novembro 23, 2020

Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009) | Crítica

Enquanto a insegurança de David Yates como diretor fez de Harry Potter e A Ordem da Fênix uma obra dispersa e sem um foco narrativo e dramático, aqui em O Enigma do Príncipe, o diretor demonstra já estar melhor habituado com a mitologia daquele universo e explora cada elemento decisivo desse antepenúltimo capítulo com um balanceamento adequado. É um filme de equilíbrios que consegue explorar de forma simultânea cada aspecto narrativo, jamais prejudicando o tom imposto pela produção ou fazendo com que um elemento atrapalhe diretamente o outro, criando assim um filme que, ao mesmo tempo que lida com uma essência fúnebre, é o mais comicamente eficaz da franquia.

Cada gag de humor em O Enigma do Príncipe é bem encaixada dentro da progressão narrativa, sem nunca prejudicar a essência dramática mais sombria do projeto, mas servindo como um bom descanso de toda a atmosfera niilista que circunda com mais intensidade essa sexta aventura de Harry (Radcliffe), Rony (Grint) e Hermione (Watson). De situações mais descontraídas até os eventos mais drásticos – chegando a um ponto catártico nessa exploração dramática – , Yates equilibra tudo em uma progressão que diverte, mas sem esquecer de como aquele universo não é mais a terra de deslumbre e inocência quando o protagonista entrou nele pela primeira vez oito anos atrás.

Aliás, é curioso exercitar essa comparação e ver como a atmosfera da narrativa foi cada vez mais ganhando contornos dramáticos e sombrios, evoluindo essa linguagem em cada um dos capítulos, se desvinculando de uma essência infanto-juvenil e desbravando tons mais drásticos das situações. Um amadurecimento que acompanha a maioridade de seus protagonistas, trabalhando assim seus conflitos internos e seus traumas do passado com uma veia mais madura, exercendo um peso nas situações que vem somente através do crescimento. A franquia Harry Potter no cinema lidou bem com os fundamentos dramáticos de seus personagens, mas em seus três últimos capítulos, tal abordagem chegou a uma catarse que acompanha a aproximação do conflito final entre Potter e Voldemort (Fiennes), elemento que a cada novo filme ganhava uma camada ainda maior.

Dentro dessa essência dramática amadurecida, há dois arcos que ganham um destaque maior: o primeiro é o conflito interno de Draco Malfoy (Tom Felton). Sempre explorado nos capítulos anteriores como uma figura assumidamente reprovável pela sua presença “nefasta”, ainda que atenuada ao arquétipo clássico do bully, em O Enigma do Príncipe, o personagem ganha uma exploração dramática que humaniza sua figura, olhando ele como um jovem confuso em uma situação que fugiu ao seu controle e que já não depende de sua escolha. Yates e Felton fazem de Malfoy mais do que somente um nêmesis, mas uma arma, um artifício dos planos de Voldemort. Nesse sentido, Yates poderia ter explorado melhor a dinâmica de relação entre Malfoy e Severo Snape (Alan Rickman), algo que é tratado na superfície e poderia criar uma dualidade interessante com outro foco dramático da projeção, presente na relação Harry e Albus Dumbledore (Michael Gambon).

A dinâmica dramática dos personagens tem um peso emocional maior nesse capítulo e é eficientemente bem articulada por Yates para fortalecer o impacto do desfecho, onde essa relação “aprendiz / mentor” ajuda a intensificar a sensação melancólica e sombria de catarse criada pelo diretor, construindo aquele que é um dos momentos mais emocionalmente arrebatadores da franquia. E, como mencionei anteriormente, essa dualidade entre as relações tem um contraste interessante em como Yates desenvolve essas dinâmicas de relacionamento dos aprendizes (Harry e Draco) e mentores (Dumbledore / Snape) até o instante na qual ambos os núcleos se chocam e acabam por culminar no clímax, onde a franquia mergulha, de modo definitivo, em um clima soturno de desesperança e temor pelo futuro do mundo mágico.

Interessante como, a cada filme, os realizadores trabalhavam a atmosfera visual de Hogwarts a modo que soassem cada vez mais sombria e obscura, explorando uma composição gráfica da escola que incite uma atmosfera cada vez mais sobrecarregada, algo que Yates e o cinematógrafo Bruno Delbonnel assume em definitivo ao compor o espaço sempre bem iluminado do colégio de magia com tons intensos de sépia e cinza que configuram esse clima que antecede bem o encerramento da franquia. Até o modo como o diretor usa as composições melancólicas da trilha de Nicholas Hooper para reforçar essa exploração gráfica fúnebre do mundo dos bruxos.

Encontrando espaço entre o fundamento dramático e as inúmeras saídas cômicas para trabalhar as dinâmicas românticas de Harry / Gina e Rony / Hermione, O Enigma do Príncipe é um filme equilibrado entre seus diversos aspectos narrativos, trabalhando todos com muita eficiência e explorando bem os terrenos para o desfecho dramaticamente poderoso e emocionalmente catártico que viriam posteriormente. Uma obra que compreende os caminhos trilhados anteriormente e entrega um produto final jocoso dentro de seu papel como entretenimento enquanto cria uma obra sensorialmente sombria e fundamentada em alicerces dramáticos poderosos.

Avaliação: 4 de 5.
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