setembro 28, 2020

Harry Potter e a Câmara Secreta (2002) | Crítica

Se A Pedra Filosofal operava mais como uma apresentação inicial daquele universo – se saindo competente nessa tarefa – , é aqui em A Câmara Secreta que a franquia Harry Potter começa a encontrar seus caminhos, ainda que por passos lentos. Chris Columbus se encontra ainda mais confortável nesse capítulo e embarca no sentimento de aventura e fantasia ao criar uma apreensão/suspeita crescente no ambiente do colégio de magia. Antes, Hogwarts era lugar de fascínio, agora, se torna uma legítima caixa de mistérios e enigmas. Um espaço de segredos que instiga sempre que a narrativa avança.

Curioso como o tom desse filme começa a encontrar desvios de uma essência “infanto-juvenil” cada vez mais estimulantes: todo o suspense devido aos “perigos” que os alunos correm em Hogwarts começa a atingir ápices cada vez maiores e urgentes, mesmo que a progressão narrativa de Columbus seja prejudicada por uma necessidade em expor uma fidelidade na qual não se permite escolher o que funciona ou não em uma linguagem audiovisual. Sim, ainda que o diretor saiba fazer o seu trabalho, não existe uma ousadia autoral para fazer os eventos se desenvolverem de modo menos “arrastado” em alguns momentos ou deixarem eles com uma identidade característica – algo que aconteceria posteriormente, em 2004, quando Cuarón assumiu o controle da adaptação do terceiro livro da saga (O Prisioneiro de Azkaban).

Todavia, se Columbus não envolve pela autoria, ele encanta pela exploração da fantasia com um toque Spielbergiano que se revela acertadíssimo para a proposta da produção. Um bom exemplo é em como decupa a cena do carro voador dos Weasley seguindo o caminho do trem, articulando um fascínio sempre que opta abrir o plano para incitar o grandiosismo fantasioso da situação e se utilizando bem das composições sonoras de John Williams e seu toque especial para criar uma sensação extremamente agradável ao retornarmos a Hogwarts, por exemplo ou ao voltarmos a encontrar com Harry (Daniel Radcliffe), Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) novamente. Há um senso admirável de retorno, de reencontro que opera bem para reforçar o vínculo emocional na qual estabelecemos com aqueles personagens.

Outro acerto de Columbus e que permeia seus outros trabalhos – e que está presente no filme anterior também – é em como ele trabalha bem com dramas e arcos universais, cujo o envolvimento do espectador é quase instantâneo. O diretor sabe articular bem fundamentos dramáticos que são facilmente comunicáveis com o emocional do espectador, e Harry Potter, ao menos em sua fase “pré-adolescente”, é o tipo de protagonista perfeito para Columbus lidar, já que sua frustração perante a ausência paterna e a melancolia em viver com tios que repudiam completamente a sua existência como membros da família é um componente que cria uma conexão imediata com seu público, o que não impede o diretor de explorar isso de outros modos.

Mais ainda do que no filme anterior, A Câmara Secreta lida de modo curioso com os tipos de paternidade naquele ambiente: da presença nefasta de Lucius Malfoy (Jason Isaacs) e seu comportamento que denotam uma presença paternal problemática na vida de Draco (Tom Felton) – mesmo que isso jamais fique explícito – , Hermione, por outro lado, demonstra uma fragilidade devido ao preconceito pelas suas raízes puramente trouxas, já que seus pais não possuem ligação nenhuma com o mundo da magia; Harry, claro, lida com a perda precoce e os traumas da perda de seus pais enquanto os Weasley demonstram serem pais atenciosos e até arquétipos cinematográficos da paternidade cinematográfica (pré) adolescente para Rony, Fred (James Phelps), George (Oliver Phelps) e Ginny (Bonnie Wright).

Funcionando de modo operante como exploração da fantasia e aventura, Harry Potter e a Câmara Secreta usa de Hogwarts como um espaço além do místico da magia, mas, faz daquele universo um palco para evidenciar os diferentes tipos de paternidade, criar dramas universais facilmente relacionáveis e usar o colégio como um ambiente de força misteriosa e que oculta segredos e mistérios que serão descobertos aos poucos nos capítulos posteriores. Uma aventura que é, sem dúvidas, superior ao seu antecessor por propor algo mais estimulante e que vá além do básico.

Avaliação: 4 de 5.
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