setembro 28, 2020

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (2010) | Crítica

A cada novo capítulo da franquia, Harry Potter mergulhava em um tom sombrio e amadurecido, a medida que seus protagonistas cresciam. E se os anteriores já carregavam um tom drástico, os minutos iniciais de As Relíquias da Morte: Parte 1 é a confirmação de que a inocência das aventuras infanto-juvenis de Harry (Radcliffe), Rony (Grint) e Hermione (Watson) se dissiparam completamente quando vemos os personagens em planos distantes que refletem a solidão de despedidas como Harry olhando seus tios irem embora e, provavelmente a mais dolorosa, Hermione vista em seu quarto minutos antes de remover de seus pais todas as memórias de sua existência em prol de manter a sua segurança.

Mesmo que a franquia já tivesse explorado a fantasia de seu universo através dessa ótica niilista e sombria, a primeira parte do grande clímax é o ápice dramático dessa abordagem, especialmente no que diz respeito ao âmbito dramático dos personagens. David Yates, tanto aqui como no filme seguinte, trabalha uma construção emocional através da força dos gestos, sejam eles em maior ou menor escala. É uma obra que é engrandecida pelos detalhes dramáticos sempre que Yates fecha o plano em seus personagens, procurando os minuciosos detalhes de suas reações para reforçar essa ideia.

Um bom exemplo nesse sentido é a sequência da reunião de Voldemort (Fiennes) com seus comensais, onde Yates procura três diferentes focos da situação, o primeiro sendo do próprio Tom Riddle, o segundo, Snape (Rickman) e o terceiro, a família Malfoy, em especial, Lucius (Jason Isaacs) que, o diretor faz questão de transmitir sua covardia em um momento-chave do segmento, onde Riddle pede a varinha de algum outro bruxo para confrontar Potter. O modo como Yates encena esse diálogo entre os personagens reforça o temor do personagem com relação a presença de Tom através de como o realizador decupa o instante através de um contra-plongée que captura tanto a presença de Riddle no espaço quanto o medo de Lucius em tremeliques com as mãos bem inseridos na performance de Isaacs para transmitir através do gesticular, o sentimento de Malfoy.

(E, ainda durante esse segmento, é curioso como, ao matar uma professora de Hogwarts, Yates escolha enfocar como reações principais, as de Draco (Tom Felton) e Snape, que processam o evento de formas diferenciadas – um de maneira explícita, outro de modo contido)

Dentro dessa exploração dramática dos gestos, outro momento de destaque é aquele que vemos Harry olhando, de modo relativamente saudosista, para o armário debaixo da escada onde dormia quando criança, revelando um sentimento melancólico de um tempo onde a inocência da infância lhe mantinha protegido contra as situações que hoje enfrenta. E tudo através de uma decupagem ágil ao, em certo momento, mostrar o personagem de costas e parado de frente ao cômodo, reforçando essa tristeza ao constatar que o passado não fora tão hostil quanto os tempos na qual vive. Curioso como Yates, dentro da composição desse capítulo, constrói a experiência através dessa abordagem dramática mais evidente do que seus momentos de exploração da fantasia, que trabalha aqui de modo pontual, mas sempre procurando uma exibição gráfica do uso da magia, como mostra na sequência da perseguição que não usa da escuridão da noite em prol de omitir o valor de entretenimento do segmento.

Outro ponto curioso dentro da composição sombria que Harry Potter 7.1 mergulha de cabeça é ver como os combates que, antes ainda carregavam um certo grau de inocência infanto-juvenil, aqui ganham um peso que reafirma uma periculosidade: não são golpes com uma intenção de desarmar somente, mas com o intuito de machucar e – no caso dos comensais – até matar o inimigo que está a frente. Essa abordagem dramática e drástica da narrativa talvez seja algo que não corresponda um apelo universal, já que a franquia lidou com esses aspectos, mas ainda diluídos em uma realização mais abrangente, que pouco se afundava dentro do soturno como esse capítulo faz. Yates, em conjunto ao cinematógrafo Eduardo Serra e ao compositor Alexandre Desplat, usa da fotografia e trilha para reforçar essa atmosfera desesperançosa no modo como registram os ambientes através de composições escuras, levemente banhadas pelo azul melancólico, quase sempre cobertas pelo frio dos espaços e, na maioria das vezes, filmada através de enquadramentos que isolam seus personagens nas locações.

