setembro 29, 2020

Neon Genesis Evangelion – A busca por identidade | Crítica

Neon Genesis Evangelion foi um anime lançado em 1995, criado por Hideaki Anno, que até hoje deixa seus espectadores encabulado. Com apenas 26 episódios, Evangelion é um marco não só no mundo dos animes como também na cultura pop. Sua premissa é simples: adolescentes são convocados a montar robôs gigantes (conhecidos como Evangelions) para derrotar monstros (chamados de anjos). Esse simples plot já o classifica como um anime do gênero mecha, porém Evangelion oferece uma subversão do que se espera de animes do tipo. Lutas entre robôs e monstros gigantes é a ponta de um ice berg que envolve uma complexa reflexão social, filosófica e religiosa e ainda um profundo estudo de personagem.

Evangelion é um anime solitário e pessimista, não procura terminar o episódio com a sensação de “dever cumprido”, mas com o sentimento de que existe algo muito errado acontecendo. Isso porque Evangelion busca explorar uma reflexão psicológica sobre a construção de uma identidade e uma busca pelo eu individual. Ao longo da primeira parte do anime, vemos o estabelecimento de uma relação entre os protagonistas Shinji, Asuka, Rei e Misato. A medida que os conflitos contra os anjos avançam, cada um descobre sua identidade a partir de sua utilidade na sociedade: pilotar um Evangelion. É assim que, principalmente, Asuka e Shinji encontram motivação para sua existência; enquanto ambos se entendem como pilotos, está “tudo bem”.

Entretanto, Shinji é tudo o que não se espera de um herói. Além dele sentir muito medo, ele ainda não tem motivos para ser um piloto. Shinji não questiona, apenas obedece; se desculpa por tudo, pois lhe convém mais a submissão do que o conflito. E ainda é um garoto depressivo, socialmente distante por não conseguir se conectar com as pessoas devido uma família desestruturada onde sua mãe faleceu quando o mesmo era muito jovem e seu pai só o usa como um instrumento. Asuka, por outro lado, é explosiva, falante, decidida, corajosa e briguenta. Enquanto Shinji renega sua posição como piloto, apesar de ser sua única identidade, Asuka sente-se orgulhosa de ser a melhor piloto.

O verdadeiro conflito começa quando essa identidade é perdida e inicia-se uma viagem psicodélica pela psique das personagens, explorando seus traumas passados. A linguagem visual de Evangelion explora metáforas para simbolizar a construção de um eu individual e o desapego do colo maternal durante uma das fases mais problemáticos do ser humano: a adolescência. Enfrentar o mundo é uma tarefa mais aterrorizante do que se aparenta e, em Evangelion, o medo do outro é o que motiva o crescimento cada vez maior de uma consciência coletiva, onde não mais seremos eu e você, mas sim “nós”. E se em um universo a sociedade ideal é o coletivismo, o individualismo é um ato de rebeldia. Portanto, Shinji não mais se vê na luta contra monstros gigantes, mas numa luta contra ele mesmo à procura de sua identidade.

É por Evangelion contar sua história por metáforas e deixar grande parte da interpretação do público que o torna um anime para gostos bem específicos. Evangelion é adulto, violento, grotesco e usa uma história boba para trazer à tona um conteúdo complexo. Além de uma viagem pela psique, ainda nos é oferecido uma reflexão e crítica a sociedade japonesa. A distinta representação do feminino (maternal) e do masculino (tóxico), a crítica ao coletivismo exacerbado e a identidade a partir de uma função social reflete o tradicionalismo japonês.

Mas são nos dois episódios finais que Hideaki Anno se supera e convida o espectador para uma viagem dentro da cabeça dos protagonistas. A falta de dinheiro para a conclusão de Evangelion presenteou o público com um dos finais mais inventivos da cultura pop. A metalinguagem viaja por entre os rascunhos do que era pra ser o final de Evangelion, trazendo as reflexões de Shinji sobre sua realidade e sua liberdade de escolha entre aceitar ceder ou amar a si mesmo, nos dando uma visão otimista para o futuro de Shinji.

Em suma, Evangelion é uma obra grandiosa e intimista. Muito de sua mensagem pode não ser absorvida de primeira, mas certamente Hideaki Anno o fez para causar justamente o debate e a reflexão sobre sua temática. Ele é um estudo sobre a humanidade, a adolescência, a relação homem e mulher, o fanatismo religioso e a depressão.

Avaliação: 5 de 5.
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