maio 28, 2020

Fleabag: Segunda Temporada (2019) | Crítica

Enquanto a primeira temporada de Fleabag foi audaciosa ao questionar o olhar social deturpado de alguns espectadores que, moldados pelo machismo sem perceber (ou pior: tendo consciência), julgam a protagonista pela vida na qual leva, mas esquecendo de condenar o mesmo tipo de ação em figuras masculinas, essa segunda temporada é bem clara quanto a maneira que satiriza a iconografia católica, quebra convenções de gênero e entrega um aprofundamento maior nas cicatrizes que Fleabag oculta dentro de uma personalidade divertida e irônica. “É uma história de amor“, como diz a própria, mas não é da maneira que estamos habituados a ver em uma obra audiovisual.

Se a temporada anterior fechava com um encerramento dramaticamente atordoante, mas realista e que exibia explicitamente as marcas dos traumas emocionais que sua protagonista reluta em mostrar, aqui, Phoebe-Waller Bridge estuda a personagem com ainda mais profundidade na maneira como lida com as situações de sua vida e seu conflito íntimo em conter as dores do seu passado sem jamais esquecer do aprendizado que seus erros lhe ofereceram. O que é admirável em Fleabag é ver como lida com o ideal do amor: aprendemos que ela é uma mulher completamente fechada a se interessar intensamente por alguém. Todo o sexo em sua vida é, como a própria menciona, uma forma de preencher o vazio de sua alma. Mas, o que ocorre quando tal paixão é tão poderosa – e indevida – que a leva a repensar tudo aquilo que fechou dentro de si?

É nesse ponto que entra o padre interpretado por Andrew Scott: além de mostrar uma completa versatilidade ao se distanciar de outros personagens da sua carreira, sua gentileza e aura positiva faz com que venhamos a simpatizar com a imagem que expressa e seu jeito mais “livre” o distancia do esteriótipo da figura católica; e claro que, a dinâmica que nutre com Waller-Bridge é fascinante, rendendo desde momentos dramáticos bem encenados até gags de humor inteligentes – os momentos na qual indaga sobre o recurso da quebra de quarta parede é brilhante. Aliás, não é somente Scott que tem uma química eficiente com a protagonista, já que Bridge demonstra ter uma fluidez ao interagir com quaisquer personagem em cena, sendo a mais relevante – e tocante – os instantes que divide a tela com Sian Clifford.

Nota-se um carinho mútuo de Claire com a irmã e a maneira como ambas lidam com as diferenças e reagem em conjunto a inúmeras situações demostra uma irmandade muito forte e um amor que, é ofuscado pelos dramas e conflitos do seus passados, afetando a amizade que esboça um retorno gradativo. Outro que possui uma excelente presença em cena é Bill Paterson que imprime um cuidado paternal muito acolhedor e reconfortante, além de expressar no olhar, o orgulho profundo que sente pelas filhas. Já Phoebe-Waller Bridge mostra, novamente, um domínio interpretativo absolutamente deslumbrante: sempre nos trazendo para a história através de seus comentários perspicazes, irônicos e discordantes e suas reações cômicas na qual expressa ao virar-se para a câmera, a atriz é totalmente entregue a protagonista, configurando Fleabag em uma mulher forte, comicamente jocosa e coberta por traumas de uma vida fechada para o amor – não necessariamente o conjugal, mas como um todo.

A constante presença da palavra “amor” não é um acidente, já que é todo o alicerce temático dessa segunda temporada. O drama de sua protagonista é o vazio interno pela completa falta desse sentimento, algo que afeta suas relações familiares – e fora desse ambiente – em completos desastres. A jornada que enfrenta aqui é compreender o que realmente significa o amor e, quando ela compreende aquilo que havia renegado por tanto tempo, testemunhamos a sua redenção em passos lentos. Claro que ela já demostrava tal emoção, mas era muito mais reservada, articulada no cuidado que possui com a irmã e no carinho que já tratava o seu pai. Mas, assim que liberta definitivamente esse sentimento, é que acompanhamos a sua transformação em diversos aspectos de sua vida.

Aliás, toda a articulação das cenas e a construção narrativa ao redor dessa temporada é voltada para tal foco temático: o casamento de seu pai e sua madrasta, a infelicidade na vida de Claire, sua paixão proibida pelo padre, a numerosa presença de monólogos sobre esse aspecto – em especial, aquele feito pelo personagem de Scott no último episódio e por aí vai. Além desse componente reflexivo sobre a retenção do amor de sua protagonista, o elemento social da presença do feminismo na progressão da história é igualmente bem encenado na mise-en-scène da série, basta reparar como, em certo momento, um personagem (já presente na temporada anterior), encosta no braço da protagonista, que responde com um afastamento corporal, demonstrando a sua negação com o toque e seu desprezo por sua personalidade desprezível já antes explicitamente apresentada.

No final das contas, o encerramento de Fleabag é extremamente adequado: após viver consumida pelo luto de uma morte que ocasionou, uma irmã que afastou e uma família que desapontou, após entregar seu vazio em relações sexuais que, a cada passo, se tornavam ainda mais mecânicas e que traziam apenas uma satisfação instantânea que pouco reverberava em sua vida, ao chegar no episódio final, é belo encontrar um sorriso no rosto da protagonista e compreender que ela encontrou o que procurava. Não alguém para amar, necessariamente, mas descobriu que a resposta para seus problemas se resume a tal sentimento. Fleabag compreendeu que é o amor a chave para seguir um caminho mais claro.

E assim, ela se despede do público. Um final feliz de uma história sobre amor.

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