dezembro 1, 2020

Her Smell (2018) | Crítica

Em Rainha do Mundo, filme anterior do diretor Alex Ross Perry, o diretor propõe uma viagem de puro desconforto pela mente fragilizada de Catherine (Elisabeth Moss) e sua relação com a amiga, Virginia (Katherine Waterston) através de uma direção que imprimia esse tom de incômodo na maneira que Perry trabalhava a linguagem. Era uma obra que, de fato, adentrava a mente e o enlouquecimento progressivo de sua protagonista a partir de uma chave mais claustrofóbica da direção. Portanto, aqui em Her Smell, Perry usa dos mesmos dispositivos para comunicar os conflitos internos da cantora (fictícia) Becky (também personificada por Moss) e sua queda ao poço onde, ao invés de sair dele, acaba cavando cada vez mais fundo nele.

O diretor inicia apostando em um formalismo bem gráfico e desconcertante na maneira como registra a preparação de Becky e os “bastidores” da apresentação através de uma lógica cênica puramente caótica: a mise-en-scène lida com diversos elementos no ambiente; existe uma forte presença de cores e luzes fortes ou em néon que produz um efeito lisérgico poderoso, a iluminação procura uma entrada forte da luz nos espaços e nos planos, a imagem distorce em determinadas situações, a decupagem de Perry jamais procura um ponto de vista mais possibilitador da compreensão do público, sempre optando por enquadramentos claustrofóbicos que oprimem as situações naquele ambiente. A dinâmica de câmera acompanha os eventos pelo espaço de modo fluido, que beira ao teatral, inclusive pelo timing impulsivo que o realizador procura imprimir.

Mais um artifício interessante é como Alex Ross Perry e o compositor Keegan DeWitt propõem uma sonoridade fortemente desconfortável na inserção de ruídos, sons de natureza indecifrável, batidas dessincronizadas, uma musicalidade quase sobrenatural que se adéqua bem ao interior conflituoso e dramaticamente frágil de Becky. O ápice desse formalismo, que ocorre nos bastidores da segunda apresentação da cantora, atinge um limite em toda essa abordagem: a imagem perde qualquer ordem, qualquer localização, basicamente fecha a câmera em toda a situação, mal dá para compreender além dos borrões dos personagens passando em frente a ela, a trilha, as cores e as luzes do ambiente se tornam ainda mais opressoras, fecham os personagens naquele camarim e fazem de um pequeno local um verdadeiro pandemônio de caos até o seu desfecho.

A segunda metade da obra segue um caminho mais organizado, onde o formalismo do diretor procura contemplar os pequenos gestos da personagem e filma tudo de modo bem dosado: os personagens são dispostos de maneira precisa no espaço, a decupagem dos planos é mais estática, os ambientes opressores e claustrofóbicos são mais abertos, amplos, permitem que o espectador compreenda os atos registrados neles. O diretor busca por um frontalidade na forma como expõe o drama, como bem exemplifica a sequência mais íntima entre Becky e sua filha ou os preparativos antes do show com a protagonista e suas companheiras, Ali (Gayle Rankin) e Marielle (Agyness Deyn).

Se a primeira parte optava por expor uma mulher completamente destruída que tenta se erguer cavando mais o fundo de seu poço emocional, o terço final de Her Smell acompanha a redenção de Rebecca, compreendendo os erros do seu passado e iniciando uma trilha diferente daquela que havia iniciado. E o formalismo mais limpo na qual Perry filma essa parte da obra, até mesmo a escolha de situar a dissolução no mesmo espaço que abriu a projeção revela muito sobre a mulher que Becky era e quem se tornou em prol daquilo que mais ama: sua filha.

Por mais “piegas” ou “moralista” que isso possa soar para alguns espectadores, acaba se adequando perfeitamente ao desfecho dramático de redenção da sua personagem. E o último plano do projeto reflete perfeitamente isso ao registrar o abraço de Becky em sua filha como a consumação da promessa que realiza a quem mais ama.

Avaliação: 5 de 5.
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