Ficção especulativa erótica e a atração pelo bizarro

A série Altered Carbon (2018 – ), baseado em um livro de mesmo nome, estreou na Netflix em Fevereiro causando alvoroço por sua premissa e estética cyberpunk. Mas ao assistir a série, o que realmente choca são as novas formas de ver o sexo, se tornando um ícone da ficção especulativa erótica e além disso, uma demonstração da nossa atração pelo bizarro.

A prostituição combina perfeitamente com os efeitos de cor neon recorrentes no cyberpunk, assim como a atmosfera de thriller de ação. A série conta com algo mais próximo do neonoir, e toda a violência agrega para falar de sexo e erotismo. As prostitutas têm uma maior função de “serventia”, considerando que elas podem trocar de capas. Já o masoquismo e a dominação são levadas às últimas consequências, quando o submisso chega de fato a morrer. Isso lembra muito que vemos em Westworld (2016 – ). Mesmo que os “prazeres violentos tenham fim violentos”, ainda assim, a morte é o limite, antes disso, tudo é permitido.

 

K vendo um anúncio da JOI

O Cyberpunk, a Ficção científica sempre nos traz novas formas de enxergar algo cotidiano pelo olhar da ciência e da tecnologia, como em Blade Runner 2049 (2017, dir. Denis Villeneuve) que a JOI é desenvolvida apenas para o prazer de quem a compra. Não apenas para saciedade sexual, mas como uma companhia, uma namorada que é tudo que qualquer homem sonha: dedicada, submissa, sensual, bem humorada. Mas ainda em Blade Runner, o que é muito interessante para o erotismo é Mariette. Uma “modelo de prazeres”, mas não uma prostituta que se envolve com K durante a narrativa. Ela personifica JOI, namorada de K, mas que não tem forma física. Mariette torna seu corpo para que K possa transar com a namorada, e é quando a gente descobre que o sexo ainda tem muito a evoluir. Até a década de 60, ficção científica não abordava sexo, mas foi percebido que a cada passo que a tecnologia sobe, é impossível que a indústria pornográfica, de sex toys, e qualquer outro gadget para fins sexuais não cresçam junto, e hoje nós temos a ficção especulativa erótica, mais uma divisão do sci-fi, mas esse trazendo como principal objetivo causar excitação no público.

Um bom exemplo disso é Black Mirror (2011 – ) que tem três episódios em especial que tratam o sexo com naturalidade a partir do uso da tecnologia. O primeiro a ser citado, é ‘Fifteen Million Merits’ onde a protagonista sonha em ser cantora, mas é escolhida para ser atriz pornô. E seu companheiro, amigo, quem a ajudou a pagar pelo seu sonho, tem um vizinho que trabalha o dia inteiro assistindo pornô. Assim, de forma escancarada, e sem incomodar ninguém. Também temos ‘The Entire History of You’, tido por muita gente como o melhor episódio de toda a série, o episódio traz uma tecnologia onde é possível acessar suas memórias com uma piscada de olhos. Você grava, fotografa, e fica tudo armazenado, podendo reproduzir no celular ou na TV as suas memórias. Mesmo sendo assustador o fato de exibir suas memórias, você ainda pode se manter na privacidade pelo acesso nos seus próprios olhos, e aquilo é exibido só para você. Assim, os personagens assistem suas transas antigas enquanto transam! Eles se estimulam com momentos anteriores e tem prazer com seus parceiros lembrando-se dos mesmos em ocasiões anteriores. E por último a ser citado, temos ‘Be Right Back’. Onde um robô assume o lugar do falecido marido da protagonista, mas que ela se sente muito mais satisfeita sexualmente do que sempre foi com seu marido.

Tudo isso parece muito distante. Mas o que a tecnologia tem para nos oferecer hoje, que pode mudar nossa perspectiva do que é prazer? Além do Tinder, que é uma das ferramentas mais utilizadas e bem estabelecidas, ainda temos aparelhos e aplicativos que vieram para melhorar nossa ideia de sexualidade. Repare que a intenção é melhorar, aprimorar e saciar a saudade de quem tá longe, mas nunca substituir o sexo.

Os polêmicos robôs do sexo são claramente um aprimoramento feito de um conceito que nasceu na ficção científica. Hoje, a concepção já é bem recebida pelo público e diverge opiniões filosóficas e sociais sobre seus papeis ao lado de humanos. Mas não acaba ai. Devices para relacionamento a distância como dispositivo que imita o beijo, que copia o abraço e ainda simula uma conchinha com seu parceiro! Independente de onde estão, ambos conectados pela internet, podem sentir como se o outro estivesse ali copiando o beijo ou os batimentos cardíacos, a respiração para reproduzir para a pessoa do outro lado, a sentindo próxima.

Isso resolveria o problema dos relacionamentos à distância, mas quando temos isso adaptado para a vida de solteiros que se torna ainda mais parecido com qualquer ficção cientifica. Impossível não se lembrar do jogo Second Life, que até o inicio dos anos 2000 era uma febre total. Hoje, jogos como o Second Life vêm sendo estudados para que seus participantes adultos possam ter experiências sensoriais de sexo durante o jogo. Isso elevaria o sucesso da pornografia em realidade virtual, já que além de interagir com alguém numa realidade simulada, ainda seria possível ter relações sexuais “reais” com ela. Para isso, precisamos desenvolver melhor os robôs com toque biônico, que são robôs com mãos parecidas com mãos humanas para dar mais conforto e tranquilidade para o humano.

E tudo isso, poderia não ser possível se não fosse a nossa capacidade de nos sentir atraídos pelo “Vale da Estranheza”, ainda mais, pelo horror. Misturando horror e erotismo, podemos nos deparar com relações como Altered Carbon, ou ‘Família Addams’ (1991, dir. Barry Sonnenfeld), que apesar da comédia, ainda tem um teor sensual combinando fetiches bizarros como sexo no cemitério, sexo perante assassinato em massa, facas e necrofilia, trazendo o horror para um lado erótico. Somos capazes de relacionar excitação com escuridão, de responder sexualmente situações sombrias como em Ninfomaníaca Vol. I (2013, dir. Lars von Trier). Somos igualmente capazes de absorver novidades tecnológicas, abraçar de forma cotidiana toda estranheza inicial que ela cause, elevando nossa forma de sentir prazer.

A estranheza inicial não é mais um ponto negativo para a tecnologia, é algo que colabora. A atração sexual pelo desconhecido, o desejo pelo bizarro, a curiosidade pelo estranho. São águas inexploradas, mas que com a ajuda da arte já pudemos vislumbrar e despertar em nós um lado que se excita com o horror, e também com o novo. A tecnologia hoje pode aproximar quem tá longe de várias formas, pode acordar em nós o que sequer sabíamos que estava dormindo.

Larissa Limas

Redatora, roteirista, contista cyberpunk, estudante de jornalismo apaixonada por cinema mas vendida à ciência e a tecnologia. Futurologia é minha religião e Elon Musk é meu messias.

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