outubro 27, 2020

Estranhos Em Casa (2019) | Crítica

     Há muito o cinema francês é sinônimo de qualidade, desde a década de 30/40 a França exporta grandes talentos em todos os campos do áudio visual, seja na frente ou por trás das câmeras, é um terreno muito bom de ser visitado. Desta vez eu estava buscando algo para assistir e me deparei com Estranhos Em Casa, produção francesa escrita e dirigida por Olivier Abbou, que ainda busca seu lugar no cinema mundial. Sem saber muito e como deve ser na maioria das vezes, me aventurei no estiloso e elegante idioma e me joguei as cegas na obra, o que com certeza impulsionou a experiência, lendo apenas a sinopse oficial do filme. A ideia é basicamente a seguinte: uma família sai de férias por um longo tempo e deixa a babá do seu filho tomando conta da casa, ao retornarem o casal se apossou da residência e agora eles não têm para onde ir. É uma ideia louca e beira o absurdo, mas ao mesmo tempo é curiosa pelas possibilidades e pelas curiosidades acerca do que é proposto.

     Antes de tudo é preciso citar dois chamarizes para o filme: os casos reais e as lembranças recentes de um filme de sucesso. Existem vários casos ao redor do mundo que pessoas moram nas casas dos outros sem serem percebidos, algumas histórias acabam bem, outras nem tanto, mas acreditem, esses casos existem e não são poucos. Imagine você acordar e se deparar com alguém na sua mesa de jantar? Ou então uma pessoa que dá festas quando você sai? Que mora no sótão? No porão? Que faxina a sua casa todas as semanas sem que você perceba? Todas essas perguntas têm respostas e em comum tem a sensação de pavor. Pois bem, aqui a sensação é a mesma e o fatídico “baseados em fatos reais” aguça o imaginário. Quando o incidente acontece, ainda no início do primeiro ato, é assustador você pensar nisso e a forma que o diretor transita entre os personagens e a situação te prende logo de cara. A família que é vítima tem na figura do seu patriarca o ser pacato e é através dele que Abbou evolui sua trama. Paul (Adama Niane) é o responsável pela costura narrativa proposta pelo diretor. Inicialmente o filme apresenta um drama, depois se envereda para um suspense e finaliza com um terror trash de alta violência. Tudo bem dosado!

     Vários filmes já apresentaram esse tipo de estrutura, mas a forma que é desenvolvida é que torna Estranhos Em Casa especial. O gênero pelo gênero não propõe muitas novidades, mas o desenvolvimento e a mudança na personalidade do seu protagonista são os diferenciais, é através dele que as transições vão acontecendo e ora você torce a favor, ora você torce contra as suas decisões. Colocar o espectador no lugar do personagem é um dos melhores acertos de qualquer filme, causa envolvimento, e acreditem, várias vezes eu chequei a porta da minha casa. A partir daí você já começa a imaginar quais decisões seriam tomadas, já que a causa é apenas o inicio dos acontecimentos e vários questionamentos surgem ao longo da narrativa, como citei, Paul é pacato e tranquilo, porém toda situação criada o força a mudar suas escolhas, muito disso se deve pelos conflitos pessoais e profissionais que vão surgindo. A metáfora usada no final traduz o sentimento para com a sociedade, é uma sacada genial já que cada personagem importante que é apresentado tem suas atitudes falhas perante o próximo.

    O filme se mantém bem linear até o seu ultimo ato, apostar no excesso da violência deu ao diretor asas que o fizeram voar mais do que o necessário, as cenas são bem produzidas no aspecto físico e visual, mas a extensão tirou o alto “Q” de racionalidade e realismo, uma cena especifica afasta todo esse sentimento que foi construído cuidadosamente nos atos anteriores, faltou o “timing” do corte. Com certeza a adição da última cena teve o propósito de fechar de forma estilosa e viril, para quem gosta de cores e seus significados, o fim conversa sobre isso, sem necessidade também, mas conversa. Estranhos Em Casa é uma grata surpresa que está disponível no catálogo da Netflix, aprecie e esteja preparado(a) um pouco para o ato final.

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