maio 28, 2020

Fleabag: Primeira Temporada (2016) | Crítica

Sobre o que é “Fleabag”?

Foi essa pergunta que indaguei em minha cabeça na primeira vez em que escutei o nome desse seriado da BBC/Amazon. E agora, após ter assistido, acredito ter a resposta para minha dúvida: “Fleabag” é uma série sobre os conflitos e desafios de uma mulher que batalha para combater os demônios internos e fantasmas de seu passado, sua luta diária contra si mesma e o desespero de não poder retirar determinadas farpas de sua vida, pois elas consumirão seu emocional por muito tempo. Em resumo: “Fleabag” é uma série sobre a difícil e hostil, porém recompensadora arte de viver.

A sensação de “Já vi isso antes” é quase imediata, porém a roteirista do seriado, Phoebe-Waller Bridge (que personifica a protagonista) coloca esses conflitos do ponto de vista feminino, dando um frescor maior ao que poderia ser somente mais uma “história de redenção” sem nada de novo ou surpreendente.

Um dos principais diferenciais da estrutura convencional desse estilo de narrativa que ocorre aqui vem de apoio ao olhar feminino e reside em uma espécie de “inversão de papéis” no que diz respeito a figura da mulher: durante os seis episódios, os homens são tratados como personagens um tanto quanto estereotipados e vistos pela protagonista como meros brinquedos de seu prazer sexual. E esse aspecto que muitos podem enxergar como “ofensivo” ou “desrespeitoso” cria uma reflexão profunda sobre um elemento curioso no retrato de nossas companheiras do cromossomo X. Você já notou como em várias ocasiões de determinados filmes e seriados, a figura da mulher é imaginada como um objeto de admiração, quase como se estivesse em uma vitrine de loja? Ou em outras ocasiões, as personagens femininas são descritas pela obra como objetos sexuais para satisfazer as necessidades do protagonista do sexo masculino?

(O curioso é que, além de passar despercebido, esse elemento soa polêmico quando recai na figura de uma mulher, o que mostra como esse é um terreno pouco explorado e que alguns estão acostumados a verem homens protagonizando esse tipo de personagem que é o centro de “Fleabag”. Um exemplo masculino que se assemelha ao comportamento da persona criada por Phoebe aqui é, certamente, Charlie Harper, encarnado por Charlie Sheen em “Two and a Half Man”, já que possui uma tendência a não entrar em relacionamentos amorosos e encarando o sexo como um jogo - no caso dessa produção, a protagonista vê como uma maneira de alcançar o prazer que falta no seu cotidiano)

A protagonista aqui enfrenta conflitos constantemente tratados com um equilíbrio entre o humor britânico de conversas rápidas e construção cênica e o drama melancólico sobre traumas e dores de um passado incerto e problemático, o que cria uma conexão forte com outra figura dos seriados atuais: BoJack Horseman. O cavalo antropomórfico depressivo compartilha de angústias semelhantes as sofridas pela protagonista da série (que vou chamar de Fleabag, embora seu nome verdadeiro não seja dito em momento algum da primeira temporada), especialmente a sensação do tempo estar passando rapidamente e seus sonhos e expectativas se desfazendo aos poucos, remetendo também a outras duas figuras femininas recentes, dessa vez no cinema: Frances (de “Frances Ha”) e Brooke Cardinas (de “Mistress America”), que arcam com a frustração de estarem jogando fora suas oportunidades valiosas simplesmente por não saberem desapegar.

Por pegar determinadas inspirações, Phoebe não investe em criar uma obra derivada, já que sabe como trabalhar temas tão conhecidos de maneira subversiva e charmosa: logo na abertura, ouvimos uma respiração ofegante, até constatarmos que se trata de Fleabag sem saber lidar com uma situação e logo pedindo um conselho para o espectador – na cena em questão, as espectadoras – quando se comunica diretamente conosco. A quebra da quarta parede é mais que um simples recurso de roteiro para acrescentar elegância aos contornos da trama, servindo como uma ponte para entendermos o interior conturbado e os pensamentos jocosos de sua protagonista, que dialoga com o público os mais variados assuntos, desde explicações sobre detalhes curiosos da sua vida até as sensações do ato sexual, passando por assuntos como a ideia do sexo anal, porém nunca através de uma fórmula estereotipada, já que aborda suas discussões com respeito, embora utilize da acidez do humor.

Mas o ouro de “Fleabag” é justamente aquela que está a frente de tudo: Phoebe-Waller Bridge. Não faço ideia de qual lugar descobriram essa jóia rara, mas que ela continue relevante por muito tempo, já que o trabalho que executa aqui é (quase) perfeito. Não só o que exerce no texto, entregando diálogos precisos que intercalam bem entre o dramaticamente pesado, satírico e irônico, mas seu virtuosismo como atriz: além de exibir un domínio do próprio material, insere com fluidez a persona imperfeita e confusa que é sua personagem, não somente sobre seu futuro, mas principalmente em como lidar com as pessoas ao seu redor, entendendo que nem tudo deve ser dito, necessariamente – o que conecta ainda mais a figura ao depressivo BoJack. Divertida e hilária, Fleabag é incapaz de sorrir com verdadeira emoção, já que até seus curtos risos apresentam o sofrimento e melancolia na qual carrega, entregando uma mulher marcada pelas cicatrizes que acumula por baixo de sua pele carismática e excêntrica.

Acima de tudo, “Fleabag” se une a “BoJack Horseman” e a “Atlanta” como a tríade que melhor soube extrair a comédia na tragédia durante a década passada, criando personagens melancolicamente cômicos em una Londres que pulsa uma aura pouco alegre e mais fria e depressiva, tal como a real face que sua protagonista esconde por baixo da imagem cativante e amistosa que cria. Uma pessoa irreal pars camuflar os reais sentimentos que tem, mas não consegue expressar. E diga-se de passagem, o ápice da temporada é o curto momento onde ela pode desabafar. Onde ela pode retirar sua máscara. Onde ela pode mostrar que é humana, tal como todos nós. Onde pode chorar e tirar um pouco de sua dor de si.

Onde ela pode ser humana.

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