Já Yates e Desplat usam de melodias melancólicas que são adequadas para transpôr o sentimento interno dos personagens com relação a situação. E por citar tal sentimento interno, é curioso como Yates usa do chamariz da franquia para construir o capítulo mais dramaticamente eficaz dentro dos oito filmes, pois, Harry Potter 7.1 rejeita muitos elementos de uma catarse para explorar os conflitos dramáticos de seus personagens dentro de uma atmosfera desoladora poderosa. E por isso o ato-central opta por uma longa pausa após retirar seus personagens do espaço urbano (o ministério, as ruas de Londres) e jogá-los no espaço florestal para explorar os dramas internos que sentem. De Rony e sua preocupação em ouvir no rádio más notícias relacionadas a sua família até o peso dos três ao fugirem dos comensais e o cansaço de toda a situação – algo que justifica bem os conflitos internos entre o trio em certo instante da projeção.

Dentro da exploração desse núcleo dramático, Yates aproveita para usar da sua abordagem dramática dos gestos em prol de potencializar tais conflitos: seja o uso de close-ups para capturar o frágil interior de seus personagens ou a decupagem de segmentos como a dança na qual Harry tenta alegrar Hermione após diversos momentos de dificuldade que enfrentaram, um gesto delicado que, aliado ao emprego do slow-motion como fundamento dramático, intensifica o peso emocional do momento e a dificuldade de seus personagens em tentarem encontrar respiros, fugas perante o peso do que está ocorrendo. Até a extensão de todo o segundo ato acaba por desempenhar um papel importante por transmitir a desolação e melancolia dos personagens ao espectador, algo que o diretor faz ao usar planos abertos que isolam o trio até em ambientes internos.

Onde o segundo ato desaponta pelo compasso narrativo mais contemplativo e dramaticamente poderoso, o clímax na casa seja algo mais estimulante em certo nível, já que explora a fantasia e o tom sombrio de modo mais estimulante, jamais destoando da abordagem escolhida para o segundo ato, mas realizando o que foi executado no ato inicial ao misturar o entretenimento fantasioso da magia a uma exploração que nunca despreza a força do componente drástico do drama e o tom soturno previamente estabelecido, como fica nítido no segmento onde acompanhamos Bellatrix Lestrange (Helena Bonham Carter) torturando Hermione, na qual Yates pouco revela de modo explícito, mas trabalha o desconforto de modo auditivo quando escutamos os gritos de dor desesperados da jovem.

Cumprindo seu papel no final ao preparar um gancho para o filme seguinte, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 é um filme de muitas coragens: se aprofunda em um tom dramático que carrega um peso emocional forte, explora os conflitos de seus personagens com eficiência, é melancólico em sua abordagem e joga seus personagens em um clima de niilismo que afugenta qualquer esperança de um final feliz, ainda que Harry, Rony e Hermione não tenham desistido tão facilmente de confrontar Voldemort e seus comensais da morte. Pensando nisso, o plano que melhor reflete esse filme e seu tom em comparação aos primeiros capítulos da franquia é aquele em que vemos Hermione enquadrada em primeiro plano, com as mãos cobertas por sangue e realizando feitiços de proteção para criar um escudo ao redor dos personagens. Um momento simples, mas que reforça o peso do tempo e a situação desesperadora na qual vemos o trio de amigos.

Tudo através de um simples, porém emocionalmente poderoso, gesto.

Avaliação: 5 de 5.
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