que possuímos nos dias atuais e como tais seres lidariam com as evoluções digitais do seu mundo. Além de ousada no sentido conceitual, o projeto mais recente da Pixar abre um verdadeiro leque de possibilidades temáticas a respeito da maneira que lidamos com os avanços do mundo no aspecto tecnológico. 

E esse nem é o foco temático da produção: contando a história de dois irmãos que, ao descobrirem uma maneira de trazer o seu falecido pai de volta por um único dia, eles conjuram a magia de maneira incorreta (trazendo apenas uma parte de volta) e acabam necessitando entrar em uma missão na qual necessitam terminar o processo que iniciaram. Logicamente, o roteiro de Bunin, Headley e Scanlon não esconde seu tema sobre a importância da paternidade e como ela afeta – direta ou indiretamente – o nosso crescimento.

Todo o arco dramático de Ian (Tom Holland) está alicerçado a falta que sente de uma presença paterna afetiva, sendo que seu padrasto, embora simpático, não se encaixa nesse estilo. O roteiro estuda com cuidado o efeito dos erros do passado na construção pessoal de cada um, além de mostrar que a figura do “pai” não é necessariamente atrelado ao seu genitor, concedendo uma tocante abordagem dramática sobre a irmandade, presente na relação que nutre com seu irmão, Barley (Chris Pratt). 

A ótima dinâmica entre Ian e Barley que, dublados por Tom Holland e Chris Pratt, criam uma interação divertida e emocionante em sua jornada, gerando tanto momentos comicamente eficientes como segmentos tocantes onde acompanhamos a construção entre o vínculo que aparentava ter se esfriado, já que ambos viviam em seus mundos. Dublado por Holland com uma introspectividade no tom vocálico, Ian parece preso dentro de si, com notáveis dificuldades em se comunicar, tímido e desamparado pela falta de uma figura paterna clara, sua personalidade vai se modificando, aprendendo lições importantes no desfecho de sua jornada – íntima, não a física.

Já Barley é o completo oposto: sempre agitado, sorridente e empolgado, se mostra um admirador dos jogos de tabuleiro e os vêem como uma parte da história antiga que morreu com o advento da tecnologia – uma conexão sutil com a realidade atual na qual vivemos – , e, claro, Pratt injeta muito carisma aos modos do personagem, transformando-o em uma espécie de mentor na caminhada do seu irmão. 

Tematicamente, é o projeto mais amplo do estúdio, indo da ausência e importância da paternidade até o elemento da tecnologia no compasso narrativo: o roteiro claramente é um sermão cuidadoso sobre a importância cultural que vem sendo obliterada pelo gradativo avanço da tecnologia, fazendo com que a juventude perca mais tempo imersa nos dispositivos que possuem do que em outros campos culturais – por isso é interessante ver, no encerramento, um dos personagens oferecendo uma aula de história, algo que parece essencial dentro daquele universo. E, claro, há a relação que estabeleci no parágrafo inicial da descoberta tecnológica daquele mundo ser encarado como algo mágico, que reflete a terceira lei de Arthur C. Clarke em um paralelo muito esperto do roteiro.

Em aspectos visuais, basicamente temos os acertos costumeiros do estúdio sendo repetidos: a produção de arte é atenciosa com relação ao detalhismo que emprega na construção do mundo mágico e das criaturas que povoam, indo de um centauro e um ciclope como policiais até criaturas místicas gerenciando restaurantes, casas em formatos de cogumelos e uma diversidade de seres, indo de dragões como animais domésticos até pegasus como vira-latas. Já a animação mostra fluidez nos movimentos e um detalhismo admirável nas formas físicas e nas interações dentro do digital, soando completamente natural. 

Mesmo que estruturalmente familiar (a construção de road-movie e elementos de buddy movie registram presença no desenrolar da história), Onward é o projeto mais tematicamente complexo da Pixar em muito tempo, indo de comentários e alegorias sociais até a arcos dramáticos de paternidade, todos dentro de uma aventura fluída, acessível, jocosa, admirável e emocionante, ao melhor estilo do estúdio.

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