Greta (2019) | Crítica

     Escrito e dirigido por Armando Praça, Greta gira em torno de Pedro (Marco Nanini), um enfermeiro de terceira idade que carrega nos ombros todo o peso de uma vida sufocante e que ao mesmo tempo busca se manter vivo na sua jornada por sentimentos e superação dos medos. A trama não é muito diferente da vida real e em vários momentos é fácil se pegar pensando em “alguém que você conhece”, nossos filmes têm essa brilhante capacidade de nos atrair pela proximidade, pela identificação e isso tem muito em Greta, o espectador é convidado constantemente a fazer parte do filme.

     Em seu primeiro ato, o diretor cuida bem da construção do cenário e da ideia que ele quer passar, o trabalho em um hospital precário denunciando o já conhecido descaso, a rotina dos personagens, as amizades descartáveis que tanto existe por aí causando a sensação de estar acompanhado e só ao mesmo tempo, tudo é desenhado para que o protagonista cresça na tela. Nanini é o dono do filme, seu personagem é cru, honesto, sensível, carregado de agonia e sentimentos que causam desespero na maioria das pessoas, desde os primeiros minutos o ator já apresenta uma das melhores construções de um personagem, seu trabalho de corpo ao se expressar num tom vagaroso e monótono, sua voz casando com uma respiração constantemente aflita, além do uso da arte para trazer um aspecto lúdico e intelectual, gerando, inclusive uma curiosidade em quem está assistindo. Sua atuação é uma das melhores de sua carreira, se fosse qualquer outro ator certamente seria a melhor, despido de qualquer barreira e totalmente à vontade, o ator se entrega e embarca numa atuação ousada e reveladora, são poucos os casos, principalmente no nosso cinema, em que um ator com tantos anos de carreira se expõe de uma forma não gratuita, você percebe que ele não está apenas atuando, que aquilo não é apenas uma aventura em um estilo diferente, Ele está dando um recado, gritando com uma sociedade cheia de preconceitos e mostrando que não existe rótulo para a arte ou para a vida, todos são o que querem ser e merecem viver e amar da melhor forma possível.

     No elenco principal temos Denise Weinberg e Démick Lopes, ambos competentes e igualmente vivos em suas atuações, cada um com seu Norte. Denise, inclusive, traz um papel que inverte um certo “padrão” nas produções, sua presença é muito firme e assim como Pedro, sua personagem, Daniela, também transmite toda frustração e fúria com firmeza. Démick traz uma espécie de sobrevivente, aquela pessoa que está disposta fazer de tudo para ter o mínimo, seu personagem é o mais mutável e mais desenvolvido no passar das emoções.

     A história que o diretor quer contar fica muito clara no decorrer da trama, sua proposta é palpável e você entende bem o que ele quer falar, tudo é claro e coeso, o estudo das pessoas é evidente e como eu já disse anteriormente, você sente a identificação. No segundo ato o roteiro peca em algumas escolhas, escolhas estas que não reflete no contexto apresentado, o filme tem bastante nudez, o que não tem nenhum problema se a intenção não fosse chocar, ao escolher ser explícito em alguns momentos, essa escolha soa como exagerada e acaba ficando gratuita, todas as emoções apresentadas, os traumas, os medos e sentimentos já deixou tudo muito chocante, a fúria da vida e as consequências das escolhas que fazemos já causa a reflexão suficiente para chocar e prender o público. Explicitar o sexo da forma que foi, não surtiu o efeito provocado em produções como “Divino Amor”, por exemplo, pois ali o sexo era necessário para endossar o roteiro, já em outra cena a coisa muda, pois existe uma situação contextualizada e dessa forma funciona mais. Em seu terceiro ato o filme retoma a qualidade do primeiro e cresce mais uma vez, na cadência do ritmo e na aceleração das emoções, entregando um fim artístico e lúdico como foi apresentado nos atos anteriores. O curioso é que durante todo o filme, o “grito” é verbalizado, é apresentado nas ações e no fim, o diretor opta por “gritar” em silêncio, perfeito.

     Greta é um filme sensível, honesto, que fala da vida, das pessoas, dos sentimentos e das relações, é um excelente exercício de reflexão e ainda nos brinda com uma excelente atuação de um dos nossos maiores atores, é um tipo de filme que ainda está se moldando e chegará mais forte em outras produções porque falar da vida não é fácil, mas posso dizer que Armando Praça sabe o caminho.

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