novembro 23, 2020

Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005) | Crítica

Ainda nos minutos iniciais de O Cálice de Fogo, há uma cena que define perfeitamente a abordagem de Newell para esse capítulo de Harry Potter: durante a apresentação de Cedric Diggory (Robert Pattinson), o diretor enfoca uma breve troca de olhares entre Hermione (Watson) e Ginny (Bonnie Wright) em um plano conjunto que dura alguns segundos, mas é suficientemente marcante e evidencia a construção dramática dessa quarta parte da saga do jovem bruxo. Diferente da inocência infanto-juvenil de A Pedra Filosofal, A Câmara Secreta e O Prisioneiro de Azkaban, essa parte da franquia lida com a inevitável chegada da puberdade e dos desejos adolescentes. Então, se antes, um olhar era encenado de modo ingenuo, aqui, o mesmo gesto é construído dentro dessa lógica jovial de interesse amoroso fortemente ativo durante essa parte da vida.

Nesse sentido, é justo dizer que O Cálice de Fogo lida bem com os gestos, desde o mais inocente até o mais “apaixonado”, por assim dizer, entre os adolescentes que acompanhamos. Um bom exemplo é tudo que envolve a dinâmica entre Rony (Rupert Grint) e Hermione, que, anteriormente, carregava pistas sutis e pouco identificáveis, mas que aqui ganha contornos cada vez mais explícitos, indo das manifestações de ciúmes que ambos evidenciam em seus comportamentos até detalhes mais discretos de seus comportamentos. Sem dúvidas, o momento-chave dessa tensão romântica é a sequência da Hermione no Baile, na qual Newell decupa de modo propositadamente adolescente, onde a mera e trivial aparição da jovem possui um impacto igualmente grande a outros eventos dramáticos da narrativa. E essa sensação transmitida é eficaz ao exibir que, para Harry (Radcliffe) e principalmente Rony, aquilo é algo impactante na fase em que estão passando.

Gestos menores e menos grandiosos possuem um impacto ainda maior, em níveis dramáticos. Um mero abraço de Harry e Hermione, que é encenado de modo fofo e fraternal no final de A Câmara Secreta, aqui é visto de modo ainda mais emocionalmente intenso, corrosivo, algo que reafirma as sensações da adolescência e seus grandiosismos, onde um mero olhar ou um gesticular que evidencie preocupação é algo supervalorizado enquanto passamos por essa fase; uma vergonha em frente aos colegas de classe, se antes incomodava, nesse período da vida, é quase o fim do mundo, como o diretor confirma na hilária sequência em que a professora McGonagall (Maggie Smith) demonstra modos de dançar no baile e pede auxilio de Rony em frente aos alunos. Toda essa abordagem opera até o ponto que Newell opta por uma quebra de tom que poderia destoar do compasso narrativo, mas acaba por intensificar os eventos vistos no ato-final.

Pois, é a partir do ato-final de O Cálice de Fogo que, as aventuras de Harry, Rony e Hermione que eram sempre inocentes e quase sempre aparentavam ser episódicas, começam a se tornarem dramaticamente mais sombrias a cada capítulo (e é válido citar que o restante desse parágrafo tem spoilers): com o retorno físico de Lord Voldemort (Ralph Fiennes), a obra ganha uma essência dark que adentra a narrativa de modo abrupto, mas acaba por ser uma escolha consciente e que potencializa o peso drástico da situação. Da morte de Cedric até o breve confronto entre Harry e o seu nêmesis, a obra encerra de modo melancólico, já que as tentativas de impedir o retorno de Tom Riddle foram em vão e, com seu retorno físico, a urgência e o temor dos bruxos acaba por se intensificar cada vez mais, tal como a ligação que é criada entre Potter e Riddle e a desconfiança da veracidade de tal informação que seus colegas em Hogwarts começam a ter.

Finalizando de modo preocupante ao expor os perigos que irão atormentar os personagens nos capítulos posteriores, Harry Potter e o Cálice de Fogo, em sua essência primordial, é um curioso olhar da puberdade, desde os sentimentos fortes da adolescência até o grandiosismo em gestos triviais que reforçam o ápice das emoções ocasionadas por uma fase na qual pouco possuímos controle de nossos picos emocionais. Uma fala tola e mal-contextualizada pode carregar um peso inesperado, uma ação errada pode causar uma dor maior do que aparenta. E, quando olhamos para trás, vemos que eram dores frívolas, algo que, provavelmente, Harry, Rony e Hermione sentiram ao se encontrarem na situação mais desesperadora dessa jornada (Harry Potter 7.1 e 7.2, no caso), revisitando tais momentos e vendo como aqueles dramas eram superficiais comparado ao que enfrentam agora.

Avaliação: 4 de 5.
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