setembro 28, 2020

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) | Crítica

Se os dois primeiros capítulos da franquia Harry Potter eram eficientes como aventuras fantasiosas, mas sofriam pela falta de um pulso mais autoral de seu diretor, Chris Columbus, isso já não é mais um demérito em O Prisioneiro de Azkaban: dirigido por Alfonso Cuarón (Gravidade, Filhos da Esperança), o cineasta soube impor um estilo característico que faz a obra ter uma personalidade autoral e explora com eficácia uma mistura balanceada de gêneros, explorando aspectos de ficção científica, aventura, terror, fantasia, drama e equilibrando tudo em uma progressão narrativa sempre estimulante e que amplia a mitologia do universo ao mesmo tempo na qual encontra um meio-termo entre o seu lado macabro e a inocência fantasiosa dos filmes antecessores.

Dessa vez, Cuarón explora um constante clima de paranoia e urgência que se assemelha ao feito por Columbus em A Câmara Secreta, mas que encontra contornos mais amadurecidos dentro de uma abordagem narrativa que explora bem o suspense da situação ao articular tal sensação com artifícios macabros que flertam com o terror de maneira curiosa. Nesse sentido, um exemplo interessante é a sequência dos Dementadores no trem e a construção expressiva da linguagem, onde Cuarón usa da – excelente – trilha, da decupagem do plano e do movimento delicado de aproximação da câmera para constituir uma atmosfera essencialmente assombrosa que vai muito além do design da criatura. O cineasta também faz desse capítulo o mais grandioso da franquia até esse ponto, decupando muitas cenas através de planos abertos que fazem mais do que incitar a mística daqueles ambientes, mas reforça sua magnitude tão fascinante.

Cuarón também se mostra competente ao articular os fundamentos dramáticos de seus personagens, em especial, o que envolve a relação Sirius Black (Gary Oldman) e Harry (Radcliffe): todo o suposto envolvimento com o assassinato dos pais do jovem bruxo acaba por fazer do encontro entre os dois saírem de um risco a vida do protagonista para um acerto de contas vingativo a partir do ponto que Harry descobre a relação entre Black e o trauma que circunda sua vida. Através desse ponto, todo o ato-final vira uma caixa de surpresas emocionalmente bem distribuídas pelo cineasta, que balanceia as revelações e descobertas dramáticas com suspense e leves traços de humor, trabalhando bem os diferentes gêneros presentes nesses segmentos.

E, ainda no ato-final da projeção, Cuarón insere Ficção Científica a mistura ao condensar a fantasia do universo da magia com o artifício de viagem no tempo: enquanto outros filmes usam esse elemento narrativo como mera desculpa para criar uma pose espertinha ou um saudosismo sem o peso que deveria, aqui em O Prisioneiro de Azkaban, o cineasta soube alicerçar o recurso do time-travel dentro de fundamentos dramáticos bem eficientes, jamais se preocupando apenas nas brincadeiras temporais, mas lembrando da urgência desse ato e ainda conseguindo brincar com as possibilidades do artifício. É a passagem mais autoral de toda a projeção, especialmente por ser mais explícito no tratamento dessa mistura de gêneros ao envolver fantasia, sci-fi, suspense e drama, alcançando um efeito bem estimulante como entretenimento.

Ainda que preso a um clima infanto-juvenil dos capítulos anteriores – o que não necessariamente se configura como um demérito da obra – Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é o primeiro filme da franquia a se desvincular de uma abordagem mais tradicional da linguagem e explorar outras áreas da mitologia desse universo, compondo uma aventura que entretêm na mesma medida que assombra e prende o espectador com uma fusão eficaz de gênero, indo de pinceladas de terror aos desenvolvimentos dramáticos, chegando a explorar artifícios da ficção científica sem criar uma narrativa inchada em sua ambição ou perdida em suas ideias, mas que sabe explorar cada um dos potenciais que exibe em equilíbrio constante, proporcionando um capítulo ágil, jocoso e completo.

Avaliação: 4 de 5.
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