outubro 25, 2020

Fim De Festa (2020) | Crítica

     O cinema pernambucano surpreende a cada ano e em 2020 já temos um titulo que vende uma premissa atrativa aos olhos do publico e estrategicamente foi lançando no fim da festa que se passa, o carnaval; é uma estratégia de marketing que ainda faz falta ao nosso cinema, mas que vem dando bons passos ao longo dos anos e ultimamente teve uma evolução no onipresente Bacurau. Em Fim De Festa acompanhamos Breno Wanderlei, um policial que interrompe suas férias para investigar um assassinato em pleno carnaval. Irandhir Santos assume o protagonismo e repete a parceria com o diretor Hilton Lacerda, ambos trabalharam em Tatuagem (2013). Hilton também assina o roteiro e nos entrega uma obra intima e necessária de se debater nos dias atuais.

    Dono de um estilo próprio que o acompanha desde Amarelo Manga (2002), Hilton abandona um pouco o peso visual presente nos seus filmes e investe mais na abordagem reflexiva no texto, convidando o público a pensar sobre vários aspectos abordados no decorrer da trama, sem perder o tom palpável, denso, que seus roteiros tem. O assassinato no carnaval é apenas um convite “abre alas” para outros temas. A personagem da atriz Amanda Beça, Penha, é responsável por vários questionamentos sociais que por algum motivo tomaram conta da população como uma espécie de verdade absoluta, sexualidade, o corpo feminino, a posição da mulher, tudo isso está presente e evidenciado, cabe a você se permitir pensar sobre. Assunto como drogas também estar presente, de uma forma abstrata o debate sobre a legalização surge sutilmente, lsd, ecstasy, estão presente nas falas dos personagens, mas não aparecem em exibição; a maconha é vista e dialogada sobre, mais um tema que necessita de uma discussão mais madura, nesse aspecto muito em tela se deve ao relacionamento do protagonista com o seu parceiro e com o seu filho, vivido por Gustavo Patriota, personagem importante para o enredo do filme e do arco de Breno. O restante do elenco cumpre bem seus papeis solidificando os caminhos do texto.

     Por trás da tradicional festa existem muitas histórias que não são mostradas, algumas são sobre violência e mais uma vez o diretor causa esse pensamento. Aonde e como está o jornalismo no momento? uma breve pesquisa mostra que em um passado não tão distante, tínhamos uma cultura jornalística mais incisiva, hoje existe um certo ar de “inércia” em boa parte da imprensa, o jornalismo investigativo deu lugar a um jornalismo dormente em vários aspectos. Nas mãos do diretor temos o “Dracma”, um jornal independente que vai atrás das informações sem medir esforços, como deveria ser; aqui eu senti falta de estatísticas ou um breve resumo sobre o “lado B” do carnaval, o que a mídia não passa, os vários e vários casos de violência que certamente existem por aí, sabemos disso, mas uma coisa estratificada causaria mais impacto. Breno Wanderlei também carrega muita intimidade na sua postura, relações e ambiente, pessoal e profissional. Seu estilo me fez lembrar do investigador fictício Scanoni, que protagoniza o livro Casos Recifenses do autor Fernando Maia; fora do “padrão”, inquieto e necessário dentro de uma corporação cansada, Breno, assim como Scanoni, enxerga a polícia como algo além da lei, como uma necessidade de ler pessoas e estudar situações, fazendo o conceito de justiça algo subjetivo que nem sempre está em primeiro lugar, obviamente a semelhança está longe de uma analise mais “morfológica” de cada personagem, sendo apenas uma lembrança. Irandhir consegue transmitir mais uma vez toda a intensidade e verdade que seus personagens pedem, seu Breno é tão intenso quanto Clécio de Tatuagem (2013), Diogo Fraga em Tropa de Elite 2 (2010) e Joãozinho em A História da Eternidade (2014), um personagem bem desenvolvido que apresenta várias camadas sempre oxigena a produção.

     A câmera do diretor passeia por várias facetas de Recife, apresentando os sempre belos planos abertos da cidade, usando drone para filmar de cima e como objeto de transição entre cenas. A arquitetura recifense também faz parte da produção, com locações urbanas e um sotaque ímpar, o efeito causado na sessão lotada é que você faz parte do filme, a identificação causada é o maior acerto de Hilton e isso não é nenhum demérito, a identificação precisar sair do local para o global e assim o cinema brasileiro chegar ao lugar que merece, estar presente em peso nos centros de exibição e a maior voz para isso é o público, por isso ele precisa ser constantemente provocado.

     Cabe ainda ressaltar que Emma, personagem que é assassinada e propicia todo desdobramento da trama, é inspirada em Jennifer Kloker, turista alemã que foi assassinada no carnaval de 2010, a mando da sogra que queria ficar o seguro de vida de Jennifer, Hilton fez um grande trabalho de pesquisa com os jornalistas que cobriram o caso na época. Fim De Festa é um bom suspense policial que tem uma boa narrativa e um enredo que se apoia nas relações interpessoais para desenvolver sua trama, trazendo reflexões e temas que precisam ser discutidos constantemente até que se chegue no equilíbrio de opiniões e que fique bom para todos. O cinema brasileiro tem como uma de suas características a missão de ser mais que entretenimento e se você é um espectador que busca isso, se permita a navegar nas camadas que Hilton Lacerda apresenta.

  • Fim De Festa
  • Duração: 94 minutos
  • Diretor: Hilton Lacerda
  • Roteiro: Hilton Lacerda
  • Elenco: Irandhir Santos, Gustavo Patriota, Amanda Beça, Leandro Villa, Safira Moreira, Hermilia Guedes
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