novembro 30, 2020

Ex-Pajé (Ex Shaman, 2018) | Crítica

ARQUIVO 24/04/2018 CADERNO2 / CADERNO 2 / C2 / USO EDITORIAL RESTRITO / CINEMA - cena do filme Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi CRÉDITO: Buriti Filmes

Desde a colonização do Brasil os índios, nossos ancestrais, sofreram com a imposição cultural. Suas terras foram exploradas, suas riquezas roubadas, sua religião foi demonizada e conforme foram impedidos de exercerem de suas próprias tradições o número de atividades indígenas foram morrendo. Olhando para o país nos dias de hoje vemos o resultado da nossa história e percebemos que a cultura de exploração em cima da identidade indígena é tão forte que por vezes é vista de forma comum, como se eles precisassem de alguém para ajuda-los a deixarem de ser uma sociedade “primitiva”. No primeiro frame do filme “Ex-Pajé” nos deparamos com a seguinte frase do antropólogo Pierre Clastres: “O etnocídio não é a destruição física dos homens, mas do seu modo de vida e pensamento”, logo vemos imagens de arquivo da tribo Paiper Suruí no ano de 1969 e depois a contrastante versão de 2017, onde os índios estão vestidos como homem branco e também foram catequizados. Iniciamos o filme presenciando a morte de uma cultura e percebemos o quanto isso é uma questão atual.

O filme conta a história de Perpera Suruí que era um pajé muito poderoso até sua tribo sofrer a invasão de um grupo evangélico, que traz para aos índios repressão religiosa. Perpera acaba perdendo seu posto de líder espiritual porque seus companheiros evangelizados começam a crer que a pajelança é coisa do demônio e para não sofrer represália por eles, Perpera submeteu-se ao pastor – comandante da imposição religiosa que caiu sobre seu povo – se tornando o faxineiro da igreja que eles abriram perto de sua casa, um ato de humilhação diante todo o respeito que era representado à sua persona. É um documentário com estética ficcional e foi dirigido por Luiz Bolognesi, o mesmo de diretor de Uma História de Amor e Fúria e amplamente conhecido pelos seus trabalhos de roteiro (Bicho de Sete Cabeças e Como Nossos Pais).

A importância deste filme está puramente traduzida nos contrastes que ele mostra. Se por um lado os personagens se vestem e comem como homem branco, por outro, eles brigam contra o desmatamento, ainda que pelo uso de internet e rifles. Passamos boa parte da experiência fílmica sendo expostos nessas e em outras contradições em situações cotidianas, mas conforme somos puxados para a história vemos que Perpera tem algo maior a nos dizer. Ainda que o protagonista vista terno enquanto é obrigado a receber seus iguais como fiéis de uma religião que ele desacredita, o seu olhar perdido no horizonte e sua atenção ao som da floresta mostra que ele continua conectado à sua própria tradição. Tudo o que ele precisava era de uma boa desculpa para voltar aos seus hábitos e isso lhe é concedido quando uma emergência ocorre.

Bolognesi admitiu que interferiu minimamente na narrativa do filme ao não escrever um roteiro e respeitar os horários dos Paiper Suruí em sua produção. O realizador apenas ouviu os relatos vividos pelos próprios personagens e os seguiu junto com uma equipe bem reduzida se adaptando ao tempo de cada um dos retratados enquanto captava suas mensagens faladas ou apenas sentidas.  Mesmo o autor defendendo a mínima interferência na construção narrativa, o filme é finalizado pela estética dele, isso ganha clareza nas escolhas de cortes e no uso do som.  Consequentemente trás ao espectador na experiência fílmica uma sensação de estar assistindo um filme de ficção e não de fato um documentário composto por não atores e com histórias sendo registradas em tempo real.

É inegável a discussão que o filme trás para a sociedade moderna e muito provavelmente pela escolha de linguagem duplicada que com certeza trás à história um ar místico e simbólico. O presente que recebemos após a experiência assistida é a noção de que por mais que a intolerância tenha devastado grande parte dessa cultura e por mais armas que usem para destruí-la, ela continua viva. Então o filme que começa nos deixando acreditar na morte de uma cultura, acaba nos deixando um grau de esperança. Uma vez pajé, sempre pajé.

  • Duração: 81min
  • Direção: Luiz Bolognesi
  • Roteiro: Luiz Bolognesi
  • Elenco:  Perpera Suruí, Kadena Cinta Larga, Ubiratan Suruí, Agamenon Suruí

8.5

Nota

8.5/10
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