setembro 28, 2020

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (2011) | Crítica

Enquanto Harry Potter 7.1 se focava em explorar os gestos dramáticos em uma escala diminuída, restrita as interações específicas de alguns personagens, nada mais adequado que As Relíquias da Morte: Parte 2 seguisse o mesmo caminho, mas através de uma oscilação bem empregada de uma escala micro e macro dessa concepção dramática. Yates reconhece a importância do que está em jogo e trabalha ambas as escalas do conflito para criar um grande clímax de duas horas onde deposita a força emocional na maneira como explora esses pequenos e grandes gestos entre seus personagens.

O filme abre, de certo modo, com essa lógica dramática da troca de escala ao mostrar o colégio de Hogwarts através de um plano aberto estático onde vislumbramos a escola cercada por dementadores e, logo em seguida, vemos Snape (Rickman), agora diretor do local, em um plano que usa a contra-luz para mostrá-lo observando a chegada dos alunos, enquadramento que é logo substituído por um close-up onde vemos em seu olhar e na maneira como Yates articula a atmosfera, toda a desesperança e niilismo que circunda esse mundo – e bacana como o diretor ao lado do compositor Alexandre Desplat, completam sonoramente o instante ao inserir a faixa Lily’s Theme para reforçar o impacto audiovisual do segmento.

Toda a decupagem de Yates em Harry Potter 7.2 segue essa dualidade entre o macro e o micro, explorando o peso dramático de modo amplo – as mortes na batalha, o(s) ataque(s) a Hogwarts – , mas reconhecendo a força emocional dos pequenos momentos dentro do conflito, seja ele um gesto de ajuda a um personagem como Harry (Radcliffe) faz a Malfoy (Felton) ou um beijo premeditado durante os sete filmes anteriores, que, no caso, é a consolidação definitiva da relação entre Rony (Grint) e Hermione (Watson). Enquanto o capítulo anterior explorava o cansaço de seus personagens através dessa composição dos gestos, esse desfecho vai para um apelo mais coletivo, ao explorar essa mesma concepção emocional a partir de uma chave mais abrangente, onde os atos tem uma responsabilidade maior. Um sacrifício, por exemplo, carrega uma importância muito maior.

Um dos momentos que reforça isso é o discurso de Neville (Matthew Lewis) em frente a Voldemort (Fiennes) e seus comensais: todo o modo como Yates decupa o momento até a intensidade emocional crescente que o diretor e Lewis inserem a Neville reforça o peso do que seria um possível sacrifício do personagem. O gesto do personagem acaba por ter uma importância coletiva, em uma escala maior. Yates também usa os gestos para criar uma força saudosista ao ver reencontros, onde abraços, olhares, pequenos detalhes, acabam exercendo um peso maior ao relembrarmos a jornada até onde ela chegou. O retorno de Potter a escola acaba por lidar bastante com essa ideia de um impacto através do que havia sido fundamentado nos capítulos anteriores.

Pensando dentro dessa exploração de Yates, outro momento interessante é a destruição do escudo de proteção a Hogwarts, na qual a escala grandiosa do evento é vista através do micro ao enfocar diversos personagens vislumbrando a destruição, capturando suas reações de modo eficaz, usando de close-ups para registrar os seus gestos de preocupação e temor pelo que virá a seguir – ainda nessa sequência, Yates cria uma rima belíssima entre o gesto dos personagens do David Thewlis e Natalia Tena, na qual tentam agarrar as mãos um do outro, algo que ressoa em outro breve instante após o final da primeira batalha.

