Ex-Pajé (Ex Shaman, 2018) | Crítica

Desde a colonização do Brasil os índios, nossos ancestrais, sofreram com a imposição cultural. Suas terras foram exploradas, suas riquezas roubadas, sua religião foi demonizada e conforme foram impedidos de exercerem de suas próprias tradições o número de atividades indígenas foram morrendo. Olhando para o país nos dias de hoje vemos o resultado da nossa história e percebemos que a cultura de exploração em cima da identidade indígena é tão forte que por vezes é vista de forma comum, como se eles precisassem de alguém para ajuda-los a deixarem de ser uma sociedade “primitiva”. No primeiro frame do filme “Ex-Pajé” nos deparamos com a seguinte frase do antropólogo Pierre Clastres: “O etnocídio não é a destruição física dos homens, mas do seu modo de vida e pensamento”, logo vemos imagens de arquivo da tribo Paiper Suruí no ano de 1969 e depois a contrastante versão de 2017, onde os índios estão vestidos como homem branco e também foram catequizados. Iniciamos o filme presenciando a morte de uma cultura e percebemos o quanto isso é uma questão atual.

O filme conta a história de Perpera Suruí que era um pajé muito poderoso até sua tribo sofrer a invasão de um grupo evangélico, que traz para aos índios repressão religiosa. Perpera acaba perdendo seu posto de líder espiritual porque seus companheiros evangelizados começam a crer que a pajelança é coisa do demônio e para não sofrer represália por eles, Perpera submeteu-se ao pastor – comandante da imposição religiosa que caiu sobre seu povo – se tornando o faxineiro da igreja que eles abriram perto de sua casa, um ato de humilhação diante todo o respeito que era representado à sua persona. É um documentário com estética ficcional e foi dirigido por Luiz Bolognesi, o mesmo de diretor de Uma História de Amor e Fúria e amplamente conhecido pelos seus trabalhos de roteiro (Bicho de Sete Cabeças e Como Nossos Pais).

A importância deste filme está puramente traduzida nos contrastes que ele mostra. Se por um lado os personagens se vestem e comem como homem branco, por outro, eles brigam contra o desmatamento, ainda que pelo uso de internet e rifles. Passamos boa parte da experiência fílmica sendo expostos nessas e em outras contradições em situações cotidianas, mas conforme somos puxados para a história vemos que Perpera tem algo maior a nos dizer. Ainda que o protagonista vista terno enquanto é obrigado a receber seus iguais como fiéis de uma religião que ele desacredita, o seu olhar perdido no horizonte e sua atenção ao som da floresta mostra que ele continua conectado à sua própria tradição. Tudo o que ele precisava era de uma boa desculpa para voltar aos seus hábitos e isso lhe é concedido quando uma emergência ocorre.

Bolognesi admitiu que interferiu minimamente na narrativa do filme ao não escrever um roteiro e respeitar os horários dos Paiper Suruí em sua produção. O realizador apenas ouviu os relatos vividos pelos próprios personagens e os seguiu junto com uma equipe bem reduzida se adaptando ao tempo de cada um dos retratados enquanto captava suas mensagens faladas ou apenas sentidas.  Mesmo o autor defendendo a mínima interferência na construção narrativa, o filme é finalizado pela estética dele, isso ganha clareza nas escolhas de cortes e no uso do som.  Consequentemente trás ao espectador na experiência fílmica uma sensação de estar assistindo um filme de ficção e não de fato um documentário composto por não atores e com histórias sendo registradas em tempo real.

É inegável a discussão que o filme trás para a sociedade moderna e muito provavelmente pela escolha de linguagem duplicada que com certeza trás à história um ar místico e simbólico. O presente que recebemos após a experiência assistida é a noção de que por mais que a intolerância tenha devastado grande parte dessa cultura e por mais armas que usem para destruí-la, ela continua viva. Então o filme que começa nos deixando acreditar na morte de uma cultura, acaba nos deixando um grau de esperança. Uma vez pajé, sempre pajé.

  • Duração: 81min
  • Direção: Luiz Bolognesi
  • Roteiro: Luiz Bolognesi
  • Elenco:  Perpera Suruí, Kadena Cinta Larga, Ubiratan Suruí, Agamenon Suruí

8.5

Nota

8.5/10

Amanda Veiratto

Me chamo de artista, porque a arte - para mim - molda encontros com a alma e se sobressai em busca da perfeição. Se irei encontrá-la? Não sei dizer, mas o desafio está aceito. Residente do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro/RJ, cursa Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense, é palhaça-aprendiz na Oficina "A Verdade do Palhaço" Palhaçaria com Técnicas Teatrais, estuda teatro na Oficina "Os Dionísios Cia de Teatro", Cineasta independente, Fotógrafa na empresa Mandyton Fotografias, Diretora de Comunicação na ONG Novos Líderes Empreendedores que atua diretamente com jovens das favelas do Rio de Janeiro, poetisa nas horas vagas e agora está tentando ser crítica de cinema.

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