outubro 22, 2020

Dragged Across Concrete (2018) | Crítica

Em certo momento de Dragged Across Concrete, um dos personagens menciona que, seu sonho é se tornar programador de jogos e termina tal afirmação dizendo que deseja “criar mundos que são diferentes do que vemos lá fora“. De certo modo, tal diálogo reflete a dureza de um mundo consumido por um forte senso de violência e preconceito. Um universo niilista onde a esperança de dias melhores é apenas uma visão utópica. Uma realidade que o diretor S. Craig Zahler retrata através de uma relação menos omitida e mais explícita, servindo como concepção linguística de um mundo tal como funcionando para criticar os costumes repulsivos da “era Trump”.

A cena de abertura já incita perfeitamente tal aspecto de análise sociopolítica: vemos o policial veterano Brett Ridgeman (Mel Gibson) e seu parceiro, Anthony (Vince Vaughn) na preparação de uma abordagem policial – que, logo após, fará com que Brett e Anthony sejam suspensos de seu serviço – e, através da maneira como Zahler decorre o evento na narrativa, conhecemos a dinâmica da dupla e, principalmente, o olhar mais preconceituoso de Brett, que vai do tratamento de uma determinada personagem até a cena seguinte onde vemos os dois em um restaurante em que Ridgeman indaga, dentro de um tom claramente homofóbico, se era uma mulher ou homem que cantava a música do ambiente. Através de como compõe a figura de Brett, Zahler e Gibson procuram comentar sobre a mentalidade retrógrada de seu protagonista e incitar em um paralelo mais sutil, o pensamento discriminatório daqueles que seguem as ideologias do atual presidente americano.

Para isso, nada mais adequado do que a maneira como Zahler encena os eventos de sua narrativa: ao invés de enfocar a violência e os atos agressivos de modo omissor, oculto, o diretor procura um distanciamento completo que reforça o impacto do momento, sempre mantendo sua câmera afastada o possível para pegar o ocorrido de modo amplo e para capturar o choque do público. Nunca é explícito de uma maneira sádica e nem escondido, mas filmado de forma seca, crua, direta e pouco estilizada ou glorificada. Um bom exemplo é um instante dentro de um armazém que é executado de modo objetivo, sem a interferência de elementos artificiais para potencializar o crime, usando apenas sons e elementos físicos presentes no ambiente que, unidos ao plano aberto, criam um desconforto ainda maior.

Todo o segmento dentro do banco é interessante nessa composição do plano mais distante e, além disso, ela cria uma certa essência irônica tipicamente Coeniana que acaba por justificar bem a presença de Jennifer Carpenter dentro da narrativa. Zahler estabelece o tom frio e pragmático do seu universo através da sua unidade estilística: os planos abertos, além de incitarem um distanciamento que reflete essa composição crua da decupagem, transmitem um completo esvaziamento emocional interno de seus personagens através de como ele é empregado dentro de espaços internos, capturando os espaços vazios dos ambientes. Há uma progressão estática na maneira como o diretor executa poucos deslocamentos de câmera, mantendo geralmente o seu plano imóvel.

Já a montagem exerce uma dinâmica paciente que estende seus planos a tal modo, apenas para intensificar o impacto que eles causam e, quando precisa cortar, usa de cortes secos, objetivos, em prol de manter essa construção mais crua e realista da narrativa. Outro destaque é como Zahler enfoca as cenas noturnas, imprimindo uma atmosfera vibrante que remete ao cinema de Michael Mann (Colateral, em especial), onde a iluminação vem dos postes e as luzes do edifício. Ainda na utilização da luz, é curioso como há um contraste entre luz e sombra dentro dos cenários internos, propondo novamente essa atmosfera palpável que incita durante sua projeção inteira.

Dentro dessa abordagem, Mel Gibson concebe Brett com uma frieza que reflete o modo na qual teve que se adaptar ao mundo, mantendo uma postura corporal distante e uma expressividade facial inexistente que reforça o seu pragmatismo, intensificado pela sua mania característica de calcular as situações através da porcentagem de probabilidade a respeito do que pode ocorrer. Vince Vaughn também se encontra dentro de tal chave, ainda que expresse um senso de “empatia” maior que a do seu parceiro. Dito isso, Tory Kittles é o mais “humano” dos personagens em cena, já que sua preocupação genuína pelo irmão e mãe e seu ato nobre com a família de Brett no ato-final inserem traços de uma força empática, mas que jamais anula a personalidade padronizadamente distante que compõe Henry.

Contudo, pouco existe de humanidade ou emotividade empática no universo criado por S. Craig Zahler aqui em Dragged Across Concrete. E isso pode ser refletido por uma cena em específico, quando um jovem de bicicleta passa por uma jovem e retorna a tal garota, despejando um refrigerante na moça enquanto ri ao lado de seus colegas. Um momento pontual e que, da maneira na qual Zahler registra, expõe a crueldade e frieza de um mundo onde não se há qualquer representação de esperança para aqueles que habitam nele. Um mundo na qual o jovem que almeja ser programador de games deseja evitar criando realidades que diferem daquela dolorosa na qual precisa viver.

Avaliação: 5 de 5.
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