Diferentemente do que o diretor procurou fazer com essa abordagem gestual anteriormente, esse capítulo possui uma força emocional mais relacionável em comparação ao 7.1, ainda que problematicamente imediata, algo que retira o peso de determinadas perdas, tais como vemos em um momento específico na qual acompanhamos os resultados catastróficos do desfecho da primeira batalha. Compreensível que o impacto seja mais para transmitir o peso nos ombros do protagonista, mas ainda possui o impacto reduzido, já que a narrativa não permite que tais eventos sejam processados de maneira paciente. Enquanto o 7.1 usa bem as 2h e 20min para explorar os conflitos do trio principal, esse desfecho se beneficiaria de uma certa extensão para conseguir trabalhar a sensibilidade de algumas mortes e outros pontos dramáticos, como o passado de Snape.

Todavia, o plano que melhor define Harry Potter 7.2 é a saída dos Malfoy da batalha final: embora seja, em sua estrutura, um plano simples, a maneira como Yates concebe a mise-en-scéne do enquadramento acaba por carregar uma força ainda maior ao estudar seu contexto. No enquadramento, vemos Draco e sua mãe, Narcissa (Helen McCrory) fugindo, mais desfocados do plano, por estarem mais distantes dele. E, em primeiro plano, vemos o rosto de Lucius (Jason Isaacs). Toda a base dele é objetiva, mas, ao compreendermos a trajetória de seus personagens, tal momento se revela, surpreendentemente, como um dos ápices da projeção.

Draco sempre teve uma relação paternal complicada, mesmo que isso jamais fosse mostrado. Raramente víamos o personagem ao lado de Lucius, seu pai. Mais do que um “antagonista”, Draco era um produto de seu meio. Um filho que jamais quis estar do lado que acabou assumindo. Boa parte de sua filiação ao “exército” de Voldemort vem da influência paternal. Já Narcissa, assim como Draco, jamais parecia compactuar com todos aqueles atos executados por Tom Riddle, algo que fica reforçado no instante na qual ela mente sobre uma informação importante a respeito de Harry durante o segmento da floresta. Por outro lado, temos Lucius que, a medida que a franquia avançava, se revelou como um personagem covarde, que temia a presença de Riddle, mas se sentia dominante quando o mesmo não estava presente.

Reconhecendo toda a trajetória dos personagens, o plano acaba ganhando um valor dramático ainda maior: no fundo, vemos Draco e Narcissa juntos, ambos que fogem da batalha por não compactuarem diretamente com tudo aquilo que irá ocorrer. Já Lucius, não: sua fuga da batalha é puramente pela covardia e medo em arcar com as responsabilidades dos atos que cometeu enquanto era um comensal da morte. E por isso Yates o posiciona mais proximamente ao plano, para que assim venhamos a compreender, através da sua reação, os reais motivos que o fazem abandonar o conflito.

Seguindo fiel a sua proposta até o final, é belíssimo ver como, mesmo dentro de um ambiente grandioso e escala do evento idem, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 encerra o confronto entre Potter e Riddle de forma micro, ao focar o gesto final em algo menos grandioso, escolha que seria a mais adequada ou a primeira escolhida dentro de uma obra como essa, cujo apelo de um encerramento faria sentido. Contudo, mesmo sabendo que poderia ser classificado como anti-climático, Yates fez a decisão mais correta dentro da abordagem dramática que estabeleceu. E por isso que a vitória do conflito vem através de algo tão pequeno (a morte da cobra), mas causando um efeito muito mais importante do que se esperava.

Encerrando de modo completamente agridoce em seus minutos finais, As Relíquias da Morte: Parte 2 fecha os seus arcos centrais em um epílogo que, ao se focar anos depois na vida dos personagens, agora definitivamente amadurecidos e assumindo uma posição paterna, pode soar distante e até pouco envolvente a nível emocional. Mas, tal como a morte de Voldemort, Yates reconheceu isso e escolheu fazer o desfecho de modo que correspondesse a sua abordagem: através de pequenos olhares que, mesmo sutis, são mais dramaticamente poderosos do que gestos explícitos.

E, no final, nos despedimos daqueles personagens. Mas, junto a eles, olhando para eles. Com eles.

Avaliação: 4 de 5.
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