janeiro 15, 2021

Freaky – No Corpo de um Assassino (2020) | Crítica

A cada novo filme, Christopher Landon parece estar disposto a se tornar um dos sucessores do legado deixado por Wes Craven e da franquia Pânico: se A Morte te dá Parabéns (2017) usava do artifício “Groundhog Day” para comentar sobre a repetição exaustiva das fórmulas e moldes pré-estabelecidos e replicados do subgênero do Slasher (e do gênero do terror como um todo), aqui em Freaky, seu mais novo trabalho produzido pela Blumhouse, o realizador usa da premissa envolvendo a troca fantasiosa entre corpos para comentar sobre os arquétipos mais clássicos desse tipo de produção: o assassino serial e a jovem indefesa.

Na premissa, a troca de corpos acontece justamente entre esses dois polos: a jovem estudante Millie Kessler (Kathryn Newton) e o assassino nomeado como “O açougueiro de Blissfield” (Vince Vaughn) que, durante uma tentativa de assassinato, acaba usando uma adaga e causando essa inversão, com Millie presa no corpo do serial killer e o assassino no corpo da menina. Através desse ponto de partida, Landon cria as mais diferentes situaçõe que exploram ao máximo as possibilidades do conceito, indo das situações cômicas (a reação do assassino e Millie ao perceberem que estão nos corpos um do outro) até na exploração do comentário a respeito dos arquétipos que fizeram dessas figuras tão essenciais em uma produção de slasher.

Basicamente, existe uma vantagem gigantesca para o assassino no corpo de Millie, que é o fato de se camuflar socialmente e se distanciar de qualquer suspeita pelo simples fato de ser uma jovem comum, ao impor esse arquétipo através de seu visual e de seu comportamento pré-estabelecido na narrativa. Já para a jovem aprisionada no corpo do serial killer, as chances de se camuflar são reduzidas. Em outras, palavras, ambos precisam seguir as regras dos personagens que encarnam em um jocoso jogo de farsas, onde a jovem indefesa é o perigo e o temível assassino, no final das contas, não representa ameaça alguma.

Landon também compartilha a mesma vontade de Craven em explorar graficamente tudo aquilo que possui em mãos: o uso da violência puxa uma essência de cinema B, estilizando o momento e assumindo os exageros cada vez mais divertidos nas formas que encontram para criar as mortes. O diretor expõe de maneira nítida o que quer mostrar, desde as piadas mais “estapafúrdias” até a fisicalidade cômica dos atores, e nesse aspecto, aplausos para a entrega corporal tanto de Vince Vaughn quanto da Kathryn Newton (ainda pouco valorizada na indústria), que assumem abertamente a vibe cartunesca na caracterização, em especial, na sequência da descoberta de estarem em corpos diferentes e na maneira como procuram entender a situação (a frieza dos movimentos de “Millie” e o histrionismo do comportamento do “açougueiro”).

E como se essa frontalidade gráfica não fosse o suficiente, ao chegar no ato-final, o realizador eleva todos os seus artifícios até a última potência: o humor exagerado fica ainda mais evidentemente histriônico, a violência se torna ainda mais explícita e o diretor começa a flertar com uma dinâmica cênica ainda mais insana, onde eleva tudo ao extremo, a potência máxima das capacidades daquilo que tem em mãos. Um caos de eventos que se torna muito revigorante de se acompanhar a cada passo que dá.

Freaky acaba sendo um belo derivado do cinema autoconsciente de Wes Craven, buscando evidenciar isso ao reverenciar sutilmente a sequência da mansão no terceiro filme em sua abertura. Uma salada de ideias aparentemente desconexas, mas bem exploradas e que são levadas até o limiar de suas possibilidades visuais através de um comentário sutilmente bem encaixado sobre os moldes do subgênero que ajudaram a consagrar o slasher.

Avaliação: 4 de 5.
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