qua. abr 1st, 2020
Nos últimos dois anos fui me tornando um apreciador de projetos semelhantes a Emma, com narrativas ambientadas no século XIX, mostrando figuras que, em boa parte da projeção, conversam e enfrentam dramas em uma escala pouco alarmante. De romances impactantes (Orgulho e Preconceito), tramas focadas em família (Adoráveis Mulheres) e projetos mais arriscados em sua fórmula (A Favorita), aqueles que mais se destacaram são as adaptações dos livros da escritora inglesa Jane Austen, especialmente por tratar a figura da mulher não como um mero objeto de admiração e interesse dos personagens masculinos, e sim como personagens fortes, com desejos e conflitos próprios. Orgulho e Preconceito de Joe Wright continua sendo a mais interessante, seguida de Razão e Sensibilidade do Ang Lee e a mais atual, Amor e Amizade do Whit Stillman, que possui um tom satírico cativante. E, claramente, Emma não foge a regra. 
 
Escrito por Eleanor Catton, a história não apresenta nada de estupendo ou revolucionário em sua premissa, que trata de Emma (Anya Taylor-Joy), uma espécie de “cupido”, que reúne casais, mas constantemente evita relacionamentos. Um dia, a jovem decide ajudar Harriet (Mia Goth) a encontrar seu par, criando um laço de amizade fortíssimo entre as personagens. E no centro dessa base, temos bailes, declarações de amor, jantares elegantes e passeios por bosques e jardins em longas – e atraentes – conversas. O diálogo é a estrela de Emma, sendo a projeção estruturada por blocos cobertos de interações diretas, elegantes e até disfarçadamente ofensivas que o texto constrói bem, indo da composição dos espaços (em uma mise-en-scène que faz questão de esclarecer a geografia dos locais  para seu espectador) até a verborragia ágil e, em muitas vezes, contendo um modo de expressão pouco usado na língua inglesa contemporânea, o que obriga seus atores a se esforçarem para entregarem as falas com naturalidade, tal como as demais adaptações dos romances de Austen. 
 
E, nesse aspecto, seus intérpretes conseguem tal feito com perfeição: Anya Taylor-Joy, uma das maiores atrizes dessa geração, encena a persona de Emma com uma mistura entre o mais claro esnobismo e o mais puro desdém que fica nítido em seus olhares e em sua fisicalidade, demonstrando uma segurança que oblitera um pouco de sua doçura, na qual deixa escapar em alguns momentos – e é admirável ver que, ao sua amiga conseguir algum par em um instante específico da projeção, sua reação é um sorriso genuinamente contente por Harriet. E por falar nela, é ótimo ver como Mia Goth consegue encontrar um equilíbrio entre uma abordagem dramática nítida e sua constante veia cômica que circunda sua personagem, jamais deixando cair em uma caricatura. Mas é a dinâmica das duas em cena que reforça o arco de amizade entre Emma e Harriet, nunca indo a um ponto direto, sempre optando pela sutileza de cenas triviais onde ambas conversam e caminham. (e um válido destaque para o elenco masculino, especialmente Johnny Flynn, Callum Turner e Bill Nighy, que se sobressaí pela sua comicidade aliado a uma imagem acolhedora). 
 
Em aspectos técnicos, o projeto é extremamente eficiente, embora sem muitas surpresas: a cinematografia de Christopher Blauvelt (First Cow) utiliza adereços do ambiente como janelas e velas acessas para emular uma iluminação natural, além de um belíssimo emprego de tons azulados em breves momentos noturnos, já a trilha sonora é precisa na inserção de música clássica a base de violino e piano. A produção de arte é mais exuberante no emprego das cores, além de detalhista na composição dos espaços, objetos cênicos e, claro, das vestimentas, indo dos vestidos mais chamativos até os mais sutis. A direção de Autumn de Wilde (em seu primeiro longa-metragem) se demonstra controlada, quase nunca chamando a atenção, mas executando o básico de maneira competente, desde movimentos laterais e aproximações pacientes que registram as conversas até os enquadramentos mais amplos que servem para situar o espectador nas locações, sejam elas internas ou externas – e essa última é a que concebe os planos mais deslumbrantes da projeção. 
 
Sabendo utilizar o humor – seja físico ou verbal – com muito cuidado para alcançar o riso sem ter que forçá-lo na plateia, Emma é visualmente chamativo, mesmo que simplório, não tem uma trama coberta de complexidades ou totalmente original e sofre com problemas rítmicos durante seus 119 minutos, mas é bem sucedido na construção das relações entre seus personagens, é movido completamente a interações cativantes e comicamente funcionais, além de ter um elenco empenhado em entregar o melhor de suas performances. 
 
O resultado disso tudo? O filme mais interessante e divertido de 2020 até aqui.
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