outubro 25, 2020

Enola Holmes (2020) | Crítica

A ideia que circunda Enola Holmes, a mais nova aposta do catálogo Netflix, é consideravelmente interessante ao possibilitar uma abordagem diferenciada ao universo do detetive criado por Arthur Conan Doyle, mas focando em uma outra figura de sua família, não existente no cânone do mundo do detetive Holmes, mas que acaba compartilhando certas semelhanças com outra figura literária, a de Nancy Drew, criada por Edward Stratemeyer em 1930. Contudo, o que mais importa no resultado final de uma produção cinematográfica é a forma como sua história será transmitida no audiovisual e não necessariamente ela, de modo isolado. Vai ser a maneira que o diretor usará a linguagem para realizar tudo aquilo que o texto pede e até se dar a liberdade de ir além. A relação particular com os elementos da linguagem para construir um universo particular de preceitos próprios. Uma pena que tudo isso parece completamente distante do resultado entregue pela produção da Netflix que se perde em suas diversas ideias, tanto narrativas como estilísticas.

O diretor, Harry Bradbeer, jamais consegue propor uma unidade que valorize e mantenha uma ordem clara em todos os elementos que tenta administrar, acreditando no efeito isolado de cada um deles, mas nunca em uma união desses aspectos. A montagem ágil e as diversas inserções visuais que contextualizam dramaticamente muito dos núcleos emocionais acabam tirando o ligamento emotivo entre o público com os dramas de seus personagens, apressando a dinâmica de mãe e filha a flashbacks oportunos que pouco ajudam no estabelecimento de uma fluidez no decorrer de momentos mais “emocionantes”. A quebra da quarta parede também é problemática, já que pouco funciona dentro da narrativa como um todo, garantindo um efeito aleatório funcional do que uma função mais clara ou que vá além do mero “a personagem convidando o espectador a participar da história“.

Todo o foco narrativo é problematicamente disperso, caminhando por vários caminhos, mas nunca em uma ordem que controle eles. Existe uma premissa envolvendo o sumiço da mãe de Enola que se mistura desordenadamente com uma mensagem sobre emancipação feminina e com tons de empoderamento que exercem bem uma função isolada, mas acabam sendo exploradas de maneira superficial em seu contexto que possibilita uma exploração mais virtuosa dessa premissa. Bradbeer fica no meio-termo entre uma aventura investigativa infanto-juvenil, um drama maternal, um coming-of-age sobre amadurecimento ou uma obra socialmente relevante sobre a força feminina em exercer seus direitos. Todas elas acabam possuindo seus momentos de destaque, mas que geram um impacto mais solitário, enquanto como uma unidade, soam jogados de qualquer maneira dentro da narrativa, perdendo qualquer valor que poderia ter como experiência geral.

Enola Holmes, no final das contas, é uma produção que nunca explora devidamente os potenciais de sua narrativa, operando sempre de um modo isolado e entregando momentos funcionais dentro dessa fórmula, mas sem jamais oferecer uma unidade que ligue cada uma das intenções narrativas e visuais de sua premissa em algo orgânico. É um filme que atira para todas as direções e que, pontualmente, acerta algo interessante (Millie Bobby Brown carrega a obra com um carisma magnético), mas nunca integra esse acerto em um todo. Acaba sendo uma aventura pouco expressiva, passageira e sem um controle que a torne uma produção mais funcional no impacto como um todo.

Avaliação: 2 de 5.
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