outubro 25, 2020

Following (1998) | Crítica

É curioso notar como, lançados no mesmo ano e dividindo técnicas e estilos semelhantes, Darren Aronofsky e Christopher Nolan iniciaram a carreira nos longas-metragens. E se Pi era uma experiência cerebral sobre o enlouquecimento gradativo de um homem, Following é um estudo cuidadoso de como tendemos a recusar nossa mediocridade cotidiana e procuramos fugas que nos possibilitem algo mais que sempre acaba em uma tragédia. Nesse aspecto, o projeto se liga diretamente a um grande clássico dos anos 90: Fargo – Uma Comédia de Erros, dos irmãos Joel e Ethan Coen. 

Se naquele filme, Jerry Lundegaard elaborava um plano para sequestrar sua esposa, chantagear seu sogro e arrancar dinheiro do mesmo, explorando as consequências violentas desse esquema, aqui em Following acompanhamos um sujeito (creditado como The Young Men e interpretado por Jeremy Theobald) que, incomodado com a superficialidade do seu cotidiano, segue pessoas em busca de uma inspiração para escrever. Certo dia, ele persegue Cobb (Alex Haw) que se revela como uma espécie de “invasor de propriedade” que possui intuitos curiosos por trás desse seu modo de vida, chamando a atenção daquele homem.

O interessante de se observar aqui é como Christopher Nolan começa a consolidar as principais características de sua filmografia que se tornariam recorrentes. O principal deles é a construção da não-linearidade do roteiro: desafiando a compreensão do espectador a todo segundo, a estrutura dos eventos é propositadamente embaralhada, pulando de cenas no presente para instantes no passado e acontecimentos do futuro, o que emula uma complexidade jocosa, mas pouco acessível como outros projetos posteriores do realizador. Outro aspecto notável está na montagem que controla as peças do quebra-cabeça, aos poucos entregando respostas para as lacunas em aberto do início, transformando a experiência em um verdadeiro puzzle. 

A fotografia em preto e branco, o trabalho de iluminação e o emprego de sombras reforçam a inspiração de Nolan no cinema noir e em traços classicistas que revelam o eterno saudosismo do artista com a sétima arte. Contudo, é o texto que revela muitos dos acertos aqui contidos, já que, analisando as camadas interpretativas, é perceptível como o roteiro explicita o conceito de solidão e o efeito que tal sentimento causa em nossa estabilidade mental, algo que leva o protagonista a stalkear pessoas pela rua, por exemplo. Há também uma reflexão interessante sobre a crise criativa do artista e as dificuldades em encontrar inspiração. Além de tudo, há breves pinceladas sobre as superficialidades da vida, do apego humano ao material e as relações sociais contemporâneas que estão registrados nas inúmeras – e bem construídas – interações entre os personagens. 

Pecando apenas em detalhar o twist de maneira didática através de uma exposição verbal pouco justificável, é um pequeno deslize que não impede Following de alcançar a excelência de sua narrativa e suas reflexões, criando um dos grandes projetos da filmografia de Christopher Nolan.

E ao perceber que esse é seu primeiro longa-metragem, tal afirmação se torna ainda mais forte.

Avaliação: 4 de 5.
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